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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 6/25

Quero fazer uma casinha onde moram os caras

Dafne – Durante toda a década de 90, as crianças foram cada vez mais bombardeadas visualmente. E isso não tem data pra acabar. Como enfrentar isso?
Hélio – Então, acho que é isso, a experiência de contato com o som tem que ser significativa, tem que ir num teatro com um som grande, bom, e pegar uma dessas assim, que você vê a coisa acontecer na frente. Tem que haver contato com a música, né? Então, não tem outro jeito, cara. Porque é interessante quando elas ficam maiores. Elas vão fazer a banda, aí têm que construir o som, que fica tudo beleza, a imagem sai da frente, fica numa boa. Quanto mais cedo a criança está sendo conduzida a fazer ela mesmo som e música dela, mais cedo ela vai tendo contato com isso.
Tacioli – Hélio, o Caymmi diz que o sonho dele era compor uma cantiga de ninar que se tornasse domínio público. Você tem essa ambição? Você acredita que alguma de suas composições podem, ao longo do tempo, ter essa vida longa?
Hélio – Não sei se como cantiga de roda. Cantiga de roda já é outro departamento, já mais ainda, são amores que a gente encontra se tiver muita sorte, né? Uma coisa que a gente não conta com isso, nem antes nem depois. [risos]
Max Eluard – As cantigas de rodas estão rareando cada vez mais…
Hélio – Sabe que não, cara! No ano passado, conheci um trabalho de uma mulher chamada Lídia Ortélio, uma baiana. Tem uma casa lá na Bahia, chamada Casa das Cinco Pedrinhas. Tem um mar de músicas que eu nunca tinha ouvido, de cantigas de roda… Ela pesquisa brinquedos…
Max Eluard – Isso ainda tem. Tenho um amigo que mora em Lençóis, na Bahia, e ele é um griô, que dentro da tradição africana é um velho… Não sei se você conhece esse mito africano?
Hélio – Ahã.
Max Eluard – E ele é um griô de Lençóis que viaja pela zona rural colhendo cantigas, aprendendo música com os velhos. E leva esses velhos, suas músicas para as escolas e ensina para as crianças. Um negócio bacana mesmo… Mas quando falei isso pensei em São Paulo, pensei num grande centro, e aí a coisa é mais complicada mesmo.
Hélio – É, mas mesmo assim nem tanto, porque aqui também tem muita coisa.
Max Eluard – E tem isso de pesquisar, ir para os lugares?
Hélio – Mais ou menos, um pouco. Eu acho, trabalhos como aquele do grupo Cachuera! que tem aqui, grava esse negócio…
Max Eluard – Não tanto sistematizado assim, nem atrás dessa cultura popular, como eles vão, mas tem essa de tentar aprender coisas com, não sei, com brincadeiras de crianças, com crianças que você conhece?
Hélio – Aprender não, mas ficar por perto disso, né? Poder…
Max Eluard – Ficar de olho, né?
Hélio – É, porque estou bem focado nessa coisa da composição para poder ter um lugar na música. Eu ainda não tenho, o meu lugar é precário. Então estou querendo fazer uma casinha pra mim, lá onde moram os caras… Eu queria fazer lá. Então estou muito ligado na composição, estou filtrando as idéias que servem pra mim. E algumas que são tão estranhas a mim, que eu, “Bom, também servem,” porque o diferente… Vou colhendo essas coisas… O tempo da roda é muito interessante, cara. Acho que existe esse mapa das comunidades de tempo. Então, do mesmo jeito que existe um povo que utiliza certas notas e que constrói a sua escala, e com isso constrói suas melodias, tem a mesma coisa com o tempo. Os ritmos que caracterizam comunidades são escalas de tempo que já estão cristalizadas, já têm melodias, contracantos, já está explorada aquela região temporal. E música de criança já tem também esse negócio, é muito interessante a condução das cantigas de roda. Acho muito legal.

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