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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 18/18

O Brasil não tem uma linguagem de improvisação

Tacioli – Heraldo, você sente falta de reconhecimento? Você acha que poderia ser mais reconhecido no seu trabalho?
Heraldo do Monte – Rapaz, não. Muito músico de jazz e desse tipo de música embarca pelas drogas porque não entende uma coisa: a gente nunca vai entrar no coração de uma pessoa que gosta de Não-Sei-O-Que-Santana. Como é esse cara do sertanejo?
Tacioli – Luan Santana?!
Heraldo do Monte – Luan Santana. Esse tipo de pessoa, se forçar a barra porque o namorado a levou para assistir a um show da gente, ela vai sair na segunda música. Ela não entende que você está improvisando não-sei-o-quê, não-sei-o-que-lá. E é muito ruim dela (embarcar), porque é uma pessoa que não teve uma formação musical na escola. E se teve, hoje em dia o curso de formação musical é somente percussão… Aí como o menino vai curtir Mahler ou Chopin? Ou jazz e Miles Davis? Como se ele não teve base nenhuma para isso?
Manu Maltez – Fiz faculdade de música e seu filho estuda música. A minha (faculdade) misturava um pouco de música popular e erudita, que eu achava uma coisa legal. Mas como ensinar música popular? Sempre foi uma questão, porque ainda é muito em cima do jazz; tem poucos livros sobre música brasileira, sobre improvisação. E tem outra coisa que incomoda: estudar e transformar uma linguagem popular em música erudita, que é teorizar toda a música popular e passá-la como uma matéria. Aí surge Improvisação I, II, III e IV, entendeu? Você deu aulas… Então, como você vê um curso de música popular no Brasil hoje? Como é possível fazer isso? É difícil, né?
Heraldo do Monte – É, é difícil, porque se você quiser formar guitarristas bons, você tem que ensinar modos e não-sei-o-quê. E enveredar um pouco pelo jazz mesmo. Jazz e erudito.
Manu Maltez – Como fugir do jazz?
Heraldo do Monte – A gente não tem uma linguagem de improviso. Tem agora, depois do Quarteto Novo, mas a gente não tem como a Índia. A Índia tem uma linguagem de improvisação, uma linguagem deles, que não tem nada a ver com o jazz. É uma coisa antiga, antes do jazz. Então, não pode ter influência do quê? Mas a gente não tem uma linguagem de improvisação.
Tacioli – O choro não é uma linguagem?
Heraldo do Monte – O choro é… A improvisação do choro é a seguinte: não são improvisações, são ornamentos, variações sobre um tema. Bem pertinho do tema, senão a patrulha cai em cima, né?
Cirino – No Rio tem uma escola do choro. Na origem, o choro tinha essa coisa de estar sempre mudando. Agora, ficou uma academia do choro, a coisa fica fechada em si. E tem uma fama de que as pessoas tentam preservar uma identidade da música frente à globalização. Mas, por outro lado, tem esse negócio de fechar (o gênero às transformações).
Heraldo do Monte – Eu gosto do Hamilton de Holanda porque ele improvisa bastante, ele improvisa mesmo. Só que, quando improvisa, deixa o tema pra lá. Faz uns improvisos na linguagem do choro. E, ao mesmo tempo, não está preso. Ele está solto porque é uma linguagem que ele domina e ouviu a vida inteira. Então, você pode improvisar, fugir, deixar o tema pra lá. Toca o tema, toca o chorinho e segue a harmonia. Fica livre, faz as suas acentuações de choro e improvisa. Depois volta para o tema normal. Isso não vai subverter o choro de jeito nenhum. Se ele acabasse de tocar o choro e fosse tocar jazz, aí sim, aí ficava perigoso. Mas do jeito que alguns chorões fazem, inclusive e principalmente o Hamilton, acho que não. Espero que ele não tenha sofrido o que eu sofri, porque ele fez um bandolim de 10 cordas.
Manu Maltez – Você sofreu essa patrulha?
Manu Maltez – Mas isso na década de 60?
Heraldo do Monte – Não. Fui fazer o Voa Viola e estava passando o som. Esse (instrumento) aqui estava afinado como viola, só que tem mais duas cordas para tocar solos. Já contei pra eles. [Aponta para parte da equipe] Eu estava passando o som e quando vejo tem uma pessoa de cócoras na minha frente, com os olhos desse tamanho. Era o Roberto Corrêa. “Não!” E eu falei: “O quê?”. “Doze cordas! Você não trouxe uma viola?” “Isso aqui é uma viola. É madeira de viola, é tamanho de viola.” “Doze!” Que é isso, meu Deus?!
Manu Maltez – Que loucura!
Heraldo do Monte – É. Então, espero que o Hamilton nunca tome esse susto. “Não! Dez!”

