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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 23/25

Estamos na boca de uma produção infantil urbana

Tacioli – E como é sua relação com quem produz hoje música para criança, como a Palavra Cantada, a Bia Bedran e os Los Musiqueros, com quem você tocou recentemente, né?
Hélio – É. Com a Bia e com o Paulo eu não tenho muita relação, apesar de ter contato com o Paulo, com o pessoal da Palavra Cantada. A gente não acompanha muito o trabalho um do outro. E por meio deles conheci o Rodapião, que é uma dupla de Belo Horizonte que eu adorei. E de lá conheci também aquele grupo de percussão, composto por três caras, o Pandalelê. E são trabalhos fortes! Com os Musiqueros foi interessante o contato, mas o que eu queria mesmo era começar a falar em espanhol, ver como as crianças transam esse negócio do espanhol, porque há uma trava das crianças com o espanhol, né? E se as crianças começarem a brincar com umas palavrinhas em espanhol e tiverem simpatia pelo idioma, tem muito lugar pra viajar, tem muita canção pra escutar, outros ritmos…
Tacioli – Foi a primeira vez que tocou com eles [Los Musiqueros]?
Hélio – Foi. E eu fiquei maravilhado com esse encontro que teve no ano passado, onde conheci muita gente. E a próxima edição do Encontro vai acontecer no ano que vem, em setembro, no Uruguai. Vai todo mundo pra lá. Vai ser um encontro bacana! Em vários países da América Latina existe esse movimento da canção infantil. De dois em dois anos tem um Encontro Latinoamericano e Caribenho onde vão todos. No ano em que pula, cada um faz um festival em seu país. Na Argentina tem, no México tem. Colômbia tem um trabalho fortíssimo, cara! Jovens e crianças fazem uma roda, tambor, pa-ra-rá, cantam uma música, e na música seguinte faz assim, cá, rodam, parece time de vôlei, vão rodando e mudando de instrumento, todos tocam tudo, cara! E uma escola que começou como uma escola de fim de semana, hoje tem mais de 2 mil alunos. E eles vieram aqui e cantaram “Preta Pretinha”, está vendo? Esse negócio do que é canção pra criança tem essa vantagem, no final vai dissolver, né? E pros muito pequenininhos tem umas canções boas… Mas é gozado, por enquanto eu não sinto que tenha tido uma influência musical como eu tenho com a música brasileira e com a música americana. A música da América Latina é realmente o lado de lá… O contato com eles foi muito legal. E é uma coisa interessante, porque tanto no México como na Argentina, as crianças lêem mais. Crianças menores lá curtem conteúdos que só crianças maiores vão curtir aqui. Então tem essa coisa com o livro também que é interessante lá. Visitar outros países onde tem essas mesmas coisas acontecendo é um luxo, né? Em Cuba, tem uma menina, Rita del Prado, uma graça, toca bem, canta bem. Adoram música brasileira. O Beto, dos Musiqueros, tem um grupo de música brasileira em Buenos Aires que só grava Djavan, Chico. Ele aprendeu a falar português de tanto cantar as canções.
Tacioli – E que pontos em comum há entre essas produções latino-americanas?
Hélio – Por enquanto nada. A gente está numa frente completamente diferente, temática e musicalmente, acho. Lá eles têm essa coisa do folclórico, aqui a gente não tem folclore, tudo é música. Imagina se um batuque do Maranhão é folclore? Se você põe aí, o batera toca junto, é tudo. E lá a gente ainda sente uma vontade de representar o folclore, parece que as letras entram com dificuldade nas melodias, é gozado, dá uma sensação de que as coisas não são semelhantes.
Tacioli – Mas aqui o folclórico, pelo menos nas letras, é mais difícil entrar, não?
Hélio – Não, no ritmo, digo.
Tacioli – Nos ritmos, sim; mas nas letras, pra você contar histórias e lendas há essa barreira, né?
Hélio – Tem, mas aqui também não tem ninguém fazendo isso, né? É difícil fazer! Não tem muito mais. Nós estamos na boca de uma produção infantil urbana. Há os bandidos, as crianças já são seqüestradas, já precisa de música. Então, esse negócio urbano tem todo esse contexto do eletrônico, do rap. Há uma inserção urbana. E eu e o Paulo somos paulista da gema, e o som também é paulista, acho, né? Vamos ver, temos que ir ao Rio agora.

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