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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 16/18

Curto as coisas que eu fiz

Manu Maltez – Heraldo, como é o seu processo de composição?
Heraldo do Monte – Varia. Tem duas músicas que eu fiz que foi interessante (o processo). Foi dado de graça. Eu acordei com ela na cabeça. Acho que estava sonhando com ela. Cheguei e escrevi. É o “Esperando a feijoada”, aquele chorinho, e “Doçura”. Você acorda e só escreve o que já está pronto.
Manu Maltez – Você fez dormindo ou alguém fez pra você, se você acredita em alguma coisa de fora?
Heraldo do Monte – Sei lá, tem o negócio do sonho e tem a coisa também calculada, matemática.
Manu Maltez – Racional.
Heraldo do Monte – Racional, que é uma busca da beleza por meio do negócio certinho, mecânico. Mas tem uma música minha que foi gravada num disco… O André Geraissati tinha uma gravadora e eu fiz um disco nessa gravadora.
Tacioli – Na Tom Brasil?
Heraldo do Monte – Isso, Tom Brasil. Nesse disco tem uma música chamada “Pablo”, que é para um filho do Luís. É meu neto, então. Que é assim: uma série de movimentos contrários. Foi feita no computador mesmo. Mas não o computador. Eu escrevi no computador naqueles programas que tem de escrever música.
Tacioli – Uma equação mesmo.
Heraldo do Monte – É, uma equação tendo um certo cuidado para ter alguma beleza naquilo. Eu tomei a decisão de fazer em movimentos contrários sem nunca haver movimento paralelo. Fiz esse “Pablo” todinho assim. Essa é uma das matemáticas, das (músicas) feitas matematicamente.
Tacioli – Heraldo, quando a música mais vulgar, os sons da rua, os músicos da rua ou qualquer tipo de som te atrai? Tem alguma coisa que chama a sua atenção que não essa (música) feita para o disco, feita para o show? A música que circula… Tem alguma que te atrai? Você anda com os ouvidos abertos pra isso?
Heraldo do Monte – Ando, ando. Mas como a gente usava no Quarteto Novo, a gente escutava, e escuta, esse tipo de coisa, mas tem que passar pelo nosso crivo. Eu vejo até, inclusive em Recife, não vou citar, mas alguns caras que estudaram em conservatório e fizeram a faculdade normal, eles fazem um trabalho em que fingem que tocam mal pra poder parecer se com o povão. Eu acho isso falso. É fake, super fake! Isso não gosto de fazer. Eu ouço o cara. Mas, afinal, eu estudei um pouco. Não pode, tem que passar pelo meu crivo, senão, o que adianta, né? Fica falso, só isso. Tem que ser uma releitura. Mal comparando, como Chopin fazia do folclore polonês. E como desse cara. Não e possível que vou esquecer… O russo…
Manu Maltez – Bartók?
Heraldo do Monte – Não. Um russo mais romântico, que fez “Romeu e Julieta”…
Manu Maltez – Tchaikovsky?
Heraldo do Monte – Pois é. Esse cara pegava, ouvia o pessoal das balalaicas. Mas não fazia igual.
Manu Maltez – Filtrava.
Heraldo do Monte – Ele filtrava e passava por um cara…E era um maestro com toda a teoria do mundo.
Cirino – Tinha que passar pela erudição dele.
Manu Maltez  O Villa também.
Heraldo do Monte – É, o Villa também. O Villa não finge que toca mal, só pra ficar parecendo com…
Tacioli – Heraldo, me parece, pela sua fala, seu discurso, que você é perfeccionista.
Heraldo do Monte – Eu acho que sim.
Tacioli – Isso te incomoda? Já te incomodou?
Heraldo do Monte – Às vezes me dá um pouco de cansaço. Mas eu fico satisfeito depois. Por exemplo, esse negócio da música do Villa, se eu conseguir a tal notinha e as outras, der uma conferida e ter certeza do que está, ter certeza que está gravando uma do Villa mesmo, do jeito que ele pensou, eu vou ficar feliz. Mas enquanto isso eu estou atrás.
