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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 6/20

A grande qualidade do choro é que ele é um gênero vitalício

Seabra – Você e o Yamandú têm uma postura no palco diferente da maioria dos instrumentistas e dos chorões, parece-me uma atitude que é da sua geração, mas não construída. Ter essa atitude é uma das formas onde a política se materializa?
Hamilton – É!
Tacioli – Hamilton, tô meio incomodado com o barulho que vem da rua.
Hamilton – Com o som dali, né?
Tacioli – É. Quando subi não havia esse som alto…
Hamilton – Eu fico mais aqui. [risos] [Estica o pescoço e se aproxima do microfone]
Almeida – Aí, não tem grilo.
Tacioli – A gente coloca a mesa mais perto.
Almeida – Melhor.
Tacioli – Beleza.
Seabra – Então, é por aí, né? Acho que é nessas horas em que se cristaliza…
Hamilton – Eu concordo com você duas vezes. Mas também não é pensado. É totalmente espontâneo e natural.
Seabra – É por ter sido fã de Renato Russo.
Hamilton – Claro! Claro! Totalmente.
Tacioli – Mas isso em algum momento, por ser música instrumental, chegou a o constranger, de dizerem, “O cara dança demais no palco”. Já houve esses momentos?
Hamilton – Já. Já me constrangeu e já me fez pensar muito.
Tacioli – Pô, tenho que tocar sentado…
Hamilton – Mas sempre tive a certeza de que esse jeito é o jeito e quem não gostar, paciência. Quem não gostar, paciência, porque é a forma com que eu consigo mostrar minha arte, e arte é assim. Tem gostos e gostos. Só que eu acho que isso é uma coisa da minha geração, e por isso é que muita gente gosta.
Almeida – Você consegue se imaginar numa situação hipotética em que o choro instrumental estaria inserido nesse megaesquema da indústria fonográfica, em que as pessoas interfeririam…
Hamilton – Espera uns 5 anos, Daniel.
Almeida – Mas, de falarem, “Não, Hamilton, o público prefere você sentado, com uma roupa de tal cor…”. Você imagina esse tipo de interferência?
Hamilton – Se eu achar que tem a ver com o momento musical, com o tipo de repertório que eu quero fazer, com a minha cabeça, não tem problema nenhum em tocar sentado, tanto que eu toco com o Marco Pereira, sentado, toco com o Brasília Brasil…
Almeida – Falei sentado, mas quis dizer qualquer tipo de interferência. “Minha arte é assim que eu apresento.”
Hamilton – Entendi, Daniel. Não tenho problema nenhum em mudar. Se for pra melhorar e pra melhorar a forma com que apresento a minha arte, estou aberto, totalmente.
Tacioli – Mas tudo tem que passar pelo seu crivo.
Hamilton – Claro, tudo.
Tacioli – Não é um produtor que vai chegar e…
Hamilton – Não. Sou personalidade forte e comigo é assim.
Almeida – Por que você falou de esperar 5 anos?
Hamilton – Para o choro estar inserido nesses grandes esquemas de que você está falando. Talvez menos, 5 anos pra “pá!”. Mas, pode marcar a data de hoje. [risos] Lógico, que ele não vai ter o mesmo tratamento, porque ele é diferente, mas também não quero o tratamento de virar produto descartável nos grandes meios de comunicação, que foi isso que entendi da pergunta. Mas, no lugar dele.
Tacioli – Você acha que o choro pode passar por um momento semelhante ao do forró, o intitulado “forró universitário”. Pode haver um “choro universitário”?
Hamilton – Aí, o tempo vai dizer, Ricardo. O tempo diz tudo, velho. Se for pra ser, será. Eu discordo totalmente, porque eu tenho certeza de que não vai ser, mas deixe que o tempo vai dizer. O conteúdo e a verdade dele vão estar aí. Se for pra ele ficar parecendo uma coisa descartável, de moda, que ele nunca foi, acho que vai ser assim. Mas, na minha cabeça, não vejo assim. Essa é uma hipótese que outras pessoas já falaram e que é possível. Mas que, pra mim, particularmente, ou vai aumentando a quantidade de público, mas sempre mantendo esse estágio dele, ou então ele explode e fica lá pra sempre. A grande qualidade do choro é que ele é um gênero vitalício, tem sempre gente gostando dele. Só que vem um fator, que talvez até leve pra isso que você está falando, eu não tinha pensado nisso, que é a forma como os artistas do choro encaram isso. Porque hoje mudou muito o perfil. Antigamente, a maior parte dos chorões eram funcionários públicos, hoje em dia esse perfil já mudou. Então, isso muda também, a forma como o público vê. Não estou desmerecendo, não, muito pelo contrário, são momentos históricos do chorinho. E Brasília tem isso, inclusive pelos funcionários públicos, só que hoje o perfil é diferente. [Euclides Marques e Paulina chegam]
Almeida – Euclides!
Tacioli – Hamilton, esse é o Euclides, violonista 7 cordas.
Euclides – Tudo bom, Ricardo? Oi, oba, tudo bom!
Hamilton – Tudo bem, Euclides?
Euclides – Tudo jóia, a gente não se conhece pessoalmente, mas… [cumprimentos gerais]
Tacioli – Essa é a Paulina…
Hamilton – Tudo bem, Paulina?
Paulina – Tudo bom?
Tacioli – Euclides e Paulina, se acomodem.
Euclides – Já perguntaram tudo ou sobrou algum assunto?
Almeida – Tá só no começo, tá só no começo…
Tacioli – Vai assustar o Hamilton. [risos] Eu estava te perguntando isso porque o choro tem essa coisa cíclica. Nos anos 70 houve momentos muito bons, muitos discos foram lançados, artistas foram regravados, festivais. Nos anos 80 também, menos que nos 70. De 90 pra 2000, de uma outra maneira. Mas a impressão que tenho é que você não vê dessa forma esta geração.
Hamilton – Esta geração é diferente. Acho que essa geração está pra voar mais, sabia?
Tacioli – Onde você identifica essas características?
Hamilton – Só de ter hoje vocês aqui ou, por exemplo, hoje estou na quinta entrevista do dia. Aí você vê. E todas falando essas coisas importantes, cada uma de uma forma, mas sempre levantando essa bola do momento do choro. Você falou da coisa cíclica, eu acho que todas as coisas aqui no Brasil são assim, cíclicas. Mas parece que cada vez elas vêm mais forte, e o choro não podia ser diferente, já que é pai e mãe dos gêneros brasileiros. [ri] Eu acho, bicho, e vivo isso, vivo mesmo.
Tacioli – Essa sua postura no palco, como do Yamandú, e de uma outra forma, do Trio Madeira Brasil – mais pelo repertório – é um ponto importante pra trazer esse público novo e que pode sedimentar essa nova realidade?
Hamilton – Acho que é, naturalmente. Sem forçação de barra, porque ficar fazendo careta pra chamar público… Não é por aí.

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