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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 1/20

A música não é o que está no papel!

[Enquanto Tacioli ajeita o equipamento de gravação]
Sérgio Seabra – Você vai fazer o Altas Horas também? [n.e. Programa da TV Globo apresentado por Serginho Groisman]
Hamilton de Holanda – Não, ainda não, mas podemos fazer. Até a band-leader do conjunto do Altas Horas é a Daniela Spielmann, do Rabo de Lagartixa. Ela está totalmente por dentro da linguagem.
Ricardo Tacioli – Beleza. Pode começar, minha gente. Gravando.
Sérgio Seabra – O disco foi gravado ao vivo?
Hamilton de Holanda – Foi gravado ao vivo.
Giovani Cirino – Assim que é legal, né?
Hamilton – É. Ou grava ao vivo ou faz ao vivo, logo.
Cirino – Todo mundo junto tem uma energia mais bacana, né?
Hamilton – Artisticamente, funciona muito mais.
Cirino – Essas gravações em pista ficam sempre diferentes.
Hamilton – É.
Tacioli – Vamos lá? Está tudo O.K.!
Hamilton – Tudo acontecendo aí?
Daniel Almeida – Hamilton, estávamos vindo no carro e falando que sempre perguntamos da infância dos entrevistados. E você toca desde muito criança. Fala como é, você, criancinha, já ter um caminho a seguir.
Hamilton – É… Tem duas fases da minha vida em relação à música. Uma infância, que foi totalmente de absorver as coisas e sentir, somente. Consciência zero.
Almeida – Você não racionalizava.
Hamilton – Absolutamente nada. Aí, depois, quando comecei a tomar consciência do que era a música pra mim, entrei nesse outro lado. Mas vamos falar primeiro do lado da infância. Eu tenho a sorte de ter nascido numa família musical, primeira coisa. Desde muito pequeno, antes de fazer qualquer outra coisa, acho meu pai já me colocava para ouvir música. Tanto na barriga da minha mãe, quanto depois quando nasci. Ele gostava muito de música. Então, mesmo que não quisesse, pegava por osmose. Ele sempre foi muito vidrado, porque o pai dele também foi músico. Era maestro de banda do interior, numa cidade em Pernambuco chamada Moreno e teve um outro filho que também tocava bem um outro instrumento, que era o saxofone. Esse tio morreu cedo, nem o conheci. Meu pai, às vezes, fala que eu nasci, que eu sou ele… Meu pai fala isso, sei lá. Aí, a música mesmo começou quando eu era muito pequenininho. Eu sempre ouvia, sempre gostava e quando eu tinha de três para quatro anos gostava de cantar, também. Meu pai me ensinou duas músicas. Uma era, “Ô, coisinha, tão bonitinha do pai…”, do Jorge Aragão, gravada pela Beth [Carvalho], acho que em 79, eu tinha três anos. [n.e. De Jorge Aragão, Almir e Luis Carlos, “Coisinha do pai” foi gravada originalmente por Beth Carvalho no LP No pagode, RCA Victor, 1979. Em 1997, a engenheira brasileira da Nasa, Jacqueline Lyra, programou essa gravação para ativar o robô da sonda espacial Sojounerum, em Marte] E a música do meu time, “Flamengo joga amanhã / Eu vou pra lá / Vai haver mais um baile / no Maracanã…”. [n.e. “Samba rubro-negro”, composto por Wilson Batista, 1913-1968, em parceria com Jorge de Castro, e regravado por João Nogueira no disco Clube do samba, Polydor, 1979] Me ensinou esses dois sambas. Tem até gravação d’eu, pequenininho, cantando. E ele viu que eu tinha talento e facilidade, cantava afinadinho e no ritmo. Aí me deu um “Heringzinho”, daqueles com as teclinhas coloridas, aquela cornetazinha. Aí, tudo que era em sol maior saía, era uma escala só. [ri] Aí, ele deu uma escaleta, um pianinho de boca. Só que eu era muito pequenininho e não conseguia tocar muitas músicas, porque eu não tinha fôlego. Meu avô, vendo isso – meu outro avô, materno, que me deu o nome, que é Hamilton de Holanda Vasconcelos; o meu é Neto –, me deu um bandolim, meu primeiro bandolim, no Natal de 81. Eu ainda não tinha completado seis anos, tinha cinco anos. Aí, comecei a história com o bandolim. Meu primeiro professor foi meu pai, também, porque a paciência dele vocês não imaginam. Ele botava um chorinho na radiola, com a agulhazinha, aí, primeira parte, pá, voltava quantas vezes fosse preciso, até eu tirar. Aí, a segunda, terceira. Essa foi minha primeira aula de música, e eu tirava de ouvido. Com o tempo, fui pegando facilidade nisso e meu pai me colocou, junto com meu irmão, na Escola de Música de Brasília. Começamos, daí, o Dois de Ouro. A música na infância era o seguinte: até sete da noite, rua, brincando. Depois das sete, subir para ensaiar. Eu morava na 206 Sul, de Brasília, depois mudamos para a 103, que é a quadra onde meu pai ainda mora, hoje. E era até às sete da noite brincando e tal, dava sete, sete e meia, subir para ensaiar. Todo dia, direto. Fim de semana era roda de choro, tocar em casa com meu irmão, com meu pai. Então, foi sempre música o dia inteiro.
