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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 21/25

Não transformo borboletinha em fadinha

Tacioli – Você falou do Jorge Ben… Ele é uma figura importante na sua formação musical?
Hélio – É. “W Brasil” é uma coisa! Não somente os temas são legais mas como ele é super diferente. O modo como a melodia vai se encaixando, parece que vai virando um consenso assim que ele canta. É muito bom… E pras crianças tem sido um norte também. No meu trabalho com crianças tem várias [músicas] que eu estou grudando nele.
Tacioli – É mesmo? Quais músicas?
Hélio – Ah, vários funks… Fiz, no Gigante, uns dois. Agora tem mais uns três… “Chuva chuvisco chuvarada” é grudado nele, né? Fiz uma música pra ele… No Cocoricótem uma que a Banda do Zé Pretinho toca com o Jorge Benjor e o Júlio toca bongô com a turma do Cocoricó.
Max Eluard – E o que você vê no espírito da criança que tem também no espírito do adulto e que faz essa música ser para os dois?
Hélio – Ver as coisas pela primeira vez. Esse olhar curioso é o ponto de encontro. Por isso que dá certo fazer música que aborda tema de ciência, porque a hora em que você pega do ponto de vista do cientista que está olhando aquilo pela primeira vez, é direto. Então, essa coisa do gancho, a vontade, a curiosidade do ouvido é o ponto de encontro, né?
Tacioli – Da sua parte, há uma vigilância com o politicamente correto?
Hélio – Mais ou menos. Tive dificuldade quando comecei a fazer uma lista de histórias que eu queria contar. Cheguei na história do João e o pé de feijão. Aí fui indo atrás das versões. Na Internet tem uns grupos interessantes que estudam a história da história, como ela foi se transformando e tal. Aí, em resumo, o João vai lá e rouba o Gigante. E a fada fala pra ele, “Pode roubar porque ele roubou do seu pai”. Três vezes ele vai e rouba o cara. Três vezes ele queima tudo que ele roubou e gasta toda a grana. E a fada falando: “Está certo, pode roubar porque ele roubou tudo do seu pai.” Aonde vou falar essa história hoje? O cara era um nobre, trabalhar era de outra classe, o negócio dele era pegar a grana e queimar, queimar. Essa daí não dá pra contar. Aí comecei a ver o que dava pra contar e falei, “Ah, não vou ficar!” É muito difícil, tem muitas…
Max Eluard – Há um policiamento.
Hélio – É, há. Agora, o que está servindo como uma passagem é… Por exemplo, nas músicas que falam de natureza, não estou fazendo essa operação de transformar borboletinha numa fadinha. Borboleta é borboleta, é bicho. Planta é planta, tem semente. Essa coisa da concretude, de como as coisas são, tem uma maneira bacana de falar disso sem precisar fazer uma fantasia falsa em cima daquilo. Esse conteúdo do que é verdadeiro, do que é falso, a história da árvore é uma história verdadeira que parece inventada. As crianças só acreditam quando você mostra uma fotografia, mas você pode contar que eles não acreditam que aquilo aconteceu. Esse assunto está me guiando na escolha dos temas. Uma vez fui parar numa discussão com professores, que na música do banho, a gente mostrou um banheiro, que tinha uma banheira, uma cortininha, um sabãozinho e tal. As crianças chegam de perua da escola. E um lá levantou, “Olha, eu dou aula em Tribobó das Couves e lá o mundo não é assim, não. Você não acha que você está passando uma fantasia pra eles, que eles nunca vão chegar nisso aí? Não é meio cenário da Globo que você está propondo?” E eu falei, “Vou fazer o quê? Vou desenhar uma favela agora? O que eu estou oferecendo pra eles é inclusão no cantar. Essa música serve também na casa dele, não depende do banheiro ser assim ou assado.” Levantou um outro professor e falou, “É o seguinte: vocês estão desprezando o contato da estética na transformação das pessoas, basta ser bonito que já transforma.” Então, o que é certo, o que é errado se discute em todos os lugares. E tem outros assuntos que são tabus e que é bom, mas é bom atravessá-los, eu acho legal. Aconteceu um caso comigo… Gravei uma música em que a letra é do Olavo Bilac. Chama-se “Plutão”, que é uma