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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 3/18

Nunca fumei maconha. Não é uma vergonha?

Tacioli – Max, o Fellipe já está chegando na Vila Madalena. E o Eric falou que vai chegar dez para as oito.
Max Eluard – Eu vou ligar a câmera, então.
Tacioli – Tá bom. Eu trouxe uns petits fours.
Heraldo do Monte – Petits fours?
Tacioli – É, petits fours. Uns docinhos, sei lá… Docinhos, não, salgadinhos.
Heraldo do Monte – Petit four. Como é que escreve four? [risos]
Max Eluard – Acho que é fo-ur, né?
Heraldo do Monte – O-U-R?
Max Eluard – É. O-U-R.
Tacioli – Heraldo, tem mais um (entrevistador a caminho)… É o Manu Maltez. Ele é músico como o Giovanni, desenhista e agora escritor também. Acabou de lançar um livro infantil. Daqui a pouquinho ele está aqui e a gente começa pra valer.
Heraldo do Monte – Tá legal.
Tacioli – Li que você ouvinte da Rádio Cultura. [n.e. Emissora mantida pela Fundação Padre Anchieta, a antiga Rádio Cultura AM (1200 kHz), atual Rádio Cultura Brasil, tem programação dedicada à música brasileira]
Heraldo do Monte – Sou.
Tacioli – O Vilmar Bittencourt, que é da Rádio, viria hoje também.
Heraldo do Monte – AM?
Tacioli – É, da Rádio AM.
Heraldo do Monte – Rapaz, eu tô com um problema lá onde eu moro. Não tô pegando a 1200.
Tacioli – Não pega, né? Ali é…
Heraldo do Monte – Tucuruvi.
Tacioli – O jeito de ouvir é pela Internet, Heraldo, porque a antena dependendo do lugar em que se está na cidade…
Heraldo do Monte – A FM pega que é uma beleza. [n.e. A Rádio Cultura FM (103,3), também da Fundação Padre Anchieta, é voltada à música clássica]
Cirino – Fica até melhor pela Internet.
Tacioli – Pra ouvir a rádio? Ah, sim, o sinal é limpo.
Heraldo do Monte – Além do sinal limpo, parece que ela vem em estéreo. Transmite em AM, que é mono, mas na Internet ela vem estéreo.
Tacioli – Ouvi a entrevista que a Lia Machado fez contigo. Foi no ano passado? [n.e. Para o programa Todos os sons, da Rádio Cultura Brasil]
Heraldo do Monte – Foi no ano passado, não foi?
Lurdes – Foi. [Heraldo ri]

[Heraldo mostra as fotos do acervo pessoal que trouxe para a entrevista]

Heraldo do Monte – Ela era a rainha do tempo….
Lurdes – Tô ficando velha. [risos]
Heraldo do Monte – Pois é, agora nem eu, nem ela. Tem que pesquisar onde foi e colocar a data atrás das fotos.
Lurdes – Tem algumas coisas que me eu lembro.
Tacioli – Quanto tempo juntos?
Heraldo do Monte – Cinquenta e…
Lurdes – Cinquenta e três anos de casados.
Tacioli – É? De casado?
Lurdes – E dois anos de namoro e noivado.
Heraldo do Monte – Prelúdios. [risos]
Tacioli – Cinquenta e cinco anos.
Heraldo do Monte – Ela vai em todas as viagens. A única que você não foi, foi a da França, né?
Lurdes – Foi.
Heraldo do Monte – Não tem foto da França aí, não. A gente foi com o Edu Lobo e o Quarteto Novo.
Lurdes – Naquela época eu estava sendo mais mamãe.
Tacioli – Quantos filhos? O Luís…
Heraldo do Monte – O Luís, a Neide, a Gisele…
Lurdes – Tem quatro, mas o Heraldo já tá no andar de cima. Ficaram somente as duas meninas e o Luís.
Tacioli – E o primogênito quem é? O Heraldo?
Lurdes – Era o Heraldo. Morreu em 95.
Heraldo do Monte – Fumava demais.
Lurdes – Fumava demais.
Tacioli – Ah, é?
Lurdes – Faleceu a um mês de fazer 35 anos.
Heraldo do Monte – Alguém fuma demais aqui?
Max Eluard – Eu fumo bastante.

Heraldo do Monte e sua sa Lurdes. Foto: acervo HM

Tacioli – E você já fumou Heraldo?
Heraldo do Monte – Não, nem maconha, bicho! É uma vergonha! É uma vergonha! Nunca fumei maconha. Não é uma vergonha? [risos]
Lurdes – Ai meu Deus do céu! [silêncio] Eu fumei, né?!
Heraldo do Monte – Maconha?
Lurdes – Não maconha!
Tacioli – Revelações.
Lurdes – Naquela época eu fumava dois maços de cigarro por dia. E ele: “Nunca mais você vai parar”. Falei, “Não? Tô parando agora”. Parei.
Heraldo do Monte – Ainda bem que você tem essa personalidade.
Lurdes – Eu tenho bronca de quem fala “Não é capaz”. Se a gente quiser a gente (consegue)… Na hora eu joguei o cigarro fora. Foi a melhor coisa que eu fiz.
Cirino – Cigarro é terrível. Eu fumo também. Eu sei como é.
Lurdes – Meu filho tá fumando tanto. Ele parou três anos.
Heraldo do Monte – Tem umas exceções. Eu conheci uma senhora bem velhinha que fumou a vida inteira e demorou a morrer que só a gota. Era muito velhinha. Ela fazia carteado com um bocado de viciado também. Ficava naqueles ambientes fechados. Todo mundo fumando e ela… Cada organismo (é de um jeito)…Tem organismo que aguenta até oitenta e tantos anos, 90, 100, sei lá.
Lurdes – O chato é que ele parou três anos.
Cirino – E voltou?
Heraldo do Monte – Isso é meio burrice, né?
Lurdes – É burrice mesmo.
Heraldo do Monte – É um troço tão difícil parar três anos.
Lurdes – Mas agora eu não falo mais nada. A última coisa que falei pra ele foi “Olha aqui (…) se você for para os cafundó…”, não foi isso?
Heraldo do Monte – Ela falou coisa pior: “Pra casa do…”
Lurdes – Pra casa do caralho… [risos] “Se você quiser ir pra casa do caralho, eu não vou estar mais viva, então, que se dane!” O que eu ia fazer, né? “Mas, mãe…”. “É isso que você ouviu!” E não falei mais nada. Cada vez que eu vejo ele fumando, me aperta (o coração) sabe…

[Equipe faz últimos ajustes nos equipamentos]

Heraldo do Monte – Não é nada religioso a pessoa saber que quando morrer vai pra casa do caralho.
Lurdes – Não é?! É terrível.

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