Almeida – Hamilton, e com esse avô paterno você teve contato?
Hamilton – Tive um contato com esse avô paterno aqui em São Paulo. Ele morou aqui. Ele se separou da minha avó e veio pra São Paulo. Aí, acho que em 90, eu tinha uns 13, 14 anos, conheci meu avô, e depois não tive mais contato, porque essa coisa de morar longe… Depois eu vim de novo pra São Paulo, deixa eu me lembrar… É, foi só uma vez, só. Fiquei muito emocionado, ele ficou demais, porque ele nem conhecia o neto, e esse lance da música, a gente está continuando uma história dele. Depois ele faleceu… Mas ele me deu uma herança impagável.
Almeida – Mas foi um contato musical?
Hamilton – Nem! Não, contato só de família, mesmo. De avô, entendeu? “Ó, ele é seu avô, você vai conhecê-lo”. Não tinha nada musical nesse momento. Foi totalmente familiar, aquele carinho de família, sem nada ligado à música. O que tinha pra ser dado, ele já tinha dado. Então, minha história musical é totalmente ligada à minha família.
Almeida – Hamilton, e esses ensaios a partir das sete da noite nunca foram uma outra lição, como tinha a lição da escola?
Hamilton – Mais ou menos, né?
Almeida – Deixar de jogar bola pra…
Hamilton – Não, não, nesse sentido, não! Eu digo mais ou menos, porque foi uma lição pra minha vida. Mas… nunca reclamei de ter que ensaiar. Quero dizer, uma vez ou outra, mas é o que até hoje eu reclamo. “Puta, tenho que tocar!”, entendeu? [risos] Normal, tem dia que você está a fim de fazer qualquer coisa, menos tocar. Tem dia que é assim. Hoje em dia quase nunca, mas tem momentos, por exemplo, quando tem uma bateria muito grande de shows e tocando demais o tempo inteiro e repetindo certas coisas, dá vontade ou de dar um time de tocar, ou de começar a estudar e ouvir outras coisas. A cabeça não pára e a música não pode parar. Quando pequeno também, então, nunca reclamei, não. Como é seu nome mesmo?
Almeida – Daniel.
Hamilton – Viu, Daniel? De pequeno nunca reclamei. Já reclamei uma vez pro meu pai, porque eu estudava numa escola de música, tinha um professor particular que ensinava música, também, ensaiava, ainda tocava no fim de semana. Ou era roda de choro, ou show já, desde pequenininho. Aí, tinha hora que eu reclamava, que eu não queria ir para a Escola de Música. Às vezes, eu matava aula dentro da própria Escola de Música pra jogar baralho. [risos] Ou, então, para ir para outro lugar pra ficar estudando uma outra coisa, porque já estava de saco cheio da aula. Na Escola de Música não tinha bandolim. Eu tinha que estudar violino, que era o instrumento mais próximo. E, aí, estudando violino, às vezes, eu não ficava afim. Mas, assim, raramente. São episódios raros, mas que existiram.
Cirino – Isso já na Escola de Música de Brasília?
Hamilton – Já na Escola de Música de Brasília. Na Escola, a partir de 83. Então, desde cedo tive o ensino formal e o informal de música. Tanto tirando de ouvido, como lendo partitura, como teoria, como putaria, acompanhar bêbado em boteco. Tudo isso já rolou.
Tacioli – Essa coisa de aprender de ouvido e depois partir para o lado teórico, de ler partitura…
Hamilton – Sempre tive um bloqueiozinho pra ler. Até hoje eu não leio muito bem. Meu ouvido ainda é bem melhor.
Tacioli – É?
Hamilton – É, porque quando a gente desenvolve muito o ouvido, aí quando você lê… por exemplo, você vai ler uma partitura pela primeira vez, chega na segunda a cabeça já começa a decorar, aí você não está mais lendo. Aí, já não é mais leitura. Então, não desenvolvi a leitura assim, mas desenvolvi a escrita. Estudei composição, terminei meu curso compondo pra bandolim e orquestra, concerto. Mas o que é mais forte é o ouvido, porque a música está aqui, o papel é para registrar um momento. Tem até detalhes de escrita que o cara consegue escrever exatamente o que ele quer ouvir. Mas, se fosse assim, todos os intérpretes de música erudita seriam iguais, mas nem eles, que respeitam uma coisa tradicional e respeitam profundamente o compositor, o que está escrito, nem eles tocam igual. Então, a música não é o que está no papel, a música é o que a gente ouve, a gente faz, o que está no ar, e o papel é um instrumento importante para o registro, não para a execução.

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