Tacioli – Você ouve uma gravação sua dos anos 60 ou dos 80 e fala “Poxa, faltou uma notinha ali que eu podia ter posto”. Incomoda?
Heraldo do Monte – Você sabe que eu curto! Eu curto mesmo! Eu curto as coisas que eu fiz antes.
Tacioli – Todas?
Heraldo do Monte – Todas. É. Não tem nada que eu…
Tacioli – Mesmo antes do Quarteto, não tem nada que não te agrade?
Heraldo do Monte – Não, nada que me desagrade, só que agrade. Eu gosto de tudo que eu fiz. Acho bonito. Eu não sou perfeccionista a esse ponto de “Puxa vida, que coisa horrorosa!”.
Cirino – A gente nota até nas gravações uma certa sujeira, no bom sentido, que é cada vez mais difícil de encontrar. E que é essa coisa da espontaneidade. E isso conta com uma certa imperfeição e com uma…
Heraldo do Monte – Claro. Principalmente se você está improvisando. Se você está improvisando…
Cirino – Você está sujeito a isso.
Heraldo do Monte – É. A ter aquele momento, aquela fração de segundos, principalmente…Tem uma fração de segundos que você vai fazer uma frase e na sua cabeça parece três frases, por exemplo, no mínimo. E você tem que escolher uma delas pra tocar e depois a outra nota, e depois a outra…É muito difícil. Dali tem que passar por isso. E você ainda realizar aquilo da maneira mais limpa possível.
Cirino – Mas é uma música que conta já com essa imperfeição que, na verdade, é ate mais difícil.
Heraldo do Monte – É, os improvisos… Improviso que é muito limpo dá a impressão que o cara estudou em casa, que decorou o improviso. Era improviso na hora que ele fez. Aí ele escreveu aquilo ou decorou aquilo e vai tocar na hora de improvisar. Aí deixa de ser improviso, né? Eu, como todo mundo que improvisa, tenho repertório. Repertório não, tem uma base… Como agora: estou falando e usando palavras que já existem. Só estou colocando numa ordem, numa determinada ordem, para expressar um pensamento. Então, se eu não soubesse nenhuma palavra eu não estaria falando. Então, todo o improvisador tem uma coisa que chamo de [?]. Você tem um repertório de coisas que estão embaixo do seu dedo. E quando você está improvisando vai usando as palavras, que você conheceu quando era criancinha. E vai formando um pensamento com aquilo. Mas você conhece as palavras. Se você não soubesse nenhuma palavra, você não conseguia falar. Então é a mesma coisa do improvisador. O improvisador tem alguma coisa embaixo do dedo que ele vai por em ordem para fazer um pensamento musical.
Manu Maltez – Essa coisa do improviso acaba entrando também nos seus arranjos, no próprio jeito de arranjar. Eu estava ouvindo um arranjo seu de “Bebê”, daquele disco de 1980, que começa todo solto e depois entra com ritmo e aquilo tudo. É um arranjo, mas foi todo improvisado.
Heraldo do Monte – Aquele começo… O começo do “Bebê”, a exposição do tema foi feita em casa.
Manu Maltez – Tem uma coisa blocada.
Heraldo do Monte – É, blocada.
Manu Maltez – Mas a gente vê que tem uma coisa também de interpretação.
Heraldo do Monte – Tem. E mesmo na coisa feita em casa… Cada vez que eu toco, coloco no meio da coisa feita em casa, uma coisa diferente. De cada vez que eu faço. Mas uma coisa que não atrapalha o fluxo, porque estou expondo um tema blocado, como você disse, e não posso ficar aéreo ali. Tem que seguir aquele esquema. Agora só na hora do improviso mesmo. Mas mesmo quando estou tocando sozinho alguma coisa, mesmo na exposição do tema, fica entre essas coisas. Aquela coisa que foi feita em casa por garantia…
Manu Maltez – E o modo como você conjuga isso…
Heraldo do Monte – Isso. Senão fica chato pra mim. Eu não gosto.
Manu Maltez – Eu gosto muito da sua música. Acho que tem uma sujeira. Esse tipo de sujeira me agrada.
Heraldo do Monte – Legal.

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