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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 11/18

A gente foi para a França acompanhando o Edu Lobo

Manu Maltez – Você sempre ouviu música erudita…
Heraldo do Monte – Sempre, sempre.
Manu Maltez – Vi você falar de Stravinsky numa entrevista.
Heraldo do Monte – Sim, eu gosto.
Manu Maltez – Desde Recife você já ouvia? Ou foi uma coisa aqui em São Paulo?
Heraldo do Monte – Quando eu tocava clarinete lá na banda, quando era moleque, a gente já tocava Wagner. Para clarinete era uma desgraça, porque lá na orquestra da escola não tinha violinos. Então, as partes de violino eram todas para clarinete. Eu lembro de duas coisas que me impressionaram e que ficaram na minha memória: Wagner e “O Guarani”. Do Wagner era aquela “Tannhäuser”, a abertura. Não sei como estou pronunciando… “Tannhäuser”! E o clarinete tinha um fraseado no meio do negócio…
Max Eluard – A experiência de professor começou na ULM ou você já tinha antes?
Heraldo do Monte – Já tinha tentado ser professor particular em casa, mas nunca dava certo. O Almir Sater foi lá, fez uma aula e não me pagou. [risos] Aí não dava certo. Mas essa da Jazz Sinfônica, da Universidade Livre de Música Tom Jobim – merecida homenagem! –, deu certo porque tinha um ordenado. Então, era o Estado que pagava. O Almir não pintou lá. [risos]
Max Eluard – Mas como que você era como professor? Você herdou o jeito do seu mestre de improvisar as aulas e os exercícios?
Heraldo do Monte – Herdei, herdei. Eu passava também na hora. Alguns alunos não sabiam ler música, então tinha aquela coisa de dedo, “Tira o dedo aqui! Bota o dedo ali!”. Era um trabalho meio burocrático.
Max Eluard – Você não gostava.
Heraldo do Monte – Não, não gostava muito, não, mas fazia porque estava nessa…
Max Eluard – Casado com a Jazz Sinfônica…
Heraldo do Monte – … com a Jazz Sinfônica. Quando fui pra lá não falaram em aula, depois, quando cheguei…
Cirino – Tinha que dar.
Heraldo do Monte – Tinha que dar, pois é.
Tacioli – Heraldo, você falou dessa experiência mais difícil da Jazz Sinfônica e, um pouquinho antes, da alegria de participar do Quarteto Novo. Tiveram outros grupos que você viveu de uma forma tão feliz, tão entusiasmada, como foi com o Quarteto Novo?
Heraldo do Monte – Não. E como o Quarteto Novo não rolou nada melhor. Por causa dessa coisa do objetivo, de alcançar o objetivo e de contribuir com uma linguagem nova. Pegou quem quis. Quem não quis…
Max Eluard – Uma busca que os movia.
Heraldo do Monte – É, isso! A gente gravou um disco para a EMI-Odeon. Fomos gravar no Rio. Não existia playback na época em que a gente fez o Quarteto Novo. Ainda não se fazia playback: “Você grava agora e se não ficar bom, você põe somente a viola.” Isso não existia. Por exemplo, aqui tinha o piano do Hermeto. O Hermeto com uma flanelinha pra colocar a flauta para quando fosse o solo de flauta. Ele pegava a flauta com cuidado para não fazer (barulho)… Ele tocava a flauta ou o piano. Eu com a guitarra, às vezes, com a viola. Sem fazer barulho. E tudo assim. A gente fez aquele disco instrumental. Como o Vandré era uma espécie de tutor do Quarteto Novo, ele chegou para o Airto e falou: “Como é que eu participo desse disco?”. [risos] “Mas, rapaz, é um disco instrumental…”. Tinha uma música do Hermeto, a primeira faixa, chamada “O ovo” e a gente deixou ele fazer [imitando] “Aha!”… Ele ficou feliz da vida! [risos]
Manu Maltez – Os shows eram muito mais extensos que o disco…
Heraldo do Monte – Sim, porque no disco não tinha muito espaço para improviso. Essa linguagem que a gente estava buscando só tem um pouco no meu solo em “Algodão”.
Manu Maltez – Uma pena não ter um registro ao vivo do Quarteto Novo.
Heraldo do Monte – É verdade.
Manu Maltez – Pra ver um show com as coisas abertas…
Heraldo do Monte – (…) com essa linguagem com mais tempo de exposição.
Manu Maltez – Porque era o principal que vocês estavam procurando.
Heraldo do Monte – É verdade, é verdade.
Max Eluard – Mas nos desfiles tinha espaço pra isso ou tinha que ser mais quadradinho?
Heraldo do Monte – Não, era mais quadradinho. Era mais acompanhar o Vandré. Era um trabalho mesmo, mas serviu pra gente planejar o Quarteto.
Manu Maltez – E nos shows vocês abriam mesmo, as músicas eram maiores…
Heraldo do Monte – Nos shows do Quarteto Novo?
Manu Maltez – Isso.
Heraldo do Monte – Abríamos.
Tacioli – Heraldo, teve um evento que marcou o fim do Quarteto Novo? Como foi sua reação? Parecia que era “Agora vamos faturar”.
Heraldo do Monte – A gente foi para a França acompanhando o Edu Lobo. A gente foi tocar num cassino, numa cidade lá da França. Uma cidade de banhos, uma coisa estranha. A gente foi tocar num cassino e ficou na casa de um amigo do Edu. E esse amigo arranjou pra gente ficar mais dez dias. Dessa vez em Paris, para tocar numa boate lá de Paris. Eu sei que durante essa viagem comecei a observar todo mundo e dizer assim, “Mas será que vou querer o meu destino ligado ao dessas pessoas para o resto da minha vida?”. Sabe? E comecei a ter esse tipo de pensamento. E eu acho que em todo deve ter vindo por igual. Não sei. O Theo é uma pessoa mal-assombrada. Nessa casa que o amigo do Edu arranjou, a gente ficava embaixo, o Airto, o Hermeto e eu, e o Theo dormia lá no quarto, lá em cima, acho que no quarto do cara que estava emprestando a casa pra gente. E ele era um dos primeiros que dormia, que pegava no sono. A gente ficava conversando um pouco. Depois a gente começava com aquele negócio [faz voz de assombração]: “Ehrrrrr! Ehrrrrr!”. Não sei, tenho a impressão que o Quarteto acabou por causa disso. [risos] Não, isso é brincadeira, mas começou realmente porque o Airto estava querendo ir para os Estados Unidos, viver nos Estados Unidos, e estava todo mundo querendo se desligar. É chato você ter…Tem muita gente, tem muitos conjuntos que ligam a vida e ficam por anos e anos…
Max Eluard – Uma existência só.
Heraldo do Monte – É muito tempo para o seu destino ficar ligado ao de outras pessoas.

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