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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 15/25

O que atrapalhou o samba foi o baixo

Tacioli – Fazer o quê em Cuba, Hélio?
Hélio – Fui lá visitar. Tinha umas pessoas de música pra criança, ganhei uma viagem junto com a Isto É e fui lá. Era uma matéria sobre música em Cuba e eu aceitei o convite de bom grado. Tenho vontade de ir tocar lá. E eu muito curioso com aquela faixa que tem no Buena Vista, a primeira faixa, que é um som lento. “Quero ouvir mais dessas aqui.” Parece um blues lento. Cara, cheguei em Cuba, aqueles cubanos são siderados. Eles falam muito depressa, tocam muito depressa. “Mas não tem nenhuma lenta?” Conheci um baterista num clube de jazz. Ele se chamava Lênin. “Cara, fala pra mim, não é muito acelerado, não tem nenhuma mais (cantarola lentamente). Não vi uma música lenta na ilha?” Porque o lento pra eles é bolero, é um negócio que cai baixo do Vinicius, assim. É estranho, o negócio parece que tem ponta e não tem meio-campo. Mas lá é interessante que todos os grupos de rua têm baixo. E eles fizeram uma armação de baixo e bongô que é mortal. A música fica super bem construída. Nada é no tempo, nada é simétrico, os caras são uns monstros, tocam muito, né? E já têm a linguagem do baixo feita. E o que atrapalhou no samba foi o baixo, que é difícil de ficar bom. O samba tradicional resolveu isso com 7 cordas, quero dizer, deixa os graves para a percussão, sobe um pouco o registro do baixo, faz o baixo no 7 cordas e vai em frente. Mas pra música pop não adianta, tem que vir um contrabaixo, tem que colocar o bumbo e o baixo em algum lugar. E vieram os tambores, outros ritmos, mas o samba mesmo, que é a arena [riso], ainda está difícil, fica um negócio (cantarola um ritmo de samba) que não sai, que não anda. Aí esse problema está segurando.
Tacioli – E o pop brasileiro tem um exemplo bom do uso equilibrado do baixo?
Hélio – Não sei te falar, não sei te falar.
Tacioli – Nunca pensei nessa coisa do baixo.
Hélio – Bom, o Paralamas é um trio de primeira, lá você já tem essa coisa bem resolvida. Aquele disco deles, Arquivo, tem um som que parece com o dos melhores discos americanos, muito bom, muito bem feito. E o Gil, por exemplo, o que ele já fez, de “Vamos fugir’, músicas que tem essa coisa dele ir lá, gravar com os caras do reggae, botar o baião dentro do reggae. Quero dizer, essa cabeça que fica movendo o tempo forte dos acentos. É isso que tem no minimalismo, é isso que tem no Philip Glass. É gente que tem consciência de que dá pra fazer música instrumental movendo essas matrizes de ritmo, né? Nós estamos vivendo um período empírico, em que os músicos vão experimentando, experimentando, experimentando, experimentando até acumular uma… Lá no Som e o sentido, que você comentou, tem um exemplo que foi marcante pra mim. Do canto gregoriano até a entrada do Bach, foram 500 anos em que eles ficaram experimentando um monte de coisa até chegar na idéia de motivo. Quero dizer, pra eles saírem da cabeça que viam a música como gregoriana até chegar na cabeça que via como motivo, passaram-se 500 anos e a música não parou.
Dafne – Você acha que a gente está nesse período?
Hélio – Eu acho.
Max Eluard – A música brasileira ou a música.
Hélio – Não, em geral. Essa entrada da música africana no mundo inteiro, o pensamento rítmico. Essa coisa, o esgotamento da questão da harmonia, que os caras não sabem mais o que fazer, já esgarçou a harmonia e idéias estão vindo de onde? É um período de contraponto, que é uma coisa típica na música. Já aconteceu várias vezes, alternância entre períodos harmônicos e períodos de contraponto, né? E estamos de novo, Timbalada e Carlinhos Brown são uns contrapontistas absurdos, né? E a turma do choro voltando à tona, tem tudo a ver. O choro é uma batucada com notas, né?
Dafne – Mesmo no pop, com o mangue beat, essa coisa…
Hélio – É.

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