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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

parte 9/18

“O Hermeto é muito feio!”, disse o diretor

Tacioli – Heraldo, da vinda de vocês para São Paulo: vocês traziam o som de Pernambuco, alguma coisa de Recife?
Heraldo do Monte – Ainda não. Estava aqui só, na cabeça. Isso só veio despertar quando a gente fez o Quarteto Novo.
Tacioli – Mesmo o Hermeto?
Heraldo do Monte – Também. Era jazz.
Cirino – Comportadinho.
Manu Maltez – Não tinha nenhum resquício no repertório de boate dessa música…?
Heraldo do Monte – Nordestina? Não!
Tacioli – E como foi a virada, Heraldo?
Heraldo do Monte – Então já vamos para 67. Ah, lembrei de um época! [ri]
Tacioli – A Lurdes aprovou.
Heraldo do Monte – Sessenta e sete. Tinha uma companhia de moda… [fala baixo] A Rodhia! Tem que pagar? [ri] O Lívio Rangan era o diretor desse lance. Eles queriam fazer um desfile de moda pra correr o Brasil todo. A moda baseada em coisas brasileiras. Uma moda bem brasileira, até um pouco sertaneja, sertão aqui do Sudeste. E chamou o Geraldo Vandré para arregimentar os músicos. E o Vandré chamou o Airto Moreira, que chamou o Hermeto, que me chamou. Não existia o Quarteto Novo até agora. Nem a ideia de fazer o Quarteto Novo. A gente foi fazer esse serviço. Ou seja, a gente tinha que tocar num palco. Eles mandaram fazer uns ternos super maneiros…
Tacioli – Fashion.
Heraldo do Monte – Fashion. Quando chegou na hora de uma reunião, o Lívio Rangan, o diretor, disse: “O Hermeto é muito feio, não-sei-o-quê. Não dá!”. [risos] O Airto ficou louco, a gente ficou maluco. Mas e aí, “Vamos viajar somente os três?!”. Os três mais o Vandré. O Vandré cantava e a gente acompanhava. E aí a gente começou a viajar sem o Hermeto.
Tacioli – E cantavam o quê?
Heraldo do Monte – Música do jeito do Vandré, uma coisa meio sertaneja. Ainda não era política, não! Não tinha nada a ver com mulher desfilando e “O povo unido jamais será vencido”. Aí a gente começou a conversar nos hotéis, os três. O Theo de Barros, o Airto e eu. “Rapaz, esse negócio… A gente pode fazer um som a partir daqui. Tem umas coisas originais aí, como a viola, que não era usada na música brasileira, e caveira de burro.” O ditador da época era o Costa e Silva. Ditadura era assim, corria boatos…Ditadura se fala tudo assim com medo. Não sei se vocês viveram esse tempo. Você chegava num táxi e não podia conversar com o cara porque ele podia ser um espião. E você podia pegar uma cana. Vocês não viveram isso. É muito ruim, bicho! É muito ruim mesmo. Diziam que (a caveira de burro) era o maxilar do Costa e Silva, maxilar de burro. [risos] A gente começou: “Vamos fazer um som quando a gente voltar pra São Paulo. Logo que acabar esse negócio, vamos montar um quarteto. Vamos fazer uma linguagem bem brasileira”. Eu falei: “Tá certo. O que vejo no Teatro Record são esses trios de bossa nova. Eles tocam música brasileira, mas quando vão improvisar, improvisam bebop, eles improvisam jazz. Como a gente faz com isso?”. “Precisamos criar uma linguagem!” E eu falei: “Mas improvisar é um negócio bem imediato e vem lá de dentro. Daqui. Então a gente precisa interiorizar uma linguagem”. Isso já em São Paulo. Aí já começou com o Hermeto. O Vandré falou: “Para de gravar. Para de escutar música!”. Quero dizer, essas ideias não foram todas de Vandré; algumas eram dele e outras eram nossas mesmo. A gente tinha um objetivo e precisava alcançar. “Vamos parar de gravar…” Aí o Vandré começou a pagar um ordenado pra gente, do bolso dele. Não-sei-onde ele arranjava dinheiro. “Vamos ensaiar!” A gente parou de escutar música e começou lembrar de violeiros, repentistas, frases de repentistas, o ambiente dos repentistas, frases de pífanos. Falei: “Esse negócio é muito pobre harmonicamente. Como é que a gente faz?”. Os violeiros são quase uma coisa árabe, ficam numa corda só. “Peraí, vamos escutar Luiz Gonzaga!” O Luiz Gonzaga tinha harmonia, “Que nem jiló”, aquele negócio todo. “Então, pronto!” Luiz Gonzaga é folclore também, é brasileiro pra caramba. “Então, fica sendo Luiz Gonzaga o suporte harmônico dessa a linguagem.” E os outros fazendo esse clima. E a gente começou. A gente fazia os temas. Não levava nada pronto. Por causa disso, o Quarteto Novo demorou um ano pra aprontar um disco. A gente chegava lá, um dava uma ideia, o outro dava outra. Você ensaiava aquela ideia e quando estava começando a decorar, alguém falava: “Mas escuta, e se fizer assim?”. A minha tática foi dizer: “Vou deixar, vou sair das ideias, vou somente realizar as ideias deles pra ver se facilita mais”. Aí ficou somente três (músicos) para (dar) as ideias. E eles não notavam que eu não dizia nada. “Vamos fazer assim. Vamos fazer assim!” Até que um dia, depois de uns meses, eles falaram: “Heraldo, o que é que você diz?”. “Não, tá ótimo. Eu vou tocar. O que vocês querem?” Aí eu tive que fazer um treco lá, que é justamente “Fica mal com Deus”, aquela introdução e alguma coisa do meio também. Tem um prelúdio muito bonito que é harmonizado pelo Theo. O Theo foi quem fez. E foi a vez que eu entrei. Já estava quase no fim, estava quase tudo pronto.
Manu Maltez – Depois disso vocês chegavam a escrever todos os arranjos ou a coisa ficava mais na memória mesmo?
Heraldo do Monte – Ficava na memória porque a gente repetia tanto que… Uma vez o Hermeto levou quatro compassos escritos, que é o comecinho de…
Manu Maltez – “Algodão”?
Heraldo do Monte – Não…Esqueci. Era uma música do Vandré. Esqueci o nome. Era um arranjo sobre uma música do Vandré. Não lembro qual.
Manu Maltez – Mas foi a única coisa escrita.
Heraldo do Monte – Foi a única coisa escrita. O Hermeto levou esse pedacinho. Mas eram quatro compassos somente. O resto era tudo feito na hora. Decorado, apagado e redecorado.
Cirino – Como foi pra você se adaptar a essa nova linguagem, porque até então você tocava jazz? Como foi improvisar nessa linguagem?
Heraldo do Monte – Então, a gente começou criando nesse ano. Nesse tal ano aí. A gente também improvisava e tinha aquele negócio, de um patrulhar o outro. “Opa. Essa frase é de jazz!” “Essa frase é de bebop!” “Essa frase é de não-sei-o-quê!”
Max Eluard – Foi um exercício se livrar de um arcabouço…
Heraldo do Monte – Foi. Hoje, não. Acabou o Quarteto, mas ficou a semente. Agora a gente tá livre pra tocar bossa nova, jazz, improvisar do jeito que quiser.

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