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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 4/20

Eu era fã da Nilze Carvalho!

Hamilton – Quero um pretinho, o último.
Garçonete – 240, né?
Hamilton – 240. Isso!
Almeida – Aqui um…
Tacioli – Eu tô sossegado.
Garçonete – Três claros… Marco num cartão só?
Tacioli – Marque no meu. É o 223.
Garçonete – 223, três chopes claros e um escuro.
Tacioli – Hamilton, o que significou para o Dois de Ouro…
Hamilton – Peraí, deixa eu explicar o nome Dois de Ouro, primeiro. Dois de Ouro porque era eu e meu irmão. A gente era pequenininho e o Pernambuco do Pandeiro nos batizou. Como era uma superatração dois meninos, em 83, tocando chorinho, bandolim e sete cordas, aí, pô, Dois de Ouro. E ficou, porque a gente tocou em vários lugares e sempre usando esse nome. E lá em Brasília mais forte ainda. E aí, virou um grupo, porque meu pai entrou tocando, o Pernambuco do Pandeiro, e depois passaram vários outros músicos. Hoje é um grupo que leva o nome de Dois de Ouro.
Tacioli – Naquela época você chegou a ser comparado a outros garotos prodígios de instrumentos? Eu me lembro da Nilze Carvalho.
Hamilton – Eu era fã da Nilze!
Tacioli – É?
Hamilton – Ô. E hoje ainda ela está cantando pra caramba. Teve um espetáculo no Rio de Janeiro chamado O samba é minha nobreza… Vocês assistiram?
Tacioli – Não. É do Herminio.
Hamilton – É, direção do Herminio. Pois é, a Nilze cantou nesse show e botou pra derreter. Tem foto lá em casa, eu, molequinho, a Nilze, jovenzinha também, com o pai dela. Aconteceu um episódio em 83, quando houve um show em Brasília em homenagem ao Waldir Azevedo e a Nilze foi lá. O pai dela era conhecido de um dos diretores do Fantástico na época. Aí, fez uma ligação, fomos ao Rio e tocamos noFantástico. Eu tinha 7, o César, 13. E ficamos amigos do pai da Nilze. Naquele tempo, a gente conheceu um pessoal em Goiânia, que era uns meninos pequenos que tocavam também, do Rio. Mas, na verdade, não tinha muita comparação, porque não havia tanta criança tocando chorinho. Por isso, também, rolou esse nome, Dois de Ouro, porque era uma coisa um pouco diferente. Teve até um negócio de menino… Como era? Superdotado, não-sei-o-quê e tal, aquela conversa fiada de superdotado que, na verdade, era… Pô, a gente sabia tocar, mas não tinha nada mais que isso. A gente ia normal no colégio. E tinha um negócio dos meninos que decoravam. Eu me lembro que havia um que aparecia na televisão direto – eu até o conheci na época, fiquei emocionado. [risos] Ele decorava as capitais de todos os países do mundo. Geniozinho, assim, sabe? [risos] Esqueci o nome dele. E fomos a um programa com esse menino, só que a gente na música. O máximo que aconteceu foi isso.
Almeida – Você falou que expressou seu interesse pela música cantando. Você nunca mais seguiu o canto?
Hamilton – Sabe que não, Daniel. Engraçado… É mesmo? Foi minha primeira manifestação musical, mas porque a primeira manifestação musical, geralmente, ou é o assobio, ou é a palma, ou é uma descoberta com o corpo. E aí, veio o instrumento e eu me encantei com o instrumento. Talvez se eu fosse cantor… Não sei qual estilo que ia rolar, não? [risos]
Cirino – Hamilton, o bandolim é a extensão do seu corpo?
Hamilton – Totalmente.
Cirino – Você falou uma coisa que fiquei pensando aqui, do lance da performance, do ao vivo, e falamos também da gravação. Quando você sente uma resposta da platéia mais calorosa, o show fica mais legal?
Hamilton – Com certeza. O público faz o show.
Cirino – O público faz o show, o retorno?
