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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 17/18

Tive convite para morar no exterior

Tacioli – Heraldo, você lida com Internet, mexe com computador. Já teve flertes com a música eletrônica, teve interesse em trabalhar com outras texturas?
Heraldo do Monte – Nunca pensei em misturar (a minha música) com música eletrônica. Talvez entra aí o romântico. Talvez eu ache ainda, não sei, um pouco mecânico ou eletrônico demais, ou o que seja. Talvez, não. Talvez brigue um pouco com o meu sentimento romântico, com o meu Chopin interior, meu Stravinsky interior.
Tacioli – É que me parece nos discos que há uma limpeza (sonora): não tem pedais, não tem efeitos. O som é sempre limpo.
Heraldo do Monte – Nunca eco demais. Ou um pouquinho só. Um pouquinho de delay, às vezes. Mas só mais recentemente estou usando. Gosto mais do natural. Tiro delay, boto delay. E assim vai.
Max Eluard – Você passou por baile, boate, rádio. Como instrumentista, você pegou diversos tipos de serviço porque precisou. Claro, os serviços variam de época para época, mas as épocas trazem tipos de serviços diferentes. Queria ouvir você falar sobre o mercado da música instrumental, porque, como você mesmo disse, é uma música difícil comercialmente, e você vem sobrevivendo disso.
Heraldo do Monte – Então, estamos aí. Esse ano está ruim, mas não parei totalmente.
Max Eluard – Mas, como instrumentista, teve um momento legal comercialmente em que você disse “Poxa, o aluguel está garantido e a geladeira está cheia”? Qual foi esse período?
Heraldo do Monte – O ano passado. O ano passado foi ano de eleição. Aí teve trabalho bem pago pra caramba.
Tacioli – E o contrário, Heraldo, um momento difícil?
Heraldo do Monte – Nunca tive, não.
Tacioli – Nunca passou por uma…?
Heraldo do Monte – Não. Quando tem isso eu arranjo um trabalho com carteira assinada. Sabe que eu trabalhei com carteira assinada? Eu fui me aposentar e tinha não-sei-quantos anos na Delfim Verde, que é essa (boate) de Recife. Sete anos na Tupi. Eles pagavam INSS, carteira assinada. Aí me aposentei.
Tacioli – Penúltima pergunta: o que te dá medo, Heraldo?
Heraldo do Monte – Medo? Não sei. Tô querendo ser espírita pra não ter medo de morrer. Ainda não fechei o negócio.
Tacioli – Dá medo morrer?
Heraldo do Monte – Dá, claro. Sabe lá se existe esse negócio de eternidade. Será que existe? Será que não existe? Se existir é bom. Tem uma frase de Jesus para o ladrãozinho que diz “Hoje mesmo estarás comigo no Paraíso”. Essa frase é legal. O Nando Cordel, que é espírita mesmo, chegou e (disse): “Não! Essa frase foi traduzida errada”. “Como é? “ “Em verdade, vos digo…”. Só sei que ele acabou com a esperança. “Em verdade, em verdade vos digo. Hoje…”. Não sei, só sei que o cara não vai estar no Paraíso coisa nenhuma.
Tacioli – Tá lascado, vai pagar pelos pecados.
Heraldo do Monte – Pois é. Eu não lembro como é a frase, como é a tradução que ele viu. Aí é de lascar. Dá medo de morrer mesmo.
Tacioli – Mais alguma pergunta, gente? Heraldo, obrigado pelo papo. Foi ótimo! Essa foi nossa primeira entrevista transmitida (ao vivo).
Heraldo do Monte – Foi um prazerzão. Um prazerzão.
Tacioli – E Lurdes, obrigado pela paciência.
Heraldo do Monte – Ela está acostumada.
Max Eluard – Ela foi fundamental. Fez toda a consultoria aqui.
Heraldo do Monte – É, a consultoria. É a memória.
Tacioli – É um HD externo.
Heraldo do Monte – Obrigado.
Tacioli – Heraldo, você falou da Dolores Duran, da música que ela cantava. Era uma música que a eternizou como aquela figura triste, mas dizem também que ela era uma muito divertida. Na real, como era a Dolores Duran?
Heraldo do Monte – Eu só a conheci no estúdio. Não deu tempo de conviver muito com ela. E ela estava concentrada no trabalho. Só soube que ela era uma tremenda improvisadora.
Tacioli – Ela morreu moça, com 29 anos.
Heraldo do Monte – De problema no coração, né? Jazzista, rapaz!
Tacioli – Mas isso também é fruto do cantar na noite.
Heraldo do Monte – Do contato com músicos de diversas tendências, mais jazzistas, porque naquela época o pessoal do Rio, daquele Beco das Garrafas, todo mundo tinha uma linguagem sofisticada. Todo mundo improvisava. E ela sacou.
Tacioli – Você não teve vontade de ir para o Rio?
Heraldo do Monte – Não. Eu vim direto pra cá por causa do negócio do Walter (Wanderley). Eu não tenho vontade de ir. O Paulo Moura, coitado, me chamava, “Vamos para o Rio. Vamos para o Rio. Vamos para o Rio”. Aí teve um dia que ele falou assim: “Não precisa ir mais para o Rio, não!”.
