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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 12/18

"As músicas do Elomar não têm espaço pra nada"

Max Eluard – E a experiência do ConSertão?
Heraldo do Monte – Foi legal também.
Max Eluard – Foi um outro momento, vocês muito mais maduros, mas também um grupo com quatro que se juntaram…
Heraldo do Monte – É verdade.
Max Eluard – Como foi?
Heraldo do Monte – Eu estava em casa e chegou um telefonema, acho que do Faro, Fernando Faro. Não foi isso? Acho que sim. Acho que foi o Faro. “Baixo, tu quer tocar aqui com o Arthur Moreira Lima e Elomar?”. Ainda não tinha o Paulo Moura. “Eu quero! Vamos nessa!” O Arthur tinha um apartamento na Avenida São Luís. Fui pra lá. Estava o Elomar… Comecei a escutar o Elomar na rádio, achava que a música dele era muito fechada em si mesma. Ele já compõe como se fosse uma peça de violão com voz. Fui no ensaio, a gente escutou, depois fui para casa e telefonei, “Olha, não dá, porque as músicas do Elomar não têm espaço pra nada”.
Max Eluard – “Onde vou entrar?”
Heraldo do Monte – Pois é. “Não, vem!” A solução foi o Elomar dar mais espaço, espaçar mais a coisa dele. Aí começaram a entrar prelúdios com o Arthur, a gente começou a escrever as harmonias e terminou saindo o ConSertão. A gente viajou por diversas partes do Brasil com o ConSertão, Espírito Santo, Salvador…
Max Eluard – E na criação foi um processo coletivo, assim como foi com o Quarteto Novo?
Cirino – Como foi a escolha do repertório?
Heraldo do Monte – Era tudo em cima do compositor, do Elomar. A gente fazia só o embelezar. Não somente o embelezar, a gente fazia arranjos mesmo. A gente foi para casa do Elomar em…
Max Eluard – Vitória da Conquista?
Heraldo do Monte – Isso, na casa dele lá. A gente ensaiou um bocado. O Arthur tomou cachaça de um jeito. [risos] As particularidades do ensaio. Desculpa, Arthur! Ele tem um jeito de guardar a cachaça aqui (na boca)… [risos]
Max Eluard – Igual a pelicano!
Heraldo do Monte – E ele fica falando, explicando coisas do arranjo e cachaça não desce. Que bonitinho! [risos] Foi bonito porque o Elomar é muito bom, o Arthur também. A gente fez, ensaiou, gravou um disco somente os três primeiro, e depois entrou o Paulão, o Paulo Moura.
Tacioli – Mas tem outras particularidades aí, né?
Heraldo do Monte – Por exemplo?
Tacioli – Não sei. [risos]
Heraldo do Monte – Deixa eu ver… [ri] Deixa eu caçar. Ah, sim! Quando a gente estava ensaiando, lá na casa do Elomar, a esposa do Elomar – qual era o nome dela?…
Lurdes – Dalmara.
Heraldo do Monte – Dalmara! Aí a gente fez um show lá em Vitória com o Arthur, com todo mundo. Aí estava todo mundo almoçando. O Arthur estava precisando de uma grana e nada de sair o dinheiro do show. A gente estava almoçando todo mundo junto [ri] e o Arthur começou a cantar: “Viola, forria, amor, dinheiro não”. [risos] Até que desencavaram a grana lá, pelo amor de Deus!

O antológico ConSertão (1982), disco que reuniu Elomar, Heraldo do Monte, Paulo Moura e Arthur Moreira Lima. Foto: reprodução

Cirino – Mas foi tranquila a relação…?
Heraldo do Monte – Sempre.
Cirino – … com os arranjos, porque a música do Elomar não só é hermética, mas também tem muitas narrativas de dificuldade de trabalhar com o Elomar nesse sentido.
Heraldo do Monte – Ele estava bom nessa época. Ele estava bom. [risos] Foi legal durante essa época, durante o ConSertão e tudo. Eu me lembro que a gente estava viajando – acho que foi em Espírito Santo –, a gente estava numa festa e foi jantar com um pessoal conhecido, fã do ConSertão. O Elomar estava numa rodinha… O Elomar é muito machista! O Elomar é um negócio…tudo o que você pensar. Ele estava conversando, e com aqueles pontos de vista encalacrados dele, aí uma moça passou por nós e disse: “Eu vou mijar no chapéu dele!”. [risos] Imagina o jeito que ela estava. Ele é muito machista! Tinha um negócio pra ir para Cuba pelo Itamaraty, Festival de Música Caribenha. Quer dizer, a gente não tocava música caribenha, mas foi convidada. E era pra ser o ConSertão, mas aí o Elomar, “Meu Deus não permite que eu vá em país comunista!”. [risos] Então, tá, fomos só nós três. E a última dele é a seguinte: houve uma reedição do ConSertão patrocinada por uma cerveja. E a gente ensaiou tudo normalmente com o Elomar numa casa. Bom, o Elomar agora tá cismado que se pegar a imagem dele a alma dele não-sei-o-quê. [risos] Não pode mais filmá-lo. No máximo filmar a mão dele… [risos]
Cirino – A mão não tem alma!
Heraldo do Monte – (…) A Cultura ia fazer um take do show ConSertão, da reedição, e coitada da diretora, era uma nissei, uma japonezinha, a gente subindo no palco e ela: “Elomar, deixa…”. “Não, não!” Resultado: filmou só a parte instrumental, senão a alma dele dançava.
Max Eluard – Que figura…
Heraldo do Monte – É, figurão, figuraço, mas ele acredita nisso.
Max Eluard – Ele tem uma fé forte, rigorosa.
Heraldo do Monte – É, é muito complicado.

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