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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 8/25

Às vezes cansa você se preocupar com criança o tempo todo

Tacioli – Um álbum Cem Dias ?
Hélio – Contar aquela história, ele atravessando de barco da África para o Brasil. E eu acho que no Cem dias muitas coisas serão cantigas de roda, porque no livro tem muita roda de baleia, roda de não-sei-o-quê, há muita situação que casa com isso. Então estou com bastante esperança nesse trabalho aí. Será o próximo.
Tacioli – Mas já começou?
Hélio – Dei umas começadas, sim.
Tacioli – Tem música?
Hélio – Não, música ainda não. Já partimos assunto em 13 partes. [risos]
Tacioli – Você releu o livro para esse mapeamento?
Hélio – Exatamente.
Diego – Fazer um roteiro, um pré-roteiro?
Hélio – É.
Tacioli – E ele teria esse caráter cênico que o Gigante teve em palco, com bonecos…
Hélio – E esse caráter cênico é um problema, porque as letras são muito visuais. Se você embarcar na narração, você enxerga a história. E pra concretizar as imagens no palco é sempre um problema. Então, já prometi pra mim que esqueci esse assunto. Isso será problema de outra pessoa, se for… Caso contrário, não é preciso fazer nada, a gente vai lá, canta e pronto. Acabou.
Tacioli  Mas qual é um momento legal para lançar um trabalho como esse?
Hélio – A essa altura, espero que no ano que vem, em outubro.
Tacioli – Esse trabalho do Gigante tem alguma inspiração naqueles…
Hélio – Mas espera, vou falar uma coisa, ainda respondendo à sua pergunta. Aí, cara, a hora em que a TV Cultura começou a decair e eu estava procurando caminhos fora dela, que essa questão do, “se eu vou ser um artista infantil realmente, vou encarnar esse. Não dá, não sei o que vai ser, mas não dá.” E é ótimo fazer a coisa, fazer os shows, mas ainda eu acho que um artista que não trabalha pra crianças, ele tem momentos em que se despreocupa do público. Sossega, fica em casa, faz as coisas, bola, compõe. É meio que ele com ele, não precisa ficar preocupado com os outros. Ele é parte do público, o público dele é parecido com ele. E o meu, não, é outra turma. Às vezes cansa você ter que ficar preocupado com criança o tempo todo, né? No ano passado fui a um congresso super legal que teve em Belo Horizonte, chamado Encontro Latinoamericano e Caribenho da Canção Infantil. Então você imagina, tem gente até de Cuba e várias da América Latina que lidam com esses trabalhos pras crianças. E muitos deles têm 25 anos de trabalho, muitos. E lá numa das palestras eu falei esse negócio, eles deram risada. Falei que eu queria esquecer, cara! A natureza do trabalho artístico chega uma hora em que você apaga o público e pensa no objeto, esquece um pouco pra quem é, sei lá. Se não servir, paciência, mas no trabalho infantil isso é um pouco desgastante. Você tem que ficar um pouco…
Dafne – Ligado.
Hélio – Ligado. Então, ainda não me satisfiz com essa resposta, né? Mas, de qualquer forma, resolvo que tenho que extrair um resultado mais profundo dessa área do que eu consegui até agora. Agora estou indo pra jogar a Copa. [risos]
Max Eluard – No auge do vigor físico.
Hélio – Agora é pra jogar a Copa. Tem que fazer uns negócios pra valer, pra ficar, pra entrar em campo e sentir que há um campo, porque ainda é difícil isso.
Max Eluard – E há um mercado?
Hélio – Bom, há uma demanda por conteúdo. Isso é uma coisa generalizada na sociedade. Várias coisas de conteúdo estão vindo à tona. E faço parte dessa onda. Por exemplo, no mundo das gravadoras, hoje em dia, você se preocupar com conteúdo é uma coisa risível, porque os caras se comportam como um canal. É como uma empresa de telefonia, eles não querem saber o que as pessoas estão conversando, querem gerar fluxo de conversa, o que as pessoas falam, tanto faz. Agora, editora, não. Editora é uma empresa um pouco mais antiga, uma estrutura um pouco mais lenta, mas ela tem vínculo com o conteúdo que ela veicula. Então, discutir um projeto na editora é uma delícia, porque tem gente pra conversar, tem capilaridade nas professoras, sabe? Você tem jogo, tem gente pra amadurecer o conteúdo, buscar uma forma pra ele. É muito legal. Então, a dificuldade é você encontrar esses nichos onde ainda sobrevive uma preocupação com o conteúdo, como a TV Cultura, como editoras, né? E as gravadoras que mexem com música pra criança ficam assim meio no muro, né? Estão dando uma força, graças a Deus que elas existem, os discos estão sendo distribuídos, a distribuição melhora cada vez mais. O povo está aprendendo a comparar coisas que não são diretamente avalizadas pela grande mídia. Isso está acontecendo, já é um valor, né, a pessoa ter a capacidade de comprar uma coisa que não se faz grande propaganda e ela acha que é bom. As pessoas se sentem felizes quando chegam num patamar assim, né? As coisas estão avançando, tem mercado, sim.
Tacioli – E existe essa vontade de fazer uma música não preocupada com o público infantil, com sua banda de rock, sei lá?
Hélio – Claro.
Tacioli – Como você dá vazão a isso? Quando você vai tocar a noite?
Hélio – Combinando com o Mário Manga! Já começamos trabalhar e pensar no que vamos fazer. [risos] É assim que se faz, chama um guitarrista bem bom e começa. [risos] Começar uma banda assim já está bom.
Tacioli – Então os caminhos já estão aí?
Hélio – É, estão.

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