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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 3/25

O meu talento é dar forma auditiva para alguém

Tacioli – E esse mergulho na educação.
Hélio – Então, a grande descoberta é: mesmo nas escolas que usam música o tempo todo para as comemorações e para os trabalhos, quanto tempo o professor de música tem com as crianças?” Uma aula por semana, 30 crianças na frente, em geral, metade afina, metade não afina, “como é que se faz pra essas afinarem?”. Não faz, não há material para aprofundar musicalmente a relação das crianças com a música. Achei isso genial. Assim, há trabalho para se fazer aí. Agora estou nesse pé: a TV Cultura está dando uma acordada, talvez eu consiga ter um programa de música pra criança lá, que é o que estou buscando, mas de qualquer forma já tem caminhos independentes da TV para ter mais contato com a educação.
Max Eluard – Esse trabalho da música com a educação é didático? Em algum momento ele entra em choque com o seu lado artista, de querer ter liberdade pra criar?
Hélio – Não, não é um trabalho didático…
Max Eluard – Não tem essa amarra de ter que fazer um negócio para educar?
Hélio – Não tem. Tive a oportunidade de fazer o seguinte: pegar conteúdos que estavam previstos para a educação e transformá-los em espetáculo. Então, de qualquer jeito, o que tinha para fazer com os conteúdos da educação não era dar aula, era fazer um outro troço com aquilo.
Max Eluard – Um outro caminho para a educação que não o da didática. É isso?
Hélio – Não é a questão da didática. A canção pode trazer afeto para os conteúdos, envolvimento. Os próprios afetos das crianças podem ser tratados por meio das canções, e quando você estimula uma criança a cantar, acontece duas coisas fundamentais na vida dela: primeiro, ela vai travar contato com a própria voz, isso significa posicionar a voz dela num patamar de intensidade, ver pra onde vai no agudo, pra onde vai no grave, tem um lado dela pra ela conhecer e controlar, dominar, que é a voz dela, e a outra coisa é o domínio do tempo, quer dizer, quando a criança consegue dominar o pulso, fazer a voz dela navegar em cima do pulso. Aí ela domou uma parte do mundo do invisível, ela tem uma coisa por dentro, ela tem uma mente, ela…
Max Eluard – Ela descobriu uma chave.
Hélio – É um negócio de uma potência absurda, não é à toa que tem grupo de hip-hop, grupo de samba, grupo disso, quando forma essa tribo que consegue segurar o pulso, consegue botar a voz em cima disso. Pô, é uma coisa que dá um saber de si, né? O que melhor a música pode fazer para o mundo da educação é isso, porque ela traz junto a dicção, a velocidade de falar as palavras com clareza e dar sentido a letra. Tem uma coisa das intenções, isso tudo é maravilhoso acontecer.
Max Eluard – E você, como artista, se sente mais estimulado do que tolhido a conseguir isso?
Hélio – É, exatamente, passa a ser um terreno fértil pra você devolver coisas em cima disso. Então, eu que não pretendia ser um artista infantil não sabia disso, foi uma coisa que fui fazendo porque estava na TV, né? O meu talento é um talento de dar forma auditiva para alguém. Eu sei pensar som, deu certo isso comigo, Sou capaz de fazer rádio, sou capaz de fazer trilha, tenho essa vontade de um contato mais geral com o mundo da música e o mundo do som, não é uma coisa especializada em infância, né?
Max Eluard – É, o disco, a parte sonora do livro do Wisnik, foi feito em parceria com você?
Hélio – É.
Max Eluard – O Som e o Sentido, e aquilo vai muito além, né?
Hélio – É.

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