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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 5/20

Estou tentando ler os programas de governo dos pré-candidatos

Almeida – Hamilton, você bebe em outras fontes? Você lê ou vai ao cinema?
Hamilton – Eu gosto de ler, mas não tenho muito tempo, sabia? Esse, talvez, seja um dos meus maiores problemas. Por tocar demais, às vezes, esquecer que eu tenho que ler. Às vezes, fico tocando até madrugada e vejo que está na hora de dormir, até a hora de um compromisso, de uma entrevista, ou tenho, sei lá, que lavar o carro, ou alguma coisa assim. Esse é um problema que tenho na minha vida. Lá em Paris, quando eu estava sozinho, eu lia bastante. Agora, estou fazendo uma leitura um pouco menos formal. Estou tentando ler os programas de governo dos pré-candidatos. Estou numa fase inicial. Lá de Paris, por exemplo, eu leio todo dia o Correio Braziliense, O Estado de S. Paulo e O Globo.
Seabra – Ler os programas de governo, que você diz, pela imprensa, não?
Hamilton – Não, o programa mesmo.
Seabra – O programa?
Hamilton – Já tem. Eu peguei alguns na Internet. Isso foi uma coisa que me deu na cabeça lá em Paris. Eu tenho 26 anos, sou um cara formado em Universidade, já li bastante, sou privilegiado, pois tenho contato com o mundo intelectual de alto nível. Então, o mínimo que eu tenho que fazer é saber o que está acontecendo no Brasil e votar direito. Isso veio claro na minha cabeça. Eu, sozinho, não vou resolver os problemas do mundo, mas faço minha parte, e acho que se todo mundo pensasse um pouco assim também, as coisas podiam melhorar aos pouquinhos. A minha leitura atual é ler totalmente linguagem informativa. A minha leitura atual é essa. Eu estava lendo, lá em Paris, alguns livros, como biografias e algumas coisas sobre budismo, sobre religião, também, mas não tenho o tempo que eu queria ter pra ler.
Tacioli – Você tem uma preocupação que é rara nos artistas, uma preocupação em se informar. Em instrumentista é mais rara ainda, pois ele não se expressa pela voz, mas pelo instrumento. Você vê uma responsabilidade no artista?
Hamilton – Total, Ricardo! Porque a gente recebeu um dom e dentro da nossa sociedade todo mundo está olhando pra mim, o tempo inteiro. Então, se eu tenho essa coisa boa nas mãos, que pode se tornar ruim, também, então vou fazer alguma coisa pela sociedade. Eu, particularmente, não gosto de ficar declarando o que eu penso de política, em quem eu vou votar. Prefiro me resguardar, mas faço essa minha parte, de ter que tomar conhecimento e falar com as pessoas com quem convivo mais diretamente, e que eu posso contar as histórias, que eu posso me aprofundar mais, aí eu falo das coisas, gosto de discutir sobre os problemas gerais. Por exemplo, no dia do meu aniversário, que foi 30 de março, eu estava lá em Paris, e tinha uma amigo meu do Brasil, um amigo que estudou comigo desde a 5ª série, que foi passar uns dias lá, aí a gente conheceu um casal de portugueses, dois amigos brasileiros, mais um outro amigo venezuelano, e a gente fez uma festa lá em casa. Era todo mundo da mesma idade, entre 26 e 30 anos. E o assunto da noite era mundo, nova geração, política, natureza, universo, cosmos. Tudo. O papo foi esse. Eu gosto de entrar numas viagens dessas, porque é gostoso e fomenta o momento artístico, dá uma alimentada pra compor, pra fazer as coisas. E já que eu tenho esse dom artístico, então vou usar da melhor forma possível.
Tacioli – Como se posicionam sua consciência e sua preocupação na hora de tocar e de compor?
Hamilton – Não sei. Nunca parei pra…
Tacioli – É difícil de materializar?
Hamilton – Exatamente. É difícil materializar, mas tem uma coisa da linguagem do ser humano, sem ser língua, sem ser olhar, parece uma coisa de telepatia, de forma de comunicação, que a música tem. A música cantada é muito direta, porque a letra já fala e, aí, falou, tá falado. Mas a música instrumental te leva para uma viagem… – até a cantada, também, se você não repara muito na letra, ela te leva para uma viagem, para um outro tipo de comunicação que a gente não tem como descrever e como dizer o que é exatamente. Mas tem isso na música. E é nessa onda que eu procuro entrar e passar isso para quem está vendo. Por isso que, às vezes, eu não toco choro, toco outras músicas. Busco isso em outros estilos de música, tenho ouvido atualmente muita coisa latina, de bolero, música cubana, música mexicana, venezuelana. Como estou lá em Paris, estou tendo contato com uma porrada de coisas. Eu tento entender essas coisas. E são coisas que a cultura de cada país carrega. Então, por exemplo, a música brasileira tem um tipo de linguagem, não técnica, mas um tipo de linguagem da melodia e da harmonia que a americana não tem. E a música americana tem coisas que a brasileira não tem. São coisas vividas no dia-a-dia do brasileiro. Por exemplo, o brasileiro. A gente está sempre dando um “jeito”. O velho “jeito” que neguinho fala, mas isso é uma coisa muito séria. Dar um “jeito” é o quê? A gente tem uma série de dificuldades que a sociedade capitalista nos impõe, mas que a gente não tá nem aí, vivemos felizes da vida. Brasileiro é assim, né? E o espírito do samba é um pouco assim, de sofrer e mesmo assim estar… Os países europeus não têm nada disso. Então, a música popular deles, atual, é uma música parada, vamos dizer assim, parou no tempo. O que está acontecendo lá: a música da América misturada com a música de lá, e tem essa coisa dessa linguagem de que eu estou falando, que não sei o que é, mas tem. Cada região, cada país, cada cidade até, aqui no Brasil, porque o Brasil é muito grande, cada lugar tem como se fosse um sotaque. Seria o sotaque, em palavra palpável, mas não sei o que é. E que quem toca, quem é artista, e até quem não toca, mas tem sensibilidade, sente isso. E eu tenho certeza de que vocês sentem isso, mas também não sabem o que é.

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