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Entrevistas de música brasileira

Hélio Ziskind

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Hélio Ziskind

parte 11/25

O João de Barro tem um grau de compactação louco

Tacioli – Hélio, dessas figuras que trabalharam com música infantil, quem fez um trabalho bacana, independentemente do tempo, da geração? Vinicius, João de Barro, outros, não sei?
Hélio – Não, igual João de Barro não tem, porque não é somente a música, é a câmera dele. Só emparelha ao João de Barro o Caymmi. O cinema deles, a maneira como eles filmam o assunto, é uma coisa… O João de Barro tem um grau de compactação que é muito louco, cara, e não parece! Ele parece o Manuel Bandeira, vai indo assim pelo facilzinho e a história está compactada, condensada lá…. Acabei caindo num livro do Silvio Romero, Contos populares do Brasil, em que ele recolhe as versões originais de algumas histórias. Tem lá a versão original do O macaco e a velha, completamente diferente, né? Na versão original, a velha mata o macaco, pica, cozinha e come, e lá dentro da barriga os pedaços começam a gritar que querem sair, não vou poder chegar ao fim, mas imaginem, os pedaços querem sair pela orelha, e ela, ”Não, porque tem cera”, pelo nariz, “porque tem catarro”, pela boca, “porque tem cuspe”… aí sai pelo fiofó, num peido da velha. Essa era a história. Aí o João de Barro pega esse negócio e… Primeiro que o macaco não morre, ele só toma um susto. Depois a velha veste uma roupa de leão e dá um susto no macaco. E arruma um jeito deles ficarem amigos. Ele dá uma esticada na história, resolve, acomoda e tal, e aquilo tudo nos versinhos ali, tudo bem cantadinho. O cara é um absurdo! Sem sair da dele, ele é o mesmo do “Carinhoso”, é o mesmo! Então, não é à toa que ele era o cara da Disney no Brasil.
Tacioli – E o Caymmi parelha?
Hélio – É, nessa coisa de filmar, né? Em “O que é que a baiana tem?” ele vem subindo pelo corpo dela até chegar no peito. Aí os balangandãs, não-sei-o-quê… O jeito de narrar a história dos dois é um absurdo, né? E dá muito certo com criança, muito certo. Agora, em termos de sonoridade, meu ideal a ser alcançado é a sonoridade do Tom Jobim. Aquele negócio de violoncelo, flauta, piano solando, aquela coisa bem tramada do “Boto”, aquela coisa meio orquestral, que é uma continuação moderna do que o Radamés já fazia nos próprios discos da coleção Disquinho, né? E essa sonoridade do Zé da Velha com o Silvério Pontes com esses chorões novos… Também queria que isso entrasse mais… Já imaginou no Mês das Crianças, pedirem pro Zé da Velha e o Silvério fazerem uma cantiga em gafieira! Pô, não tem coisa mais linda que aquele disco deles,Tudo dança. Aquilo lá é uma coisa! Tem até maxixes. É demais!. Maxixe é um ritmo que dá pra pegar com criança, frevo dá pra pegar, baião dá prá pegar. Tem uma parte rítmica pra entrar que é muito forte ainda, sabe?
Tacioli – Você acha que esse sucesso do João de Barro com as crianças também se deve por ele ter sido um compositor de marchas?
Hélio – Você diz na parte infantil?
Tacioli – É, porque as letras de marcha são simples no sentido de ter que compactar… Não possuem muitas variações…
Hélio – Ah, tem, cara! [cantarola “Linda morena”] Quer mais, pô?! Tem milhares lindas, imagina! Marcha é linda!
Tacioli – Não disse que não é.
Hélio – A gente é que não tem mais época pra acompanhar esse pulso. Acelerou mesmo. Mas quando a gente desacelera, já cai pela metade com isso daí. [risos]

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