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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 7/18

Coisas do famoso bom gosto da classe média da época

Max Eluard – Quando e como foi a vinda pra São Paulo, Heraldo?
Heraldo do Monte – É o seguinte: uma noite a gente estava tocando com o Walter e entrou uma moça. Uma cantora. Havia a Rádio Jornal do Commercio, ainda não existia televisão. E tinha uma rádio que tinha programas de auditório e mandava vir muito cantor da região sudeste. A cantora era a Isaurinha Garcia. [n.e. Fã de Carmen Miranda e Aracy de Almeida, a cantora paulistana (1919-1993) fez história no rádio nas décadas de 1940 e 1950, eternizando sucessos como “Mensagem” (1943)] Isaurinha foi fazer show lá. E a gente estava tocando nessa boate. Era uma dessas na beira da praia de Boa Viagem. Só que do lado de cá, Piedade. E entra Isaurinha Garcia. E uma coisa estranha: ela não conhecia o Walter. A Isaurinha chegou, olhou para o pianista da boate, que era o Walter, e falou: “Eu vou casar com você!”. Aí ficou todo mundo (de cara)… E não é que aconteceu? Ele veio pra cá, casou com ela e eu continuei lá. Foi aí que eu conheci o Hermeto nessa boate. Tinha um pianista lá, acho que era o Ely Arcoverde. Como a gente tem tempo: o Ely Arcoverde é pianista e organista. Veio para São Paulo para a extinta TV Excelsior. Entre os programas tinha um som (uma vinheta) que era do Canal 9. E o órgão que fazia [imita o som] “Canal 9”, sabe? Esse era ele, o Ely com aquelas coisas de registro do órgão. Ele conseguia e você entendia perfeitamente aquilo que o troço estava falando. Bom, o Ely saiu do nosso quarteto; ficamos sem piano. Aí tinha um cara que tocava acordeom no regional da Rádio Jornal. Eu escutava e gostava muito, porque era um cara super original. E mesmo no regional ele dava uns acordes bem dissonantes, mas com bom gosto. Não imitava ninguém. Todos os acordeonistas de Recife imitavam o Art Van Damme, que era o acordeonista de jazz da moda. E eu gostava do Hermeto por isso. Era o Hermeto, já falei. Cheguei na Rádio Jornal e disse: “Bicho, quer trabalhar na noite?” “O que, o que é?” “Tem um lugar de pianista lá na boate em que eu toco e eu quero que você vá!” “Mas, meu filhinho, não toco piano. Do piano eu só sei a mão direita!”

[Chega o músico e gravador Manu Maltez, o último entrevistador]

