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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 6/18

Não gostava das coisas convencionais

Tacioli – Nessa época, o que representava pra você a música? Participar de uma banda dava um status na cidade, ali no bairro? Perdoe-me Dona Lurdes, mas o mulherio, as meninas o viam de forma diferente?
Heraldo do Monte – Eu ainda estava meio adolescente. Era muito tímido, muito na minha, era quase patológico. A gente tocava… Depois a banda foi progredindo e a gente tocava, não sei pronunciar, “Tannhäuser”, de Wagner. E era muito difícil porque a banda não tinha violinos. Os clarinetes faziam toda a parte de violinos, que é brasa. Aí comecei a progredir no clarinete. A gente tocava a “Protofonia”, do Guarani, que não se resume a esse pedacinho que tem na Hora do Brasil. É um negócio lindo! A gente tocava tudo. Naquela foto que te passei da orquestrinha – não era aquela da escola – depois comecei a ensaiar com essa. Era perto do Teatro Santa Isabel, lá de Recife, chamado Liceu de Artes e Ofícios. Eu comecei a fazer parte daquela banda. Depois de um certo tempo comecei a estudar, me interessar por instrumento de corda. Comprei um violão. Não era bem violão; eu já não gostava das coisas convencionais. Era um violão acústico, não era elétrico, mas tinha aqueles “f” em vez de ser o buracão do violão. Tinha os “f”. Eu comprei aquele treco e comecei (a tocar), só que eu não sabia. Só sabia que o violão era Mi, Si, Sol, Ré, Lá, Mi. Do agudo para o grave. Era a única informação que eu tinha. Não sabia nem um acorde. Nada, nada. Não tinha convivido com violonistas. Peguei o método do clarinete, que tinha uma escala cromática do clarinete. Comecei sozinho nisso. “O primeiro traste deve ser meio tom. Mi, Fá, Fá sustenido, Sol.” Comecei a decorar as notas do Mi, do Mizão. Como era a mesma corda Mi, já sabia as do Mizinho. Aí comecei a fazer as notas do Lá e, assim, de todas as cordas. Sabia a escala como se fosse um clarinete. Um clarinete em cada corda. O meu primeiro acorde de Dó maior foi feito assim: Dó maior é Dó-Mi-Sol-Dó, que eu já sabia, eu já arpejava no clarinete. Aí comecei: Lá, Lá sustenido, Si, Dó, na corda Lá. Aí no Ré, Ré sustenido, Mi… Lembro muito bem disso. Aí o Sol já está solto, o Si aperta meio tom. Dó, Mi, Sol, Dó. Foi a minha primeira [?], porque eu só arpejava. Dó, Mi, Sol, Dó. Daí comecei a montar os outros acordes, mas com muita teoria. E até hoje isso me ajuda porque (quando estou) improvisando eu sei cada nota que estou dando. Se eu já tocasse antes e fosse aprender [?] depois, talvez não tivesse tanta (desenvoltura)… “Isso aqui não é o terceiro traste, isso aqui é tal nota.” Foi muito bom por isso.
Tacioli – Você nunca mais tocou sopro?
Heraldo do Monte – Não, rapaz. Eu estava tocando num show do Hermeto na TV Cultura e depois do programa a gente saiu pelo corredor. Não sei se eles têm esse vídeo. Eu estava tocando saxofone. Mas como eu não tocava bem, eu estava de gozação. Um som horrível. Se eu caprichasse ia sair ruim; comecei a tocar mal de… O Hermeto não sabia se ria ou se tocava. Eu dava uma nota e ria também. Estava uma esculhambação. Eu nunca mais voltei a sério com instrumento de sopro.
Tacioli – Heraldo, ainda nessa fase adolescente, o que você imaginava seguir profissionalmente fora a música? Você tinha um horizonte: “Quero ser dentista!”?
Heraldo do Monte – Não. Eu era um perdidão. [risos]
Tacioli – Um perdidão?
Heraldo do Monte – É, um perdidão. E o pior era o seguinte: eu queria uma coisa pra mim, não ser um músico profissional, e sim músico amador.
Cirino – Pra sempre!
Heraldo do Monte – É, pra sempre. Só que eu gostava demais, mas não queria ser profissional.
Tacioli – Mas por que não queria ser profissional?
Heraldo do Monte – Acho que me falavam mal da profissão. Alguém comentava alguma coisa e eu ficava com medo e não queria ser. Mas fui… Comecei a fazer uns quebra-galhos. Fui caixa de bar, trabalhei numa fábrica de café por um tempo bem curtinho. Aí eu estava nessa, ganhando mal, não-sei-o-quê e chegou um cara: “Tem um lugar para guitarrista no Cassino Flutuante lá em Recife”. Aí eu digo: “Quanto é?”. O cara falou quanto era por mês. E era um negócio que eu nunca tinha visto, falar naquela grana. Devia ser ruim, mas eu estava pior. Daí fui trabalhar nesse cassino. Era uma barca que ficava no rio. Tinha uma ponte… Acho que era o Rio Capibaribe, se não me engano, ou Beberibe, não sei. E ela ficava assim, as pessoas iam e a gente tocava… Tinha um pianista que tocava mal pra caramba, um tal de Galvão. Ele tocava samba. Parecia um bonde em alta velocidade. A mão esquerda dele fazia… Isso é um bonde. E um cara dizia toda noite quando chegava: “Toca Brasileirinho!”. E eu tocava “Brasileirinho”. Até hoje não toco mais. Fiquei com trauma! Eu não sei mais. Eu tento, mas não consigo. Ficou lá dentro o negócio… Não dá, não dá mais! Não toco “Brasileirinho” por causa dessa época. É muito legal, olhando de longe. Uma vez a gente – eu e o Galvão – estava tocando e na janela da boate surge um cara todo molhado. Ele entra. O cara era um cobrador que tinha pegado o ônibus pra dirigir e tinha caído da ponte. [risos] Eu digo: “Meu Deus!”…
Max Eluard – O Monstro do Pântano!
Heraldo do Monte – É! E numa dessas noites, o rapaz que toca contrabaixo, o saudoso Saci, diz: “Rapaz, tu quer tocar com o Walter Wanderley? Sai dessa porcaria. O Walter Wanderley toca bem, não-sei-o-quê…”. Aí fui tocar numas boates mais classe A, classe média, né? Walter Wanderley foi para os Estados Unidos, casou com Isaurinha Garcia. É muito bom, tem uns discos de órgão. A gente fazia um som jazzístisco; já era outra coisa. Com o Walter já era um negócio de bom gosto. A gente fazia uma espécie de cover de um conjunto de um pianista inglês chamado George Shearing. Conhece? Já ouviu falar? [n.e. Pianista de jazz britânico (1919-2011), autor da melodia do clássico “Lullaby of Birdland”, sucesso dos anos 1950] Só faltava o vibrafone. A gente não tinha vibrafonista. Era um quarteto com aquele mesmo som. E era um troço de bastante bom gosto. [n.e. Organista recifense, Walter Wanderley (1932-1986) fez sucesso nos Estados Unidos em 1966 com o single “Samba de verão”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle]
Tacioli – Isso lá no Recife?
Heraldo do Monte – Nas boates de classe média, média alta, lá de Recife.

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