história triste pra caramba, meu! O moleque tem um cachorro, de quem é super amigo. O moleque pega uma doença e morre. E o cachorro, dias depois, vai ao cemitério, deita numa tumba e morre. O cachorro se mata de tristeza. É uma poesia que o Olavo Bilac escreveu na época encomendado pela Secretaria de Educação que queria fazer um livro de poesia pra criança e tem lá o negócio da morte do Plutão. Eu não conhecia esse poema. Conheci lendo a biografia da irmã do Tom Jobim, que conta que o Jobim perseguia ela pela casa lendo o poema em voz alta, pra fazer ela chorar. E eu achei uma sacanagem bárbara! Isso bastou pra ir lá cantar a música. E os caras na TV Cultura falavam, “Você devia tirar essa música do disco, não tem nada a ver atravessar esse tema nesse lugar.” Eu falei, “Por quê não?” E deixei lá, de birra. E é uma música birrenta, tem crianças de 7, 9 anos que, quando chegam nela, ficam nela, põem o disco e já vão pra ela. E tem outras que pulam. “Tá bom, deixa lá. Tem um troço esperando, a hora que quiser, atravessa, se não quiser, pula.” Mas canção serve pra isso também, pra gente atravessar certos sentimentos e poder. É uma forma de domínio, quero dizer, a criança pode repetir ali a canção. A canção é uma coisa que a gente repete, disco a gente escuta muitas vezes, por quê, né? Porque passar de novo por aquilo constrói alguma coisa de novo dentro da gente. Enfim, num programa de rádio o cara me perguntou, “Pô, você fez uma música de batata-frita. Sabe que batata frita faz mal?” “É, imagino que faça numa certa quantidade, mas não vou fazer?” Ah, também assim não!
Tacioli – É, virou uma loucura.
Hélio – É muito difícil o certo e o errado.
Tacioli – Até porque ele muda com o tempo. Veja o caso do macaco e da…
Hélio – O Macaco e a Velha.
Tacioli – Que era de um jeito, e o João de Barro…
Hélio – É, consertou a história pra outro lado.
Tacioli – É, pra um outro lado, mas perdeu aquele caráter provocativo pra época.
Hélio – É, e muito agressivo. As histórias colhidas pelo Silvio Romero, várias delas, têm coisas muito provocativas. Tem uma história que se chama Dona Labismina, que é uma rainha que um dia virou pro marido e falou, “Olha, eu queria ter um filho de qualquer jeito nem que fosse pra parir uma serpente!” E aí nasce uma filha com uma serpente enrolada no pescoço. E depois de um tempo a rainha morre e antes de morrer ela fala pro marido, “Você só vai casar de novo com uma mulher onde caiba esse anel!” E em todo lugar onde procurou, a única pessoa em que coube o anel foi na filha dele. Ele quer casar com filha dele. E a menina fica apavorada e começa a fugir. E a história continua… A edição da Companhia das Letras que tem essa mesma história, mas eliminaram o fato de que era o pai queria casar com a filha. É duro você decidir se vai retirar isso ou não da história, né? Se a história vai passar por você ou se você vai filtrar essas coisas, mas esse problema é mais grave com as coisas do passado. Com as coisas do presente que a gente está pensando e fazendo agora, não tem esse problema. Você não vai falar, “Atirei o pau no gato. Mato o gato”. Não vai falar, não adianta, o problema é como é que se reinterpreta músicas do passado. As histórias de criança tinham uma finalidade disciplinar, né? E isso mudou. Agora, nós não, a história doChapeuzinho Vermelho é pra criança não falar com os estranhos. Falou com estranho, morreu. Hoje em dia voltou o Lobo Mau. Tem umas que vão entrar na moda de novo.
Tacioli – Dizem que até no disco Arca de Noé há letras de duplo sentido.
Hélio – Nunca pensei nisso.
Tacioli – Até onde vai esse policiamento?
Hélio – Mas talvez seja uma birra com o Vinicius, já que pessoas da geração mais velhas o achavam libertino. Ele não era isso. Ele foi um cara bárbaro, um super poeta. Ele merecia uma estátua na música brasileira. Ele pegou o eu lírido de um lugar e pôs em outro… Essa coisa bacana de poder chegar no Djavan que passa pelo Vinicius. Em Cuba não teve Vinícius. O negócio lá é no bolero, bom, enfim, mas isso é outra… [risos]

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