Tacioli – Para o exterior você não teve esse convite?
Heraldo do Monte – Tive convite, tive convite, mas não fui. Eu pensava assim: “É muito longe do Recife”. Primeiro, tive um (convite) do Walter Wanderley, quando ele foi pra lá. Depois o Airto (Moreira) ficou muito amigo do Wayne Shorter; eles estavam formando o Weather Report com aquele tecladista…
Manu Maltez – Com o Joe Zawinul. [n.e. Tecladista e compositor austríaco (1932-1997) integrou as bandas Weather Report e Zawinul Syndicate]
Heraldo do Monte – Isso! E o Airto, “Olha…”. Qual é o nome do saxofonista que eu acabei de dizer?
Manu Maltez – Wayne Shorter.
Heraldo do Monte – “Tô aqui com o Wayne Shorter. Ele é casado com uma portuguesa. E ele ouviu o lance do Quarteto Novo. Eles querem montar um conjunto novo que não tenha, exatamente, o que a gente não queria, bebop, com uma linguagem diferente. Eles estão querendo você aqui junto com o Airto.” Aí eu falei: “Não!”. Sabe por quê?
Cirino – Não foi?
Heraldo do Monte – Não fui, não. Eu falei assim, “Rapaz, eu não sou músico 24 horas por dia. Quando a gente estiver ensaiando e tocando vai ser legal. Mas depois eu não vou gostar de estar num travesseiro americano”. Não!
Tacioli – Mas você lamenta?
Heraldo do Monte – Não! Nunca lamentei. Nunca me arrependi disso. Agora então, que eles (os Estados Unidos) estão ferrados. Mas, realmente, nunca me passou pela cabeça nenhum arrependimento. Adorei não ter ido. Você já vai com má vontade para um lugar. Aí chega lá e vai que pega um cara com preconceito com você. Já pensou? Uma coisa que você não tem aqui. É uma coisa que eu estou livre, de preconceito. Estou no meu país. É muito bom. Nunca quis morar em lugar nenhum fora daqui.
Manu Maltez – Eu tenho o mesmo sentimento.
Heraldo do Monte – É isso aí. Uma vez, a gente estava em Paris, quando a gente foi fazer esse negócio com o Edu Lobo. A gente estava passando, o Hermeto, o pessoal do Quarteto…
Manu Maltez – Qual disco do Edu Lobo? Era o Cantiga de longe?
Heraldo do Monte – Não era disco, era show. Era um show, sem disco. A gente ensaiou um repertório com ele e foi… A gente ia passando em Paris; tinha um café aberto. E estava cheio de gente. O Airto com aquele jeito… A gente com esse jeito diferente, o Hermeto foi querer tomar um café. Os caras falaram que tinha acabado o café. O café cheio e todo mundo tomando café. Os caras tiveram coragem, não queriam servir a gente. Era num negócio aberto, quase na rua, com uns degrauzinhos… Quer dizer, morar num lugar desse? Deus me livre!
Manu Maltez – Você não chegou a ficar dois meses para gravar ou alguma coisa assim?
Heraldo do Monte – Não, somente para fazer show.
Manu Maltez – Só show mesmo? Gravação nunca?
Heraldo do Monte – Fui pra Montreal essa vez, mas fiquei uns quatro dias só, já doido pra voltar para cá. Eu estava morando em Recife nessa época. Engraçado. A gente tocou… Estava o Alemão com o grupo dele…
Cirino – O Alemão?
Heraldo do Monte – É, aquele. A gente se encontrava lá. Saiu uma vez pra comprar afinadores, cordas, esse tipo de coisa. Eu estava lá já para o segundo ou terceiro dia, estava vendo a televisão deles em francês. Em Montreal só se fala francês. Falam inglês e francês, mas o que eles gostam mesmo é o francês. É o oficial. Eu estava vendo a televisão e estava passando Boa Viagem… “Que sacanagem é essa? O que isso está fazendo aqui?” Aí voltei pra Recife.
Manu Maltez – E o que São Paulo tem ou tinha que te cativou? Lá em Recife tinha praia, tinha aquela vida de contemplação. O que São Paulo tem? Ou é somente trabalho?
Heraldo do Monte – Rapaz, é o seguinte: passei dois anos em Recife há três anos. Cheguei em Recife acostumado a ver televisão aqui (em São Paulo). Minha TV tem um negócio que diz (se o som está em estéreo ou mono). Bom, liguei na Globo. E o que me aparece escrito na minha televisão? “Mono!” “Peraí, mas a Globo não é em estéreo?” – e a Globo é a televisão mais rica do Brasil. “Mono!”. Aí falei: “Eu não! Vou embora!”. Agora pode até ter mudado, mas quando passei por lá a Globo era em mono e o resto em mais mono ainda, se é que é possível. Meio-canal, sei lá. Adoro São Paulo, pelo amor de Deus! Aqui você vai comprar corda! Tem as cordas que você quer. As palhetas que você quer. A televisão é em estéreo. Daqui a pouco vai ser 5.1. E assim vai…
Cirino – Já é. Já tem coisa transmitida em 5.1.
Heraldo do Monte – Pois é. Tô aqui.

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