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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 5/18

Só dava para tocar "Asa branca" e "Oh! Susanna"

Tacioli – Você fez algum pacto pra tocar viola, Heraldo?
Heraldo do Monte – Rapaz, me deram um negócio de cobra. Falei: ”Quem foi que me deu?”. “Um violeiro lá de…” Como é o nome para o lado de Goiás?
Lurdes – Chapada dos Veadeiros.
Heraldo do Monte – Chapada dos Veadeiros. Teve um treco de viola lá e aí o cara me deu um negócio de cobra, de rabo de cobra.
Tacioli – O guizo da cascável?
Heraldo do Monte – É. “Bicho, não aceito porque eu soube que isso dá um azar desgraçado!”
Tacioli – Últimos ajustes aqui, Heraldo. E a gente já vai…
Heraldo do Monte – Tá legal. Como está o áudio?
Max Eluard – Fala só um pouquinho, por favor
Heraldo do Monte – Alôs, alôs, alôs!
Max Eluard – Tá ótimo, tudo certo.
Tacioli – Fellipe, tudo certo? Estamos ao vivo para todo o Brasil? (…) Heraldo quando eu te mandei o e-mail, logo você respondeu. Você gosta de Internet? É você mesmo que pilota o computador?
Heraldo do Monte – Sou eu mesmo. Eu gosto, eu gosto. Quando eu tenho uma dúvida eu ligo para o meu filho lá em São Vicente. Ele esclarece logo.
Tacioli – Facebook também é com você.
Heraldo do Monte – Comigo. Eu não sei quem fez o meu (perfil no) Facebook. Não foi nenhuma das pessoas conhecidas. Tanto é que está Heraldo Do, com “D” maiúsculo, Monte. Mas eu gostei. Seja quem for, obrigado.
Tacioli – Aí tem um intermediário, mas o restante é direto com você.
Heraldo do Monte – Minha filha disse, “Pai, você tem um Facebook!”. Então vamos nessa! “Foi você?”. “Não”. Eu gostaria de saber quem é e de agradecê-lo.
Tacioli – Heraldo, a Internet pra você foi um grande barato? Você gosta de navegar, de descobrir as coisas, de ouvir músicas pela Internet?
Heraldo do Monte – Gosto, gosto. Sem fazer propaganda, mas já fazendo, tem uma rádio, que não sei se é do Canadá, em que você escolhe a música por instrumento, por gênero e fica ouvindo somente aquele instrumento ou aquele gênero. É muito bom! Às vezes, quando vou para Joinville, os caras de lá dizem: “Heraldo, não tem dinheiro pra trazer o seu pessoal, mas tem uma turma aqui que lê música e tudo”. Então, peguei minhas partituras e mandei por e-mail. Que facilidade, né? Cheguei lá e os caras eram bons mesmo. O primeiro ensaio já parecia que eu tinha passado umas dez vezes.
Cirino – Dá uma boa agilizada, né?
Heraldo do Monte – Uma utilidade muito grande, senão eu teria que colocar tudo debaixo de braço, levar lá e aí eles iam começar a ver (as partituras). Mandei muitos dias antes. É muito bom! A Internet é um negócio.
Tacioli – Heraldo, quase sempre a gente começa perguntando de lá de trás, de quando tudo começou. Qual é a sua primeira lembrança musical, aquela mais remota quando você pensa em música? Ou melhor, quando pensa em sons, quais são os sons que vêm à cabeça quando você era menino?
Heraldo do Monte – Eu lembro de quando eu morava num bairro bem pobrezinho chamado Mustardinho, lá em Recife. Lá tinha muita gafieira e eu escutava muita música quando ia dormir… É engraçado, o vento traz a gafieira A, a gafieira B… É engraçado! Então, era Jacob do Bandolim, que eu escutava muito nesse tempo, que eles tocavam muito nas gafieiras. Era Luiz Gonzaga, Pixinguinha e Benedito Lacerda. Tanta gente boa. Jamelão com orquestra…
Tacioli – Isso quando?
Heraldo do Monte – Eu era super menino mesmo, sei lá, tinha uns 7, 10 anos…
Tacioli – Anos 40.
Heraldo do Monte – É. Eu lembro que veio parar na minha mão, não sei como, uma gaitinha que tinha uma oitava só. Foi o primeiro instrumento mesmo, de moleque. Com aquela gaitinha só dava pra tocar “Asa branca”, porque tem uma extensão pequenininha e não tem nota, não é cromática, e uma (outra) música que fazia sucesso na época, “Oh! Susanna”. Foi meu primeiro barato com música.