Manu Maltez – O engraçado é que isso parece uma volta: ao mesmo tempo que existe um movimento de total abertura, em que às vezes é uma coisa que não sobra nada, como um samba do criolo doido, por outro lado, tem uma coisa de proteger o negócio tanto que fica neurótico.
Heraldo do Monte – É o que eu falei pra ele. No outro dia teve reunião. Ele (Roberto Corrêa), ao lado de uma moça, é curador desse movimento Voa Viola. Falei: “Vocês estão dando muita importância a mim. Se eu tocar com uma viola de 12 não significa que o instrumento vai sumir somente porque toquei umas musiquinhas. Quem toca, quem ama viola de dez, vai continuar amando a viola de dez!”.
Manu Maltez – É a sonoridade da viola.
Heraldo do Monte – Não é? Claro! Aí ele disse não-sei-o-quê. E eu terminei fazendo, tocando. No meu Myspace tem um negócio lá do YouTube em que acompanho o Lenine tocando essa (viola) com 12. Para o desespero dele!

Depois teve uma reedição do Voa Viola aqui em São Paulo. Falei: “Não vou passar por isso de novo”. Eu estava sem viola de dez. Mandei um e-mail para o Mário de Aratanha, que era o produtor, um cara da Kuarup. Ele acreditou naquilo que falei. Eu estou rindo agora, mas… Mandei um e-mail assim: “Fala para o Roberto que estou com saudades de tocar viola de dez”. Eu estava querendo era pegar o cachezinho que era bom pra caramba. Aí ele me emprestou (a viola). Falei: “Só que (ela) precisa vir antes para minha casa para me acostumar com ela”. Ele foi muito legal. Mandou pelo correio, sei lá, mas chegou em casa. Mas chegou com as cordas duras pra caramba; aí coloquei as minhas cordas.
Manu Maltez – Você coloca chacoalho de cascável dentro da viola?
Heraldo do Monte – Não, porque eu sei que aquilo me dá um azar desgraçado.
Manu Maltez – Falaram que é muito bom.
Heraldo do Monte – Tá louco, não dá, não!
Max Eluard – Heraldo, este é o segundo fim. Vamos acabar de novo a entrevista. O táxi chegou.
Heraldo do Monte – Então é inevitável.
Max Eluard – É inevitável o fim.
Heraldo do Monte – Quem é? É o Max de novo? Não, o Flávio de novo?
Max Eluard – Não, é outro. Agora é o Ivanildo que tá lá embaixo. Obrigado.
Heraldo do Monte – Você já escaneou as fotos?
Tacioli – Acho que o Eric já terminou.
Heraldo do Monte – Tá legal.
Tacioli – Depois, Heraldo, pego as informações (das fotos) contigo.
Heraldo do Monte – Tá. Se estivesse escaneado o verso, as costas das fotos, tem algumas informações lá.
Tacioli – Ele anotou a informações.
Heraldo do Monte – Ah, legal. Então, tá perfeito.
Manu Maltez – Heraldo, quando foi a última vez que você falou com o Hermeto?
Heraldo do Monte – Eita.
Manu Maltez – Faz tempo?
Lurdes – Foi naquele último show no Sesc.
Heraldo do Monte – No Sesc. É, fui assistir a um show com ele no Sesc. Acho que faz um ano, não?
Lurdes – Não, faz uns seis meses, mais ou menos.
Heraldo do Monte – Uns seis meses?
Lurdes – Faz uns seis meses.
Manu Maltez – Ele aprontou alguma ali? Alguma daquelas antigas?
Heraldo do Monte – Não. Aquilo ele só fazia quando era só um músico… Era revoltado quando não tinha feito sucesso.
Tacioli – Agora não apronta mais nada.
Heraldo do Monte – Não. Só quebra piano, esse tipo de coisa.
Manu Maltez – E aperta porco no palco. Ele gosta disso também.
Heraldo do Monte – Até isso?
Max Eluard – Deixa tirar o microfone. Dá licença.
Heraldo do Monte – Tá legal. Aquilo era do tempo em que ele era revoltado. Um cara chegou pra cantar com ele, eu estava na guitarra, ele no piano e acho que o [?] no baixo. Aí o cara chegou, com uísque, e falou pra ele: “Me acompanha aí! Começa em Fá esse tango”. Ele fez a introdução. Aí ele pegou quatro Fá sustenidos do piano – aqui (na viola) não tem tantos – e ele fez isso aqui. Mas tão forte, bicho! Ele apertou aquele acelerador de sustenido do piano, que fica forte pra caramba. Fá sustenido, Fá sustenido, Fá sustenido, Fá sustenido. Conservou aquela nota e o cara parecia uma sirene. Eu me diverti muito com o Hermeto nessa época. Moleque que só ele. E as fotos? Tchau, tchau, gente!
Max Eluard – Vou descer com vocês. Lurdes, muito obrigado pela paciência. Heraldo, um prazer enorme. Obrigado. Espero que tenham gostado.
Heraldo do Monte – Eu gostei. Eu adorei.
Cirino – Tchau.
Heraldo do Monte – Tchau, tudo de bom pra vocês. Vai dar Brasil ou Argentina?
Manu Maltez – Você torce pra quem em São Paulo?
Heraldo do Monte – Eu sou assim: Náutico, Flamengo…
Tacioli – E Corinthians.
Heraldo do Monte – Não! Náutico, Flamengo e Santos.
Tacioli – A última coisa: a autorização (de voz e imagem), senão todo esse papo não pode existir. Tem uma caneta, Max?
Max Eluard – Tenho.
Heraldo do Monte – O.K. Aqui, né?
Tacioli – Obrigado.
Heraldo do Monte – De nada.

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