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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 4/18

Pode botar o queixinho aqui?

[Chega Fellipe Ciccone, responsável pela transmissão web da entrevista]

Tacioli – Entre! (…) Senhoras e senhores, Fellipe Ciccone.
Fellipe Ciccone – Olá, boa noite.
Heraldo do Monte – Cadê o apresentador? Como é seu nome?
Ciccone – Fellipe.
Heraldo do Monte – Oi, Fellipe, tudo bem?
Fellipe – Tudo. Boa noite… Ufa, cheguei!
Max Eluard – Quer deixar a mochila no quarto, Fellipe?
Ciccone – Beleza.
Cirino – Aquele é um instrumento japonês? [Apontando para uma das fotos]
Heraldo do Monte – É japonês. Tem o nome atrás: shamisen. [n.e. De origem japonesa, este instrumento de três cordas também conhecido como sangen é geralmente fabricado com couro de cobra, gato ou cachorro,
e seu formato e som lembram o do banjo]
Cirino – Não sei como se pronuncia.
Heraldo do Monte – Deve ser mais ou menos assim… Como não está em japonês deve ser shamisen.
Cirino – “Shamisen” ou “shamizen”?
Heraldo do Monte – Acho que é shamisen. Devia ter dois “s”.
Cirino – Três cordas?
Heraldo do Monte – É. E sem traste, rapaz. Pra afinar é difícil.
Cirino – Você lembra o que estava gravando?
Heraldo do Monte – Foi uma encomenda do governo de Natal. Eles pediram para colocar música numa poesia de Câmara Cascudo, que é de lá de Natal, que falava do amor de uma moça, uma japonesa, uma coisa assim. Lembra dessa poesia? Talvez não. Eu também não. [O poema “Kakemono”, do jornalista, folclorista e advogado Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) ganhou melodia de Heraldo do Monte e foi interpretada por Paulinho Boca de Cantor]
Cirino – Não conheço, não.
Heraldo do Monte – Aí eu fiz a música.
Cirino – Em cima da temática pôs o instrumento.
Heraldo do Monte – Coloquei o instrumento para realçar a coisa da japonesinha. O cara me emprestou o shamisen uns dias antes da gravação pra treinar a afinação, calcular onde era.
Cirino – Foi difícil?
Heraldo do Monte – Olha, eu pensava que era mais difícil. Na hora de pegar você vê que não é. Foi legal. Compus a música e botei a letra na poesia do Câmara Cascudo…

