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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 14/25

Adoro o minimalismo, Steve Reich e Philip Glass

Tacioli – Hélio, reparo em muitas músicas suas que há uma pegada rock, de rock balada a rural, como você brinca em “Cocoricó”. Isso vem pela sua formação de ouvinte também?
Hélio – É, mas tenho uma ligação muito mais forte com o samba. A quantidade de sambas que sei tocar deixa no chinelo a de rock. Um pouco do universo do Cocoricó peguei carona pra ir nesse negócio meio folk, meio balada, fui indo por aí. Então ficou engraçado isso. Mas tenho essa coisa mais do samba, que é muito forte pra mim. Frevo é muito forte. Filtro isso através do Gilberto Gil. Acho aquele negócio de samba-rock dele e tal, o jeito como ele olha pro pop, mantendo o baião e o samba juntos. Isso marcou muito pra mim.
Tacioli – Mas existe um filtro pra saber com o quê você deve trabalhar ritmicamente ou não?
Hélio – Não.
Tacioli – Não tem esse…
Hélio – Não.
Tacioli – O que comunicar já vale?
Hélio – Não é nem só o que comunicar. Adoro o minimalismo, Steve Reich e Philip Glass. E essa coisa do ritmo é um tema na minha cabeça. O Philip Glass e o Steve Reich são músicos eruditos que conseguiram gerar novas formas de expansão do pensamento rítmico, misturando com coisas africanas, com coisas da Indonésia. Então, olho pro choro, olho pro samba querendo fazer essa mesma expansão, querendo fazer com que os ritmos consigam deslizar um sobre os outros. Essa coisa que o reggae tem do baixo tão forte no contratempo… Como isso inverteu as funções de todos instrumentos. Como isso chegou na composição. E, pra mim, não é bem um filtro, são esses mundos, esse mundo do Luiz Gonzaga, quanta coisa que tem cara. O disco Eu, tu, eles, do Gilberto Gil, que absurdo, que maravilha que é aquele disco! Então, gosto muito de som grande, com muito instrumento, gosto de coisa sinfônica. Gosto do Tom Jobim quando ele é grande, quando tem bastante coisa soando. E mesmo assim ele é moderno, não fica balofo. Na época do Dorival Caymmi, naquela caixa do Dorival Caymmi, tem uma época dele, quando gravou “Maracangalha”, “Dora”, com o maestro Gaia. Pô, cara, aquilo é impressionante! Tem um monte de gente tocando, parece que tem um cara tocando pandeiro. Todo mundo sabe onde é ali, vai tudo certo, que hoje estão nesses caras de gafieira, que são esse resumo da história. Então, o pouco contato que tive com o pessoal da Mantiqueira, é demais, cara, demais! Um monte de gente que joga bem, toca bem. Então, não é a hora de filtrar ainda, mas tem que deixar em pé, como é que faz o som ficar grande de novo, de uma maneira atual. Isso está em curso.
Tacioli – Falo de filtrar pensando nesses outros que você falou, como o rap, música eletrônica… Você, em sua casa na colina, está de portas abertas pra esse tipo de sonoridade?
Hélio – Nossa, Massive Attack escuto muito. E essa coisa eletrônica, principalmente que peguei a música eletrônica do zero, peguei os aparelhos do zero. Tem aparelho que peguei todas as versões até o cara ser descontinuado. A música eletrônica é um laboratório de imaginação sonora, não é mole aquilo. E as ferramentas, o tipo de imaginação em relação ao programa que está produzindo aquilo, isso é super lindo. Quando espreme, que vai virar música de pista, já vai ficando muito específica, já não atuo nessa comunidade, né? Mas quando pega um disco que nem o Massive Attack, as coisas da Björk, Nossa Senhora, as percusões eletrônicas da Björk, a voz, de onde vem. Aquilo é um mundo… Não fizemos nada disso ainda, nada, nem perto. Tem um monte de coisa pra fazer, né? E a dificuldade que é fazer percussão de samba eletrônico. O som da música está avançando, né? O que ainda não tem são pessoas aglutinadoras, arranjadores mais aglutinadores capazes de fazer brotar uma sonoridade. A gente está devendo pra nossa música o que os jamaicanos fizeram com o reggae, eu acho. E o problema está no baixo, de novo. Porque na música brasileira houve um abaixamento da intensidade geral da voz, né? Não é somente a bossa nova. A bossa nova foi a consciência disso. Mas se pegar o Orlando Silva, por exemplo, ele é um cantor de voz muito possante, mas o equilíbrio entre vogal e consoante na boca dele já está pronto. Ele não é em cantor de ópera, já está reduzindo intensidade. Ele tem uma boca enorme, cara, uma voz enorme. E as consoantes já estão todas lá. E ele é contemporâneo do Mário Reis, já está ali naquele, já está tudo ali. Então, uma das dificuldades do rock brasileiro é que, quem é que grita aqui prá valer? O Luiz Melodia grita, mas não… Até o rock da gente é mais baixo e isso mexe no som. Agora, música eletrônica é bacana porque as relações entre as fontes vão ficando abstratas, né? Você pode repensar de novo os volumes, os planos. O mundo eletrônico é maleável pra isso. E tem um monte de produtor novo aparecendo. Esse novo disco da Bebel Gilberto, por exemplo, é muito bem feito, sabe? O equilíbrio entre a voz dela, os arranjos, as coisas, uma sonoridade muito legal. Aquele disco da Rita Lee, do Beatles, que ela gravou, fazia muito tempo que alguém não fazia uma bossa nova bacana, atual. É muito bom aquele disco, né? E a questão do baixo está lá presente, que tem uns baixos super cavernosos. Não sei direito. Difícil uma linguagem de baixo como a dos Beatles, como a do reggae. Fui pra Cuba recentemente, e Cuba é interessante…

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