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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 14/18

Não gosto de tocar sozinho

Tacioli – Heraldo, tem uma frase na Internet, fala se é sua: “Quando você vai amadurecendo, você vai ficando mais romântico, menos rítmico e mais melódico”.
Heraldo do Monte – Pode ser, pode ser.
Tacioli – Pode ser sua essa frase?
Heraldo do Monte – Pode ser minha.
Tacioli – E faz sentido? Como músico, como você percebe a evolução do tempo em volta de você? Como ficar mais velho influencia sua forma de tocar, sua forma de compor, sua forma de ver música?
Heraldo do Monte – É mais a forma de viver do que de ver música. Mas agora tem, como tudo meu, uma vertente contra. Quero dizer, estou fazendo músicas rítmicas mais do que nunca. Então, não liga para o que eu falo. Talvez (seja) para combater a velhice, não é?
Tacioli – Mas tem algo que você faz que o faça se sentir mais jovem? Tocar com o Hermeto, por exemplo.
Max Eluard – Mais renovado?
Tacioli – Tem algo? O que é esse algo?
Heraldo do Monte – Acho que só tocar mesmo, tocar com outras pessoas, principalmente. Não gosto de tocar sozinho. Aquela solidão… Primeiro, porque o violão não foi feito pra tocar sozinho; quando você faz um baixo em um acorde, os dedos, você perde, a não ser que seja uma peça que tem uma melodia sozinha… Aí um acorde… E depois… Que você possa interpretar. Agora, uma coisa que é cheia de acordes de baixo que é…Sabe? Não fica…Fica uma coisa virtuosa, “Poxa, o cara tá fazendo a harmonia, melodia e os baixos”. Mas fica uma coisa de mostrar que você faz as três coisas. Mas você não fica com dedos livres para interpretar. Por isso que eu não gosto de tocar sozinho. Gosto de tocar sempre com um acompanhamento. Algumas coisas eu toco sozinho. Mas eu escolho alguma coisa que eu possa interpretar e dar os acordes e os baixos na hora certa. Mas essas peças, eu ouço violonistas tocando e é uma coisa sem expressão alguma. É verdade.
Max Elaurd – As “pessoas comuns” dividem a vida e o trabalho, né? Como é essa questão pra você que faz música?
Heraldo do Monte – Minha mulher reclama muito. É muita obsessão. Estou sempre estudando, compondo. E estou sempre escrevendo.
Max Eluard – Não tem esse limite, essa separação.
Heraldo do Monte – Não. Eu tenho que botar na minha cabeça: “Chega! Agora vou viver um pouco”. Agora estou mais: “Talvez eu precise estudar mais”. Antes eu achava que a música ficava muito fria se você ficasse num quartinho estudando um instrumento e não fosse numa praia. Isso era o que eu pensava e o que eu fazia realmente. Agora, não tem praia em São Paulo. Tudo o que eu falo você pode pensar no contrário…
Max Eluard – É meia verdade.
Heraldo do Monte – É verdade. Tudo o que eu falo é… Fica com o que eu estou dizendo e também…
Max Eluard – Não desconsidere, mas considere o oposto também. Tá certo!
Heraldo do Monte – Exatamente, porque não gosto de bater o ponto, de carimbar um tipo de atitude que eu sei que não vou ficar com ela três dias.
Max Eluard – Não acredita em verdades absolutas.
Heraldo do Monte – Não! Nunca! Nunca acreditei nisso.

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