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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 19/25

Conversei com o Pedro Bandeira sobre Harry Potter

Tacioli – Você não acha que essa presença gigantesca do SESC pode ser um inibidor desses pequenos produtores e das pequenas casas, até porque eles não têm a mesma estrutura do SESC?
Hélio – Acho que não, acho que não.
Tacioli – São grandes clubes de cultura, cada vez mais, um aqui, outro acolá, mas a pergunta é se isso não inibe o surgimento do cineclube ali da esquina, da casa de show de 20 lugares, que por sua vez não terá condições de trazer um artista que prefere ir ao SESC.
Hélio – Nunca pensei nisso, mas acho que o SESC ordenou as coisas com conteúdos por trás, com políticas. O SESC se comporta diante da política como o governo deveria se comportar e não se comporta. Eles têm planos estratégicos, três, quatro vezes maiores e mais longos do que os mandatos de quem está por trás. Então, esse negócio alinha as forças, as pessoas adquirem hábitos de conhecer coisas novas ali. Quero dizer, hoje em dia você vai tocar num SESC do Ipiranga e pode ir tranqüilo porque lá há pessoas que estão a fim de ver um negócio que eles nunca viram. As pessoas aprenderam isso.
Max Eluard – Formou um público.
Hélio – Forma um público, forma uma expectativa de que é possível ser bom e não estar no Faustão. Esse negócio está no Brasil inteiro. No Brasil inteiro não digo, em São Paulo é muito lindo. É, sei que o SESC de Belo Horizonte tem uma pegada hoteleira. É um pouco diferente. Lá não teve tanto essa coisa dos teatros, do centro de cultura. Não senti isso tanto em Belo Horizonte, né? E no sul, por exemplo, que você já tem bancos fortes, TVs fortes, jornais fortes, já tem centros culturais, já tem outros poderes culturais, né? No Maranhão já tem coisa… Grupos culturais se formando… Isso é a base mesmo, né? Agora, lugares como o Supremo é que poderiam ter mais, que é uma coisa um pouco menor, não tem tantas pretensões, mas viabiliza um outro contato, de um outro público, né?
Max Eluard – E outra estética também, né?
Hélio – Outra estética também. O problema é o seguinte: precisa haver mais empresários que estejam interessados nessa setor.
Max Eluard – Nesse aspecto, como eram os anos 1970 e 80? Como era trabalhar com música sem a presença forte do SESC?
Hélio – Era uma pirambeira total, absoluta. E o Lira foi justamente esse aglutinador, que deu coesão, orientou. Hoje não pinta mais isso, é estranho, né?
Dafne – Como era esse ambiente?
Hélio – As vagas pra bicar a grande grana ainda não se esgotaram. Então, quem tem energia pra fazer essas ações está indo buscar os grandes dinheiros. O fato do grupo Cachuera! ter conseguido fazer uma sede que é um teatro e um estúdio de gravação, ter firmado contrato com o Itaú pra publicar não sei quantas mil horas de fitas, com coisas riquíssimas… E lá tem um lado super interessante que antigamente o cara que estudava musicologia, que ia estudar música popular e folclórica, não se misturava com quem tocava. Os caras do Cachuera! inverteram esse negócio. Eles vão lá, compram o tambor, aprendem a tocar e, na maioria das vezes, acabam se tornando a interface com que os artistas populares vão chegar à cidade. Então há uma postura de aprender a tocar. Eram pianistas, eram músicos eruditos que vão lá tocar tambor-de-crioula. Fazem negócios lindos! Isso é muito interessante! Enfim, o que vai trazer a virada nesses negócios são as mudanças na educação. Estive conversando aqui no estúdio com o Pedro Bandeira, que é um escritor de livros, né? Uma certa hora ele falou, “O trabalho do escritor infanto-juvenil hoje está atrelado à educação”. A gente conversava sobre o o Harry Potter. Ele falou, “Olha, no Brasil tem caras que vendem mais do que o Harry Potter. O que o Harry Potter tem de diferente é o seguinte: os autores brasileiros estão vinculados aos pedidos da escola. Então são livros para serem lidos em duas semanas. Eles são assim, dessa grossura. Eles não podem ser livros muito grossos. E o que o Harry Potter tem de livre é o tamanho e o tempo dele.” Então, o fato de estar atrelado à educação está restringindo o tempo que o livro pode conter ali. Com a música é a mesma coisa. Você não vai fazer música muito comprida, senão não vai dar, tem aquele tantinho ali, 3 minutos, e já fica contente, né?
Tacioli – O processo se inverteu?
Hélio – É.

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