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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 5/25

Por que as crianças não batem palmas nas músicas?

Tacioli – Esse seu trabalho com a educação, de ir às escolas, de que forma volta para a composição?
Hélio – Volta de várias formas. Às vezes volta diretamente, como foi com uma música dos morcegos… Foi demais! Eu tenho filhos na Escola da Vila. Mais tarde, tinha amigos que depois que meus filhos saíram, os filhos deles ainda continuavam lá… E numa dessas, os caras descobriram que eu estava trabalhando numa música de morcego. Eles tinham passado seis meses fazendo um mural de morcegos. Aí eles embrulharam o mural, mandaram um bilhete “Favor devolver”. Abri o mural. Havia uma pesquisa deles sobre morcego, já com as frases. E isso foi direto para música. Sei lá, uns 60% do mural. Aí devolvi o mural pra eles e o CD com a música. Foi muito legal, mas atualmente estou perseguindo isso, “por que as crianças não conseguem bater palmas nas músicas?” A gente vê elas entrando nas coisas, mas parece que o bit está um pouco além do que elas podem fisicamente acompanhar. O processador delas não dá prá cantar e bater palma. Estou achando muito interessante esse negócio que aconteceu.
Tacioli – Em qual faixa etária isso acontece?
Hélio – Quando chega perto dos 10 anos esse negócio melhora. Mas até elas ficam ainda completamente tortas, assim.
Tacioli – É uma característica dessa geração?
Hélio – Eu não sei ainda. Vejo outros caras que lidam com música infantil, fazem umas coisas um pouco mais calminhas, com um bit um pouco mais calmo, e vejo que as crianças batem, entram. Mas elas adoram aquele negócio mais rápido, e eu fico olhando… e nada, zero! Pô, em nenhum lugar, estranho, elas não batem palmas nunca! Então estou muito encanado com essa questão do tempo, da criança formar uma noção do tempo. Porque é muito engraçado isso. Tem crianças que formam essa noção muito rápido; e tem crianças que não despertam pra isso. E eu queria fazer canções que tematizassem esse encontro com o tempo, que fossem trazendo isso, que nem essa coisas que a gente vê do Jorge Benjor, que todo mundo entra em fase, sabe? O cara tem uma habilidade para botar o pessoal em fase. Quero fazer coisas com crianças tendo essa atmosfera. Eu já vi, por exemplo, o Naná Vasconcelos fazer um negócio que eu também queria. Fui ver um show do Naná uma vez no Palace. O Palace lotado, aquele mar de gente. E ele foi fazer a chuva e o rio. Então metade da platéia fazia, estalando os dedos, a chuva, e a outra metade fazia uma nota longa, que era o rio. E com os braços ele ia regendo, e aquele negócio ia trocando de lado. E você via a chuva chegando, o rio passando. Aí começava aquela viagem generalizada com a platéia. E no caso do Naná não tinha nenhum recurso a não ser estalos e nota longa. Quero dizer, tem alguém que consegue conduzir o caminho pelo mundo do tempo e ver… As crianças estão muito bombardeadas com essa coisa visual, né? Então, o contato com mundo da música, que é um mundo invisível por natureza, é melhor quanto menos você vê, mais você escuta, né? Então, abrir espaço pra música na vida criança, em última análise, é isso, vai para o ouvido, e com calma escuta, senta, não precisa dançar o tempo todo. Calma! Essa postura de escutar um show, um negócio que vem com som alto para o ouvido e elas têm que falar baixo… elas nunca passaram por isso. Teatro não tem isso.
Tacioli – Um som de show pra criança?
Hélio – É quase zero, sei lá. Acho que começou com a gente agora, Palavra Cantada, eu… Não me lembro de show pra criança.

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