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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 10/18

O ambiente da Jazz Sinfônica era muito ruim

Max Eluard – Mas, nesse momento, depois da experiência com o Quarteto Novo, sua carreira mudou de caminho musical.
Heraldo do Monte – Sim, sim. A gente é livre pra tocar o que quer, mas, de vez em quando, volta e usa… Como a gente já tinha dominado essa outra linguagem, já tinha feito e tudo, a gente pode tirá-la do bolso quando quiser…
Max Eluard – Nos anos 90 foi moda essa fusão da música popular e os ritmos nordestinos, como fez o Chico Science. Você fez essa fusão de uma maneira tão trabalhada e consciente para se alcançar um objetivo. Como que você vê essa onda?
Heraldo do Monte – Chico Science? Isso?
Max Eluard – É, essa garotada que mistura sons nordestinos tradicionais com música popular, rock.
Heraldo do Monte – Talvez a gente tenha um pouco de culpa nisso, porque a gente abriu o leque, abriu a estrada. Abriu a portal pra esse pessoal. Abriu o portal.
Max Eluard – Mas você vê com generosidade ou…
Heraldo do Monte – Ah, sim.
Max Eluard – Você vê com bons olhos.
Heraldo do Monte – Sim, sim. Vejo. Porque cada um tem o seu caminho. O Chico Science tinha uma cabeça roqueira e fez essa fusão dessas coisas que a gente viveu e que ele continuava até vivendo, porque ele estava morando em Recife. (Fusão) do rock dele com aquela tremenda percussão que já vinha da Bahia. E já tinha em Recife no maracatu. Eu acho legal! Me chocou a primeira vez que ouvi o Chico Science, mas depois eu acostumei, eu gostei mesmo. E qual o outro que você falou…? Chico César?
Tacioli – Tem outros, como o Fred 04, da Mundo Livre, o Siba com o Mestre Ambrósio…
Heraldo do Monte – O nosso era uma mistura dessas informações misturadas com o erudito e o Jazz. Misturadas ou vindas de pessoas que tinham essa formação. E eles é a mesma coisa vinda de uma formação mais rock e pop. Só o background deles que é diferente, mas o…
Manu Maltez – Eu estava vendo você tocar com o Lenine só violão e viola…
Heraldo do Monte – Sim, foi no Voa Viola.
Manu Maltez – E a linguagem bem próxima. Você até colocava umas frases mais rápidas, frases que tinham a ver o com jazz. Você estava falando dessa liberdade que você via no mesmo improviso essa mistura de coisas; não é somente música popular, jazz, mas é uma coisa mais misturada mesmo.
Heraldo do Monte – É verdade, mais misturada, liberdade.
Tacioli – Antes do Quarteto Novo, você tocava muito jazz ou nessa linguagem, chegou a gravar alguns discos individuais. E era época da ditadura, do nacionalismo… Havia algum tipo de patrulhamento com relação a música que você fazia? O fato de empunhar a guitarra, de tocar jazz, (era motivo para ser patrulhado)? Tem algum evento que marca esse momento?
Heraldo do Monte – Não. Você me fez lembrar de uma coisa que não foi com a gente, mas foi interessante. [ri] O Teatro Record estava cheio… O Gabriel Bahalis é um contrabaixista…
Manu Maltez – Foi meu professor…
Heraldo do Monte – Isso. E o Chico de Moraes foi um grande maestro. Chiquinho de Moraes. O Teatro Record estava cheio. Não existia Internet, mas parecia que eles marcaram (de se encontrar lá). Gente da esquerda nacionalista, jovens da esquerda nacionalista. Estavam todos lá. Era no auditório. E o Chiquinho chegou atrasado para o programa…Tinha um noneto, nove músicos, e um deles era o Gabriel… E ele não estava sacando o tipo de programa que era e chegou atrasado. Ele estava vindo de um show do interior e já foi para o palco. Eles iam acompanhar uma moça chamada Madalena de Paula. Os caras esperando e a esquerda lá. A Madalena chegou, o noneto deu a introdução e ela fazendo assim com o dedinho (estalando)… “‘S wonderful! ‘S marvelous!”Aí começou aquela vaia estrondosa, que foi crescendo. Todo contrabaixo (acústico) tem uma espiga. Ele estava tocando em pé. O Gabriel estava no palco e o troço fazia assim na madeira do palco (imita o som da espiga arranhando o piso) Foi muito engraçado! [risos]
Manu Maltez – O Gabriel tocava com você na noite.
Heraldo do Monte – Tocava. A gente se juntou também na Jazz Sinfônica. Toquei um ano na Jazz Sinfônica.
Manu Maltez – Ele toca até hoje na Jazz Sinfônica.
Heraldo do Monte – Ainda tá, né? Legal.
Tacioli – Esse foi um evento que a esquerda nacionalista…
Heraldo do Monte – Foi, foi, vaiou com tudo o que tinha.
Max Eluard – Você trabalhou na fundação da Jazz Sinfônica. Como foi? Foi por quem, pelo Cyro?
Heraldo do Monte – Tinha o Cyro e o Luiz Arruda Paes. Graças a Deus que tinha esses dois. Na minha época, no meu ano, somente eles.

