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Entrevistas de música brasileira

Heraldo do Monte

Heraldo do Monte. Foto: Jefferson Dias

Heraldo do Monte

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Voa, Heraldo

A máxima de que “se morasse nos Estados Unidos ou em algum país da Europa, ele seria rico” serve para Heraldo do Monte. Elogiado pelo guitarrista e jazzista norte-americano Joe Pass (1919-1994), que o considerou um dos maiores em seu instrumento, o músico nascido em Recife (PE) em 1o de maio de 1935 nunca pensou em cravar os pés fora do Brasil. Prefere até hoje ficar na zona norte de São Paulo, onde reside desde os anos 1960 com Lurdes, sua companheira de aventuras, decisões e lembranças.

Admirado pelos colegas de profissão e adorado pelos ouvintes de música instrumental brasileira, Heraldo do Monte não queria ser músico profissional. “Não falavam bem deles”, comentou nesta entrevista ao Gafieiras. Antes de assumir as cordas do violão, da viola caipira e da guitarra, tocou clarinete. Autodidata, construiu uma música que absorve e transforma o jazz, o clássico, a bossa nova e os ritmos nordestinos. Quando está em ação, seu toque e fraseado têm simplicidade e originalidade difíceis de se alcançar. É o solista que acompanha.

Sua ficha corrida registra participação em momentos importantes da música no país. Entre 1966 e 1968, com o Quarteto Novo, desenhou ao lado de Hermeto Pascoal, Theo de Barros e Airto Moreira uma nova linguagem de improvisação desapegada do jazz. O grupo colocou o Nordeste na pentagrama. Com o Medusa, conjunto também integrado por Amilson Godoy, Cláudio Bertrami e Chico Medori, colaborou para construir nos anos 1980 a história do selo Som da Gente, responsável por dois títulos de sua carreira individual, Cordas vivas (1983) e Cordas mágicas (1986). Antes disso, em 1981, com o cantador Elomar, o pianista Arthur Moreira Lima e o saxofonista Paulo Moura, levou o barroco, o clássico e o popular para o palco do Teatro Municipal de São Paulo com o espetáculo ConSertão. No ano seguinte, a empreitada ganhou registro por outro selo independente, a Kuarup.

Sua discografia é enxuta. Iniciada em 1961, tem menos de 20 títulos, contando com aqueles que lançou como integrante de grupo ou dividido coletivamente. Um deles, Guitarra brasileira (2004), explora um dos instrumentos que lhe deu fama. Em outro, compartilha com a cantora Teca Calazans canções de diferentes temporadas. Voz, violão e viola nordestina.

A entrevista a seguir foi realizada em uma noite de setembro de 2011 no apartamento de Max Eluard. Foi agendada pelo Facebook. Para ele, a Internet é uma ferramenta de trabalho.

Em duas horas de conversa, Heraldo do Monte tomou chá, lembrou das boates pernambucanas, da TV Tupi, de Walter Wanderley e Dolores Duran; resgatou Satanás, o músico, e Hermeto, outro sujeito endiabrado. Assistido por sua mulher, que o certificava das datas e dos nomes, o instrumentista estava à vontade. Assim, nada mais.

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