Dia da Bandeira, 1951: registro da Filarmônica em que Heraldo (3o da dir. p/ esq., atrás do bumbo) começou a tocar clarinete. Foto: acervo HM

Tacioli – Como era sua formação familiar e como chegava o som em casa?
Heraldo do Monte – Então, na minha família nenhum deles era musical, a não ser meu pai, que não conheci muito bem. Ele era trombonista de uma banda militar lá de Recife. Fora isso, somente o pessoal do bairro. Mas aí fui estudar, fui fazer o tal do ginásio numa escola técnica lá de Recife chamada Escola Industrial de Pernambuco. Andava a pé pra caramba pra chegar lá. Lá era assim: de manhã, o ginásio; à tarde, profissão. Eu fazia Desenho Artístico. E estava somente nessa. De repente, houve uma reunião no pátio da escola: “Quem quer tocar na banda?” A escola tinha uma orquestra. Eu entrei na fila. A gente foi para uma sala com o maestro Mário Câncio, que foi regente da Sinfônica de Recife. [n.e. Maestro e soprista, Mário Câncio Justo dos Santos (1927-2008) é um dos criadores do Centro de Educação Musical de Olinda e da graduação em música na Universidade Federal de Pernambuco] Tocava muito bem fagote. Era um musicão. Musicão?! Existe isso? Ele chegava: “Fulano, canta uma escala de Dó”. Todo mundo, já por intuição, sabe dar uma entoada. Aí o cara entoava. Eu entoei a minha também. Fui para o lado de cá. Quem não conseguia de cara entoar a tal da escala de Dó ficava. A partir daí a gente começou a estudar música e teoria com o Mário Câncio. Eu fiz solfejo cantado, leitura musical. Ele escrevia os exercícios e a gente começava…Ele não pedia pra você comprar um método na loja porque você decora-se todas as lições. Aí você não lê mais, está mais ou menos decorado. Então, nessa época, o que ele fazia? Ele improvisava! Ele improvisava as lições, escrevia na hora (as lições). Teve uma época em que ele ficava maluco, porque enquanto estava escrevendo, eu já começava a cantar o treco lá. Ele olhava pra mim, meio satisfeito e meio irritado, e aí escrevia uma bem (lição) difícil. “Tá bom, vou estudar!”
Cirino – Foi aí que você escolheu o clarinete.
Heraldo do Monte – Sim. Eles escolheram pra mim. Era o que estava faltando na banda. “O que é que está faltando na banda?” Já estava montada quase a banda toda. Primeiro começou: “Tá faltando uma pessoa pra tocar requinta”. Aí eles me deram uma requinta, que é um clarinete pequeninho, agudo. Começou todo mundo a estudar e eu estudando a requinta. E não conseguia tirar som. Acho que essa história é pouco conhecida. Depois de um mês, o Mário Câncio chegou e (disse): “Heraldo, faz uma escala”. Já estava com a autoestima lá embaixo. Ele era um tremendo músico, tocava instrumento de palheta e tudo. Mas alguma coisa me acordou e falei: “Maestro, por favor, tira essa escala…”. Aí ele começou a tocar igual a mim. “Não precisa me imitar!” A gente olhou e tinha uma bolinha de papel dentro (da requinta). Aí a gente tirou a bolinha de papel. O meu primeiro dia foi nesse dia, um mês depois de todo mundo. O culpado era um cara que, na hora do recreio, (sacaneava) o seu sapato e depois todo mundo ficava tirando sarro. Ele era um tremendo saxofonista! O nome dele é Demétrio. Ele até está meio doentinho. [n.e. Demétrio Santos Lima, saxofonista de orquestras e big bands, criador do quinteto de saxofones Sax Brasilis]
Tacioli – Você não deu o troco nele?
Heraldo do Monte – Não. Eu o admirava muito tocando. Eu o perdoei depois de uns anos… [ri] Depois eu volto… Fui convidado pra ser fundador da Jazz Sinfônica. [n.e. Orquestra Jazz Sinfônica de São Paulo foi criada em 1989 durante o governo estadual de Orestes Quércia. Foi idealizada por Arrigo Barnabé, então assessor do secretário de cultura, o escritor e jornalista Fernando Moraes. O maestro Cyro Pereira (1929-2011) foi o principal regente da companhia] O primeiro ano eu toquei lá, depois cansei. E adivinha quem está de primeiro alto lá? Demétrio! [ri] Falei com uns colegas meus de trompete: “Aquele é o Demétrio?” “O quê? Satanás? É!” [risos] Comecei a tocar requinta na banda, depois fui para o clarinete…

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