Hamilton – Claro, claro. Demais… É uma troca, né? É uma coisa de astral no palco, que o artista tem um limite de contagiar uma quantidade de pessoas. Mas se tiver uma quantidade muito grande de pessoas fechada para aquilo, fica difícil. Mas acho que normalmente o público tem uma predisposição, já que está ali sentado pra ver um show, pra participar emocionalmente do show. Já tive vários shows em que o público era frio e o show foi Brasil 1 a 0, entendeu? [risos] A gente dá o máximo, aí, o público também pode até estar dando o máximo naquele momento, mas também é uma questão de dia, só que aí que vêm o ensaio e o respeito ao público, também. Você tem que estar sempre preparado para fazer o melhor, mesmo que tenha uma só pessoa para assistir. Eu penso assim. Já fiz alguns shows na minha vida para uma platéia pequena, para platéia grande, e sempre procuro dar o máximo, ali, naquele momento. Porque se uma pessoa saiu de casa pra assistir ao show, pagou o ingresso, acho que tem que se ter pelo menos respeito por aquela pessoa. Aí, vêm os ensaios, a preparação do show. A parte de show tem que estar perfeita. Aí, a emoção, o dia, a hora, o público, e eu mesmo, isso é o que vai fazer acontecer.
Dafne Sampaio – Como você sentia o público quando, ainda criança, você tocava? Óbvio que você não racionalizava desse jeito.
Hamilton – Eu nem olhava pro público. Como é seu nome, velho?
Sampaio – Dafne.
Hamilton – Dafne, eu nem olhava para o público, porque eu tinha medo, mas, ao mesmo tempo, eu sentia que tocar causava uma alegria e uma emoção tão grande nas pessoas, que, aí, veio o lado de querer melhorar, aprimorar. Mas tudo isso sentindo, eu não tinha consciência, era coisa de sentir, mesmo. Às vezes, dava uma notinha diferente ou fazia uma coisa mais rapidinha e via a reação imediata das pessoas. Eu olhava muito para o instrumento, ou então, olhava para o vazio… Eu sei porque já vi uns vídeos. E, em alguns momentos, eu olhava assim… Então, analisando, era estar sentindo que eu tinha música, naquele momento, pra tocar as pessoas e, ao mesmo tempo, sem saber que eu estava fazendo aquilo. E é legal quando tomamos consciência disso. [ri]
Tacioli – Houve um momento que você conseguiu vencer essa barreira?
Sampaio – Que você sentiu o domínio sobre a platéia?
Hamilton – Várias vezes.
Tacioli – Mas, que momento que marcou esse… Sei lá, “Se eu faço aqui um trêmulo de cinco minutos…”
Hamilton – Em alguns shows, até pequenos. Hoje eu me lembro, mas na época, era de sentir. Hoje me lembro que havia momentos em que o ambiente estava tão propício que me deixava fazer coisas que eu só faço em casa, sozinho comigo. Aquela coisa, há uma censura que a gente tem, pessoal, músico, que hoje em dia eu já não tenho tanto. Eu já me permito fazer um monte de coisa musical que antigamente eu não me permitia. Isso é um processo de amadurecimento pessoal, sabe, Ricardo. Pelo menos pra mim foi assim. E, daqueles momentos que qualquer coisa que a gente fala, neguinho ri. Têm esses momentos. E eu procuro não aproveitar muito esses momentos. Não usar muito pra falar qualquer coisa, mas, se eu for falar, procuro passar mensagens boas relacionadas ou à minha música, ou à musica de outras pessoas, ou fazer agradecimentos. Por exemplo, esse disco é um momento desses, em que estou num momento especial, tenho com um público grande, e que eu posso usar disso para fazer um agradecimento aos meus quatro mestres do bandolim. O disco é um exemplo disso.

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