Tacioli – A gente tá no Recife.
Manu Maltez – No Recife?
Max Eluard – Tá começando a vir pra São Paulo.
Heraldo do Monte – Aí o Hermeto disse assim: “Rapaz, a mão esquerda de acordeom é completamente diferente da do piano”. Eu falei: “Vamos lá, no começo eu harmonizo, faço sua mão esquerda. E você finge que toca com a mão esquerda quando o dono da boate passar”. E assim foi feito. Ele tocava as melodias, improvisava e eu harmonizando com a mão esquerda. Quando o dono passava ele não tocava, ele ficava assim com a mão esquerda, e fazia desse jeito para escondê-la um pouco. Mas daí ele começou a ir à tarde para a boate para estudar piano.
Cirino – Para estudar a mão esquerda.
Heraldo do Monte – Acho que com menos de um mês ele já estava (tocando). Ele chegou pra mim e disse: “Meu filhinho, se quiser harmonizar pode, mas agora eu já passo”. Aí ficou tocando de tudo.
Tacioli – Como essa boate se chamava?
Heraldo do Monte – Delfim Verde.
Tacioli – Delfim Verde.
Max Eluard – E como foi sua vinda pra cá?
Heraldo do Monte – O Walter (Wanderley) casou com a Isaurinha e veio pra cá. Casou aqui. E chegou uma carta pra mim me convidando para vir para São Paulo – era carta ou telegrama naquele tempo, telefone não tínhamos. Aí eu contei para uns frequentadores de grana do Delfim Verde: “Olha, o Walter está me chamando pra ir para São Paulo”. Existia uma companhia chamada Cruzeiro. Eles me arranjaram uma passagem de avião. Falei, “Não vou de pau de arara não!”. Arranjaram as passagens de avião. Eu vim. A gente foi trabalhar no Michel, na Rua Major Sertório. Aqui tinha uma tal de La Vie en Rose, também na Major Sertório. Mas era aquele tipo de boate ainda que era atapetada, servia uísque, não-sei-o-quê….
Max Eluard – Aquele tipo de boate.
Heraldo do Monte – Boate mesmo.
Max Eluard – Isso nos anos 50?
Heraldo do Monte – Já era quase 60.
Max Eluard – Haviam várias boates assim (como essa).
Heraldo do Monte – Que não era muito esculacho. A gente tocava mais bossa nova, jazz. Aí veio fazer esse tipo de negócio aqui em São Paulo.
Max Eluard – Mas já não estava contrariando aquela sua ideia de ser músico amador pra sempre?
Heraldo do Monte – Sim. Mas o negócio começou quando o cara disse, “Vamos trabalhar no cassino flutuante”. Quando eu vi o ordenado que era no cassino [risos], aí comecei a ser músico profissional e a vida foi me levando.
Tacioli – Mas qual era o repertório quando você estava na banda?
Heraldo do Monte – Eu lia o que mandavam.
Tacioli – Como foi essa evolução do repertório? Você chegou em algum momento a escolher ou tocava o que pediam?
Heraldo do Monte – A gente tinha o nosso repertório. Se ninguém pedisse, a gente ia tocando o nosso repertório.

Nos anos 1960, Heraldo do Monte também participou dos grupos Corisco e os Sambaloucos e Os Cinco-Pados. Fotos: reprodução

Tacioli – O que tinha nesse repertório?
Heraldo do Monte – “Indian summer”, alguma bossa nova, continuamos com as coisas do George Shearing aqui em São Paulo. Coisas do famoso bom gosto da classe média da época.
Manu Maltez – Que era mais jazz e bossa nova.
Heraldo do Monte – Jazz e Bossa Nova.
Manu Maltez – Bebop…
Heraldo do Monte – Bebop. Improvisos bopianos.
Manu Maltez – Eu estava vendo aquele grupo Corisco e Os Sambaloucos. Você fazia parte também. Isso foi um pouco depois…
Heraldo do Monte – Foi, foi. Foi quando eu comecei a gravar. Quando eu estava com o Walter nessa boate ainda não havia entrado em estúdios.
Manu Maltez – Isso foi em 60 e… Ou mais pra frente?
Heraldo do Monte – É, começo de 60.
Max Eluard – E você vê a importância desse período para sua formação, para sua carreira, Heraldo? Esse período de tocar em boate, de tocar tanto cover.
Heraldo do Monte – Era principalmente para o meu desenvolvimento como instrumentista. Por exemplo: a gente tocava uns arranjos desse treco, desse negócio do George Shearing. Eu tocava com determinado dedilhado. Na outra noite eu queria treinar… Estudando e ganhando dinheiro… E outro dedilhado. Outro dedilhado, outro dedilhado, porque a guitarra tem isso.
Manu Maltez – Porque também não é bem essa coisa do cover. Era um repertório que vocês improvisavam e criavam também, né?
Heraldo do Monte – Sim. Tinha o tema que era do George Shearing e o improviso era nosso.
Manu Maltez – Essa coisa de tema-improviso, tema-improviso.
Heraldo do Monte – A tradição do jazz, né? Aí você vai ganhando dinheiro e progredindo, progredindo, progredindo.

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