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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 2/20

Tenho a sensação de que estou fora do meu corpo me vendo tocar

Seabra – Desde menino existia esse prazer nas horas de estudo. Isso vem de um pai que, imagino, não colocava esse estudo de uma forma rígida. Na hora de dormir, em vez de contar uma história, ele tocava uma música? Como era isso? Como nasceu esse prazer?
Hamilton –
 Não sei, Sérgio. Já pensei muito sobre isso, sobre como surgiram o prazer, o amor e o gosto pela música em minha vida. E isso é um pensamento e é um dilema diário, ou quase diário, porque penso nisso constantemente. Se é uma vocação, se é uma coisa que aprendi a gostar. Aprendi a tocar antes de ler e escrever. Então, a música já está na minha vida há muito tempo. Já misturou, já é tudo. Depois que fiquei mais velho, virou trabalho, então, envolve dinheiro também. É tudo, é religião…
Seabra – Seu pai era rígido?
Hamilton – Muito! Meu pai é militar, pô! [risos] É ótimo! A educação dentro da música precisa de uma rigidez, que é a disciplina do estudo, da dedicação ao instrumento. Porque o instrumento é o meio com que você consegue mostrar tudo que está dentro de você em forma de sentimento e em forma de música. E quanto mais você tiver intimidade com o instrumento, com mais facilidade você vai passar coisas para as pessoas que vão lhe assistir ou para o disco que você está gravando. Disso eu acho que sempre tive consciência, então sempre toquei muito. Meu estudo nunca foi um estudo formal, de ficar estudando escala 20 horas por dia, não. Sempre gostei de estudar músicas. Hoje, por exemplo, meu prazer de ficar estudando é começar a tocar e parar não-sei-onde. Eu paro em alguma música e fico tocando. Hoje já consegui atingir um nível, comigo mesmo, tão alto que às vezes tenho a sensação de que estou fora do meu corpo me vendo tocar. Porque a intimidade chega num ponto tão extremo que não sinto mais tocar, eu não sinto mais fisicamente, só sinto na alma, mesmo. Aí, parece que não sou eu que está tocando, eu estou vendo, de tanto ficar tocando, estudando, mas com a formalidade e a disciplina que meu pai me ensinou, de horário, de tudo. Só que hoje mais aberto, porque eu vi que o importante, naquele momento, foi estar concentrado, quantas horas fossem precisas, quantos dias…
Tacioli – Essa rigidez era somente no método de estudo ou havia uns limites do que tocar…
Hamilton – Não. Meu pai nunca impôs limites no que tocar. Era mais o meu limite, pessoal, e do meu irmão também – porque meu irmão sempre esteve comigo. Nosso limite, como músicos executantes, não como escolher música, muito pelo contrário. Tanto que eu já tive banda de rock em Brasília. Já tive um banda com uns amigos do colégio, que tocava Djavan, que só tocava músicas que não tinham nada a ver com choro. E isso aí sempre foi uma constante e hoje ainda é. Gosto de vários tipos de música.
Tacioli – O que você tocava nessa época da banda de rock?
Hamilton – Baixo.
Tacioli – Qual era o nome da banda?
Hamilton – Os Entregadores de Pizza. [risos] Pode ser qualquer nome, o importante era estar lá tocando, curtindo. Eu era moleque, tinha 13 anos, moleque pra caralho, e totalmente influenciado pela geração do rock dos anos 80, do rock de Brasília, Capital Inicial, Legião Urbana, Paralamas, Plebe Rude, Detrito Federal.
Tacioli – Você ouvia bastante esse tipo de música?
Hamilton – Não ouvia bastante, mas na época em que comecei a tocar eu ouvi muito. Nunca fui de ouvir muito rock, mas sempre ouvi, sempre. Eu acho que faz parte do meu universo musical e faz parte da minha geração, também. Então, não posso tapar meus olhos. Pelo contrário, eu curto. Tem hora de curtir.
Tacioli – Nessa época de moleque, na hora de comprar discos, que opções você fazia?
Hamilton – Cindy Lauper [risos], RPM, Jacob do Bandolim, claro, Legião Urbana. Nessa época de 13, 14 anos, eram esses discos. E sempre comprando Jacob, Pixinguinha. Houve uma época em que eu fiquei vidrado, ouvia obsessivamente, João Gilberto. Dormia ouvindo. Tem fases da minha vida, e cada fase era uma compra de disco. Na época em que lançaram o CD no Brasil, no começo de 90, 91, foi por aí, não foi? Foi o primeiro CD que eu comprei, aquele João [Polygram, 1991], do João Gilberto. A primeira faixa… [canta “Eu sambo mesmo”, de Janet de Almeida] Então, o João, também, é influência do meu pai, porque ele é louco por bossa nova.
Tacioli – Seu pai tem quantos anos?
Hamilton – Hoje ele tem 66. Quando eu nasci, meu pai tinha 40 anos, então, ele é de uma geração completamente diferente da minha. Isso faz parte também do meu dia a dia, de conviver com pessoas de várias gerações, da minha idade, senhor, menino. Que é uma coisa que a música tem, que é juntar as gerações.

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