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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 3/20

No dia em que eu achar que sei tudo, eu morro

Seabra – Quando você falou do limite ser o que o instrumentista consegue tocar, você lembra que música foi difícil de sair?
Hamilton – Lembro. Houve algumas, não foi só uma, não. “Desvairado”, do Garoto, que tirei em 86, 87, eu tinha uns 13, 14 anos. Tocava lenta, mas limpinha. “O vôo da mosca”. [n.e. De Jacob do Bandolim, gravada originalmente no LP Primas e bordões, RCA Victor, 1962, e revista por Hamilton em Dois de ouro, Pau Brasil, 2000 ] O desafio que meu professor particular, Everaldo, me passou foi o “Moto perpétuo”, do Paganini. [n.e. O violinista virtuoso e compositor italiano Nicolo Paganini, 1782-1840] Estudei pra caramba. Houve algumas músicas assim. Eu não estudava técnica de escala, mas estudava umas músicas cabeludas. E sempre buscando mais. E eu sempre achei, e acho até hoje, que sempre tenho mais coisa pra aprender. Eu criava uma meta: tenho que aprender essa música, porque parecia que era a coisa mais impossível que havia. Aí, eu aprendia e tinha a sensação de que eu tinha condições de aprender quaisquer músicas que eu quisesse, mas que eu nunca ia aprender tudo. É a mesma sensação que eu tenho hoje. E é esse meu combustível, entendeu? No dia em que eu achar que sei tudo, eu morro. Isso não existe!
Tacioli – Os desafios que seus professores lhe passavam eram sempre em partitura?
Hamilton – Ou não.
Tacioli – Mas eu queria saber se houve algum momento que marcou esses improvisos, essa liberdade de criação para interpretar. Houve esse momento?
Hamilton – Existiu. Mas começou lentamente, porque, como sempre toquei choro, e choro tem isso, então aprendi no comecinho, na linguagem do choro e… modestamente, desde pequenininho eu arriscava improvisos. Acho que foi meio como minha personalidade como pessoa. Eu, pequeno, fui tomando consciência do que era a vida, do que eu era, do que eram as pessoas, do que era a sociedade, e parece que foi com isso que essa parte de improvisos foi clareando na minha cabeça. Então, hoje, tenho total consciência de que eu posso improvisar a qualquer momento, qualquer música que me der na cabeça. Pode ser que não tenha um resultado melhor, depende do meu momento emocional naquele instante. É um risco que eu corro, mas prefiro correr esse risco e sair o mais emocionante, o mais lá do fundo possível, pra que as pessoas que estejam me vendo sejam tocadas. Na verdade, meu objetivo é esse, não toco só pra mim. Se eu tocasse só pra mim, eu ficaria em casa fazendo mil e uma piruetas, e feliz da vida. Mas eu não toco só pra mim. Tento mostrar isso, aí vem aquele lado da cena, da performance e que faz parte naturalmente, espontaneamente. São coisas que fui absorvendo dessa geração, mesmo essa onda do rock, de ser mais extrovertido, ter uma coisa mais pra fora, aí, entra tudo isso, a parte corporal, da fala, de saber falar, mesmo que mais ou menos, no microfone. Porque é esquisito, né? O cara faz um show do caralho e quando vai falar é mais ou menos. Então, essa coisa de aprender a falar meu pai também insistia. Sempre fui tímido, e até hoje não sou muito de falar, não gosto muito de falar, mas meu pai, desde que eu era moleque me incentivava, “Fala, fala”. E eu sempre falei um monte de merda, sempre errava, mas fui aprendendo assim.
Tacioli – Seu pai era um puta produtor, então?
Hamilton – Da pesada, maior do mundo. [risos]
Tacioli – Ter essa preocupação com você desde moleque…
Hamilton – Porque ele via e tinha esse desejo também, e via que eu e meu irmão tínhamos jeito pra coisa e pá. Com muito amor, né, bicho? Isso que é foda.
Seabra – São só vocês dois?
Hamilton – Só. Meu irmão tem 31 anos, são 5 anos e meio de diferença. Ele vai fazer 32 agora. Meu irmão também é uma história longa. Meu irmão é… A gente não precisa nem falar, se a gente fosse mudo, a gente se comunicava. Pra mim 26 anos, pra ele, 26 e nove meses, imagina o tempo de… Pô, neguinho mexe olhinho aqui, o outro já sabe o que está rolando. É meio que assim, ainda tem isso a mais pra me fortalecer musicalmente. Ele sempre foi meu violão, ele estava sempre comigo. Hoje mais ainda. Isso também foi uma força fudida.
Cirino – Ao vivo, um olha pro outro, e já sabe o que vai acontecer.
Hamilton – Já sabe. Hoje em dia a gente não toca tanto, porque a gente já tocou tanto na vida, que estamos curtindo outras coisas também. A gente curte tocar nos ensaios e nos shows. A gente já não toca tanto em casa como tocava antigamente. Porque a gente ensaia muito, faz muito show e em casa não rola muito. Mas, em compensação, outros lances a gente vai vivendo mais, entendeu?

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