gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

HelioZiskind_940

Hélio Ziskind

parte 2/25

Uma canção que sirva de contato entre adulto e criança

Tacioli – Hélio, vi numa matéria em que você dizia que não era correto se falar “música infantil”. Eu queria saber o motivo, até porque durante a entrevista falaremos muito de música infantil. É música para criança? Ou somente música? Como a gente pode falar?
Hélio – É música, né? Em parte o que me move nessa coisa – “o que é a música pra criança” – é minha aflição em me incluir nessa música, porque se for uma coisa que eu, com a idade que tenho, ficar de fora, vou me enjoar. Então, ou essa música pra criança tem que se alargar a ponto de me integrar com que eu gosto e com o que quero fazer, ou vou tentar dar uma mudada nela pra ela também me deixar entrar. A minha maior aflição era essa: como é que eu posso continuar lidando com esse negócio de música pra criança se isso não estiver me satisfazendo pessoalmente, né? Então comecei a cutucar esse assunto. Até que ponto eu poderia tratar a música pra criança como eu trato qualquer outra? E também venho de uma origem musical que, pra mim, a música é uma linguagem em si, e funciona meio como entrar no mar. Tem gente que nada no raso, tem gente que vai mais pro fundo. É o mesmo mar, tudo bem que lá no fundo ele é um pouco diferente do raso, é assim, mas é o mesmo. Tem criança que vai ao fundo, tem adulto que fica no raso. E por uma feliz coincidência, encontrei duas meninas – uma tem 15 anos, mas quando começou comigo tinha 10, e a irmã dela tem 11. E o trabalho foi seguindo assim… Eu parei de pensar nesse assunto: o que que é pra criança, o que não é…. O que funcionar com elas (as irmãs cantoras) está bom. Elas são as crianças perto de mim e vamos indo. Tento ver o que interessa a elas. Parei de pensar nesse assunto e isso é interessante, porque está acontecendo comigo esse processo: as minhas músicas pegam crianças muito pequenas e vão até, sei lá, 12, 14 e, às vezes, passa disso. Ué, não é difícil entender o porquê. Então a canção virou essa coisa. É difícil falar da faixa etária, e é uma pressão, porque pra você circular nesse mundo da cultura para criança, o tempo todo ficam te perguntando: “Quantos anos tem quem te ouve?”. Eu não sei, pô! Lá vou saber a idade de quem está me ouvindo?! Enfim, o que parece que está dando certo é o seguinte: quando você mostra interesse pela música e traz a criança junto, e ela se interessa pela música, tudo funciona muito bem. Não tem música pra criança. Elas não gostam de se sentir…
Max Eluard – Segregadas a um gueto.
Hélio – Segregadas a um gueto, mesmo porque o mundo delas está em expansão, e não é na música que vai ficar apertadinho ali. E agora há os temas… Isso é interessante e tem um pouco a necessidade de repetição, a conquista da própria voz. Há umas questões que são diferentes pra criança do que pra adultos. Atualmente dei uma rodada em escolas, porque o meu trabalho foi muito, muito, muito vinculado à TV Cultura, e a houve uma época em que a TV Cultura começou a cair barbaramente, e a encomenda de trabalhos pra crianças caiu muito também.
Tacioli – Em número ou…
Hélio – Em pedido, em tudo. O setor parou. Eles queriam desenvolver outra área da TV, que não era pra criança. Aí me deparei com esse negócio. E, “agora que a TV Cultura, que era o oásis onde tudo floresceu, onde tudo veio à tona, vai mudar de idéia. Pra onde vou?” Aí comecei a mirar na educação, como seria, como é que era direto ali na educação, como é que podia estabelecer vínculos com a rede de ensino. Entrei nesse mérito da música nas escolas. “Vou ver o que é isso.” Porque eu já tinha muitas notícias de músicas minhas sendo usadas nas escolas, várias editoras pedindo autorização para incluir letras em livro de português, história e geografia. Um negócio super legal. Mas falei, “Bom, vamos entrar no mérito desse negócio de música na escola. Como é?” Dei uma rodada nesse assunto e acabei chegando nessa imagem assim, de que em algumas escolas particulares há professor de música; nas públicas, não há mais essa figura que dá aula de música, né? No entanto, em quase 100% das escolas tem uma mulher que canta com as crianças. Não é especialista, mas canta com as crianças. Então há essa célula do adulto que canta com as crianças, que é a mesma que eu tenho aqui no meu grupo com as meninas cantando. “Temos que produzir [música] pra essa célula!” Fazer um tipo de canção que possa servir de um momento de contato entre adulto e criança, que é o que acontece com a gente aqui. E podemos aplicar isso na família, podemos aplicar isso na escola. E a questão das escolas foi para um lado mais legal ainda porque comecei a visitá-las, fazer shows, palestras, e consegui entrar numa editora pra fazer livro com CD.
Tacioli – Qual é a editora?
Hélio – A Salamandra. Conseguimos esse projeto do livro com o CD, que também está trazendo coisas muito legais.

Tags
Hélio Ziskind
Música infantil
Música para crianças
de 25