Os maestros Luiz Arruda Paes e Cyro Pereira. Fotos: reprodução/CEDOC FPA

Tacioli – Por que “graças a Deus”?
Heraldo do Monte – Porque tinha uns caras ruins também. [ri] Eu trabalhava com ele… Trabalhei sete anos na Tupi, olha que paciência! [risos] E era mais porque o maestro era o Luiz Arruda Paes. Ele escrevia coisas lindas. Onde eu estava?
Cirino – Na Jazz Sinfônica.
Heraldo do Monte – Então, a gente só lê lá. Eu só lia. Tinha arranjos lindos. O Cyro é uma brasa porque ele não escreve muito cifra, os acordes são todos cabeça de nota. Em vez de escrever a cifra de Dó, ele escreve Dó-Mi-Sol-Si…
Manu Maltez – Escreve as aberturas mesmo.
Heraldo do Monte – Ele escreve só assim. Você tem que ler como um pianista mesmo. É difícil. Era difícil. O Cyro é bravo ensaiando. Uma vez a gente estava ensaiando. Ele respeitava algumas pessoas, mas quando ele pegava no pé… Eu estava livre até que uma vez ele chegou e começou a reger o ensaio; ele com a cara assim, olhando pra mim, meio desconfiado. E eu, tranquilo. Aí ele falou: “Heraldo, você não tem um solo, um negócio, junto com não-sei-quem?”. Falei: “Maestro, eu tenho 38 compassos de contagem, mas estou prestando uma atenção desgraçada!”. [risos] Aí ele olhou, todo mundo começou a rir, e ele foi para o copista…Toda a ira dele foi para o copista. O copista tinha esquecido de colocar a música que eu ia tocar pra ele. Coisas de Cyro. Já o Luizinho é um amor, com tremendo bom gosto. O Cyro também, mas tinha esse temperamento.
Tacioli – Mas (a Jazz Sinfônica) foi uma experiência que acrescentou?
Heraldo do Monte – Sim, era gostoso. O ambiente da Jazz Sinfônica e da universidade em geral era muito ruim. O Satanás estava lá de saxofonista. Ele chegava no intervalo do ensaio e falava: “Olha, hoje tem reunião de todo mundo para derrubar o Cyro”. Sabe? Eu sempre faltava. “Hoje tem reunião para derrubar o Luiz Arruda Paes”. Aquele tipo de coisa muito ruim. Eu dei umas aulas lá nesse ano. Coisa de política: eu tinha que escolher cinco alunos. Vê se pode. Eles publicaram. Fizeram publicações, mil negócios. A fila rodava… Falei, “Mas como é que eu posso escolher cinco pessoas com tanta gente aí? Só tem cinco vagas”. “Tem que ser assim pra fazer um auê”, disse a diretoria. Para escolher foi muito chato. Tudo era muito chato nesse ponto. Eu aguentei um ano. O Amilson Godoy também fazia parte, era meio da diretoria, não sei. Uma vez eu estava indo para a universidade onde tinha a Jazz Sinfônica e o Amilson vinha quase entrando. Ele me viu e eu estava todo satisfeito, feliz, com uma cara legal. Ele falou: “Oi, tudo bem, Heraldo? Tá feliz, tá legal?!” Eu falei: “Eu saí! Eu saí!”. [risos]
Max Eluard – Leve, né?
Heraldo do Monte – Nossa, que coisa gostosa! Ele demorou uns três meses: “Saí! Saí!”.
Manu Maltez – Mas essa parte da música sinfônica te ajudou como arranjador?
Heraldo do Monte – Ajuda, ajuda a escrita, ajuda a ter o seu reflexo de leitura de primeira vista. Se bem que, como era ensaio, você podia errar e voltar, essa prática mesmo vinha na televisão. O Arruda Paes escrevia uns negócios meio complicadinhos e na televisão não tinha tempo. Era uma passagem só e já estava perto da hora do programa. Na TV Tupi a gente tinha contrato para dois programas, e geralmente só estava no ar um tal de Clube dos Artistas à noite, com Lolita Rodrigues e Ayrton… esqueci o segundo nome. A gente ganhava um ordenado pra fazer dois programas e fazia um. E de vez em quando a Tupi tentava colocar mais um programa. Tinha um músico lá que era catimbozeiro, macumbeiro. Ele fazia catimbó para o outro programa não dar certo. E não falhava, bicho! O programa dava zero de Ibope. Em duas, três semanas já era. O cara era bom! [risos] A gente continuava ganhando pra dois e fazendo um.

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