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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 1/18

A viola é um instrumento muito patrulhado

[Ricardo Tacioli fala sobre o Gafieiras enquanto o equipamento da entrevista é montado]

Heraldo do Monte – É um leque bem aberto.
Ricardo Tacioli – É. Nosso interesse é ouvir as histórias. Claro que a gente inova os temas, dá uma provocada, mas é um bate-papo. E essa entrevista pra gente é muito especial por dois motivos. Um, por entrevistá-lo, e outra porque é a primeira nossa transmitida…
Heraldo do Monte – Com imagem.
Tacioli – Com imagem para a web. A gente nunca fez. Então vamos ver como vai funcionar.
Heraldo do Monte – Principalmente porque o jogo é às dez. Eu estava preocupado rapaz. Ninguém vai assistir. Depois descobri que o jogo é às dez. [n.e. Realizado em Córdoba, na Argentina, o primeiro jogo da Copa Roca “Super Clássico das Américas” entre as seleções de futebol do Brasil e da Argentina terminou em 0 X 0]
Max Eluard – Chá do que você quer? Heraldo, chá do quê? Tem de boldo, cidreira, erva-doce…
Heraldo do Monte – Acho que de cidreira é legal, né? Quem gosta de cidreira? Só eu? Alguém mais quer chá?
Tacioli – Obrigado, Max.
Max Eluard – Acho que eu menti. Não tem de cidreira.
Heraldo do Monte – Olha que você tem aí?
Max Eluard – Tem camomila, erva-doce e hortelã.
Heraldo do Monte – Erva-doce.
Max Eluard – Hortelã?
Heraldo do Monte – Hortelã e erva-doce é uma parada dura. Hortelã!
Jefferson Dias – Vou ficar com o de camomila, Max, por favor.

[O fotógrafo Jeff Dias orienta Heraldo do Monte para a sessão fotográfica]

Jeff Dias – Pode abaixar um pouco o rosto. Dá uma olhada para dentro da cozinha. Isso! Agora, sem movimentar o rosto, olha pra mim. Ótimo!
Tacioli – Jeff, o Heraldo também trouxe o violão.
Heraldo do Monte – O violão para a fotografia…
Jeff Dias – Eu posso abrir (o estojo do violão)?
Heraldo do Monte – Pode. Isso aqui é a minha heraldola. Pode abrir. Isso aí era uma viola, mas depois disseram que ela não era uma viola.
Tacioli – Como assim?
Heraldo do Monte – Era uma viola. Mas aí eu coloquei uma… tá com seis cordas de [?] como se fosse um violão. Eu não gosto da viola porque… Alguém toca?
Giovanni Cirino – Toco.
Heraldo do Monte – Então, eu comecei a desgostar da viola quando fui fazer uma gravação. Você sabe que a viola tem duas cordas uníssono e o resto é oitavado. E o maestro, “Eu gostaria que você trouxesse uma viola”. Isso foi no tempo que a gente gravava muito. E tinha uma frase que você começava naquelas cordas de uníssono e depois pegava as oitavadas. E tinha uma frase que era quase uma escala…Estava escrito isso. Aí peguei a viola e… E na viola ficava…”Não foi isso que escrevi, Heraldo”. Mas você que pediu viola. Viola é um instrumento aleijado. É muito característico. Aí já comecei a dizer, “Esses instrumento não serve pra gravar”.
Cirino – Tocar junto fica difícil.
Heraldo do Monte – É, para esse tipo de coisa. O cara quer uma coisa específica. E não dá para…Você tem que oitavar mesmo. Você seguia tocando como se estivesse tocando qualquer outro instrumento e o som saia diferente. Aí era uma de dez. Eu tocava viola de dez, que é uma viola aceita. Aí eu estava ensaiando um negócio no Rio. Estava escrito um negócio assim… [Pega a viola para exemplificar] Como a viola não tinha a sexta corda. Olha o que eu tinha que fazer. Tinha que oitavar.
Cirino – Além de soar diferente, fica mais difícil.
Heraldo do Monte – Pois é. Você tá lendo e no reflexo ainda ter que oitavar o negócio.
Cirino – Às vezes a dicção do fraseado acaba mudando.
Heraldo do Monte – Pois é. Aí, pra quebrar esse galho, pra começar a ler as coisas mais sossegado, como se tivesse uma sequência de baixo, eu pedi, porque o cara fez pra mim de graça, Néris, um luthier de Campinas. Fez pra mim uma viola. Que é exatamente um corpo de viola, com madeira de viola, só que doze cordas. Para mim estava tudo certo. Porque eu continuava tocando viola e não tinha esse problema do baixo. Aí fui para fazer o Voa Viola [n.e. Projeto de mapeamento da viola no Brasil conduzido pelos pesquisadores e instrumentistas Paulo Freire e Roberto Corrêa. O Festival Voa Viola já teve duas edições, em 2010 e 2012]. Eu estava tocando essa viola não com essas seis cordas, mas com todas as cordas, com as doze, com as oitavadas e tudo. Eu estava passando o som e, de repente, uma pessoa fica de cócoras na minha frente. Eu com o microfone, sentado, e ela de cócoras com os olhos esbugalhados. “Não!” Era o curador do Voa Viola dizendo que a viola não podia ter doze cordas. Aí eu digo, “Meu Deus. O que é que eu faço?”. Pronto, não chamo mais de viola. Chamo de heraldola. Eu ponho as cordas que quiser, do jeito que quiser. Não é? [risos]
Tacioli – Heraldola…
Heraldo do Monte – Heraldola. Não é? Agora eu quero ver.
Tacioli – Ninguém enche o saco.
Heraldo do Monte – Só se tiver o Voa Heraldola.
Cirino – É aquela coisa do…tem um patrulhamento.
Heraldo do Monte – É, um patrulhamento. Ele disse que…Nesse show eu fui teimoso e fiz com ela. E o cara disse que o que tuitaram metendo o pau, porque foi ao vivo por Internet também. Era uma TV, acho que começou em Belo Horizonte. Disse que tuitaram metendo o pau em mim: que eu não podia, que não era doze, que tinha de ser dez. Eu comecei a dar entrevistas dizendo “Quando eu estiver tocando, vocês escutem a música e não fiquem contando as cordas”. Coisa estranha, o cara nem sabe o que eu toquei e ficou “uma, duas três…”. É um instrumento muito patrulhado.
Cirino – Porque tem um séquito de seguidores da tradição da viola que acaba…
Heraldo do Monte – É. O jeito é você fugir. Tô fora.
Tacioli – Subverter, tá certo.
Max Eluard – Heraldo, você toma chá puro, com açúcar? Como prefere?
Heraldo do Monte – Acho que puro. Nem sempre, mas agora eu quero.

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