Heraldo do Monte gravando com o shamisen. Foto: acervo HM

Cirino – A letra é a própria poesia?
Heraldo do Monte – É a poesia. E a gente gravou lá.
Cirino – Que legal.
Heraldo do Monte – Nunca mais eu ouvi essa gravação. A encomenda foi feita. Eles não me deram mais satisfação, somente pagaram.
Jeff – Heraldo, você tem ciúmes do instrumento? [sem querer, bate o instrumento na mesa]
Heraldo do Monte – Não, pode pegar. Já viu que eu não tenho, né? [risos] Pode pegar. Essas cordas são muito levinhas. Tem que tocar bem, senão desafina. Não é que ela desafina; ela desafina com o dedo, qualquer pressãozinha ela…
Jeff – Dá até medo de continuar aqui. O tamanho de uma viola é sempre esse?
Heraldo do Monte – Não, tem de diversos tamanhos. Tem uma que tem uma cintura bem pronunciada. Tem outras menores do que essa. Tem aquela de cocho…
Tacioli – De cocho, com corda de nylon.
Heraldo do Monte – De nylon também. Só não pode ter doze cordas, senão… Que coisa, né? E esse daí não é um violão folk americano, que eles (do festival Voa Viola) tinham medo que fosse… A única coisa que não é da viola é o mizão [n.e. A corda Mi, grave], que é oitavado normalmente. Eu tirei não sei porquê. Logo logo volta. Eu gosto tudo oitavado ou nada oitavado, pra não haver discrepância. Às vezes eu penso em fazer uma afinação que coloque na primeira corda…Vai ficar um instrumento em Mi bemol, um tom e meio acima da afinação normal. Pega o Solzinho oitavado e põe como prima, depois pega o Si oitavado… Aí fica tudo oitavado. Fica Sol, Ré, Si bemol, Fá, Dó, Sol. Uma afinação de violão: Sol, Ré, Si, Fá, Dó, Sol. Aí, pronto. Tá tudo oitavado. Não tem discrepância nenhuma. Ou então põe tudo uníssono.
Cirino – E pra montar um acorde fica também difícil?
Heraldo do Monte – O quê?
Cirino – Se for tocar um acorde…?
Heraldo do Monte – Ah, sim. Quando é o normal dela, o tradicional.
Cirino – As afinações de viola também são um capítulo a parte…
Heraldo do Monte – Rio acima, rio abaixo…
Cirino – Tem uns puristas que são…
Heraldo do Monte – São terríveis.
Cirino – São terríveis.
Heraldo do Monte – Eu tomei um susto quando o cara estava abaixado ali (na minha frente) com aquele olhar de terror, olhando para as cordas da viola. Ele era o curador…
Cirino – Contando as cordas…
Heraldo do Monte – É o Roberto Corrêa. [n.e. Violeiro, compositor e pesquisador nascido em Campina Verde, MG, 1957] Ele escreveu milhares de livros sobre viola e viu toda a teoria dele indo por água abaixo.
Max Eluard – Vou colocar as fotos ali pra gente escanear, Heraldo.
Heraldo do Monte – Tá.
Max Eluard – Heraldo, você pode voltar para cá, por favor?
Jeff Dias – Heraldo, por favor, a cadeira um pouquinho mais para trás; pode permanecer no mesmo lugar.
Heraldo do Monte – Preguiça de levantar. Tá bom assim? Muito relaxado?
Jeff Dias – A mão direita aqui… Isso!
Heraldo do Monte – Tá meio virado.
Jeff Dias – Pode girar o corpo mesmo e trazer os pés mais pra cá.
Heraldo do Monte – Essa foto tá meio retrato de documento.
Tacioli – Três por quatro. Levanta o queixo.
Jeff Dias – Só não pisca, por favor. Pode abaixar um pouco mais o queixo. Na verdade, traz as suas costas pra cá. Não fica encostado. Assim! Perfeito! Só um instante.
Heraldo do Monte – Continuo pra lá?

Heraldo do Monte posa com sua Heraldola antes da entrevista. Foto: Jefferson Dias/Gafieiras

Jeff Dias – Olhando pra mim. Traz o rosto um pouco pra cá. Isso! (…) E agora aquela coisa: em vez de encostar na cadeira, traz o seu corpo um pouquinho mais pra cá. Perfeito!
Tacioli – A Lurdes está gostando, Heraldo. Agora faz uma careta!
Jeff Dias – Vou te pedir uma coisa mais chata.
Heraldo do Monte – Diga.
Jeff Dias – Para você sentar nesse banco.
Heraldo do Monte – Ao lado da heraldola? Fica quieta!
Jeff Dias – Você pode colocar a heraldola no chão e segurá-la?
Heraldo do Monte – Entre as pernas não, né?
Jeff Dias – Pode ser.
Heraldo do Monte – Pode botar o queixinho aqui?
Jeff Dias – Pode. Vira um pouco pra lá. Mas o olhar ainda em mim. Perfeito!
Heraldo do Monte – Esses óculos não estão dando reflexo?
Jeff Dias – Não.
Heraldo do Monte – Preciso trocá-lo.
Jeff Dias – Obrigado.
Heraldo do Monte – Tem que dar reflexo, né?
Tacioli – Se não der não tem graça.
Heraldo do Monte – Alguma coisa tá errada.

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