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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 16/25

Conviver com o Luiz Tatit é uma escola

Max Eluard – Você pensa regularmente a música? Ela é um exercício, digo no sentido de pensar nos rumos da música?
Hélio – Não nos rumos das música, mas nos meus assuntos… isso serve um pouco de guia. Por exemplo, com a história do Cem dias quero fazer uma música minimalista, com cordas. E é uma história em que o cara rema todos durante cem dias. O problema dele é esse… Ele faz a mesma coisa o tempo todo. Então, ele acordava às três da manhã pra pegar o amanhecer, porque a mudança da luz ajudava muito a repetição do gesto. Então, a idéia de você ter motivos repetitivos que vão passando por diferentes iluminações. Isso permite pensar, armar coisas sonoras, isso vai dirigindo um pouco a imaginação, soltar um pouco a narrativa pra poder ter mais tempo de permanecer naquele bit mais hipnótico…
Tacioli – Hélio, você ficou de 74 até o encerramento das atividades no Rumo, né?
Hélio – Trinta anos, né? Vinte anos foi o primeiro fim, assim, de 74 a 94. Aí teve mais uns extras até 2004. Ainda tem show do Rumo no fim do ano. Parece família com filho, não acaba. [risos] Pára, volta.
Tacioli – Mas qual a grande história do Rumo?
Hélio – O Rumo tem mais de uma grande história. A primeira, sem dúvida, é o Tatit, o Luiz Tatit. Conviver com um cara desses é uma escola, porque tem pessoas que já nascem artistas formados, no sentido de ter uma fé cega em si, não ter dúvida, nem na adolescência. [risos] Primeiro show do Rumo, cara, o cartaz foi feito pelo Rubens. Era uma flecha, assim. Realmente, o Luiz é uma flecha. Ao longo dos anos as coisas foram sendo selecionadas e sendo deixadas de lado. Havia esse toque do Luiz de querer uma coisa moderna. Tem muita coisa que ele acha bonita que se outro já fez, ele não vai fazer. Ele só vai fazer o que ele ver que alguém não fez. Isso é natural, ele é naturalmente assim. Não é que ele se afasta, ele é assim. E ele imantou tudo com isso. E o Rumo tinha um meio campo que era muito bom. O Geraldo, o Paulo, o Zé Carlos são personalidades de meio campo, que liga A com B, B com C. O Paulo é um músico arquiteto. Ele tem aquela coisa de que as músicas são meio plantas na cabeça, ele enxerga os esquemas. Então, na parte de arranjo, o Rumo foi uma farra total e absoluta, porque as idéias e os temas eram muito imaginativos. E eu tinha uma vivência que vinha de um lugar, ele tinha de outro. E eu demorei a me achar lá, porque quando comecei a tocar flauta, o Paulo e o Akira já tocavam muito violão. O Akira já tirava Scarlatti [n.e.. Domenico Scartalli, 1685-1757 ] nas horas vagas. Pegava aqueles discos da Abril, velhos, e tirava Scarlatti no violão somente para passar o tempo. Dá vontade de matar o cara! E eu malhei muito na flauta, demorei a passar pro sax. Na verdade, as melhores coisas de arranjo que eu fiz dependiam de timbres de mais de um saxofone. Então ficava meio amarrado na coisa da gravação. Mas mesmo assim, a parte dos arranjos foi uma coisa muito rica, a gente pegava as canções pra interpretar tentando chegar numa coisa que a gente sentia ser a essência da música. Então, não tinha essa coisa de aplicar um estilo, não era pegar uma música e aplicar um estilo em cima dela pra modernizar. Era um negócio de limpar a coisa e ver o que brotava dela. Era muito legal aquilo! E o Rumo foi um grupo hilário, porque no inicio a gente passou anos explicando as músicas. A gente tinha reuniões em que se discutia se era melhor explicar antes ou depois de cantar, porque isso também mudava. Era uma coisa de doido, cara, de universitário completamente doido! E assim, e com o passar do tempo, as canções foram ficando melhores e foram prescindindo de explicações, e a gente não queria explicar nada pra ninguém. E durante um bom tempo do Rumo, a gente tinha grupo de estudo, de Semiótica, Lingüística. E uma hora isso também parou. O Tatit continuou estudando, virou professor, mestre, doutor, e a gente continuou fazendo música. O grupo teve um pouco essa felicidade que foi, penduricalhos teóricos foram caindo dela e a música foi ficando. Mas tenho queixas do Rumo no aspecto temporal, no aspecto rítmico. Fomos muito cerebral em relação ao tempo das músicas. E em shows quando quando tivemos alguns técnicos bons. Os shows do Rio de Janeiro, alguns shows aqui em São Paulo foram shows que o som do grupo se fechou no palco e a gente conseguiu apresentar as músicas muito bem tocadas. Mas não era uma coisa que a gente conseguisse dominar. Com os discos eu queria outra coisa, eu queria fluência… Então, conforme os anos foram passando, esse assunto da fluência no tempo, que o tempo não é uma coisa pra você vigiar, você não manda nele, você pode surfar nele, mas se você começar a mandar a música quebra. Então, achei que foi pegando um lado um pouco racional, não nas letras, mas no contato com o fluxo da música. Hoje em dia eu acho que a gente mudava muito de ritmo no meio da música, ficava mudando como se não pudesse manter um bit. Hoje em dia eu já sei do que gosto… Gosto do bit, gosto das idéias que estão em cima do bit e não precisa brigar com ele. É um pouco encanação do músico erudito que acha que ritmo é pecado, porque teve lá o Schoenberg que disse que tinha que não ser. Os músicos eruditos ainda não se conformaram com esse assunto. Primeiro que eles não sabem fazer samba, baião, não sabem fazer esse negócio, fica balofo. E, segundo, não sei se eles não gostam de dançar, se é uma cultura pessoal, o que é, mas eles não prezam o bit, acham que, ou é uma coisa romântica que eles vão fugindo do tempo, ou é porque acham a música pulsante marcada como música de mercado. As pessoas que estão lidando com isso do ponto de vista criativo têm que responder aos caras que pode pulsar. Como, pode pulsar, não é mola. Então esse pé na bunda da tradição erudita que fala que pulsar é pecado, que isso é uma coisa de mercado, isso é uma atitude que está se generalizando. Acho que está indo bem adiante, né?

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