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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 17/20

Todos têm que respeitar o Rio. Foi lá que o choro nasceu

Tacioli – Hamilton, você vê uma característica do choro produzido em Brasília? Ele é diferente do choro de outros centros?
Hamilton – Bicho, Brasília é a melhor cidade do mundo. Primeira coisa! [risos] Respondi à sua pergunta. Tudo o que você perguntar pra mim de Brasília, ou tudo o que vocês falarem… No dia em que vocês tiverem a oportunidade de viver as coisas boas de Brasília, vocês vão me dar razão. Talvez, vocês não tenham essa oportunidade, ou nem queiram, mas é uma cidade que tem uma energia, um astral pra arte muito forte. Aí, vem aquelas brincadeiras: “Claro, em Brasília não tem nada para fazer!” Mas é isso mesmo! É o nada pra fazer que faz a gente produzir.
Tacioli – É o ócio criativo!
Hamilton – Exatamente, é o ócio criativo. E aí, o choro está inserido nesse contexto de Brasília. Ela herdou do Rio de Janeiro a coisa de ser capital. Herdou o choro do Rio. Também herdou o cosmopolitismo do Rio e de São Paulo. Então, Brasília é uma mistura disso tudo. A diferença é que estamos fazendo a história agora. Brasília não tem uma história. Tem 42 anos de idade. E com o choro é a mesma coisa. Ele tem uma cara, tem uma herança forte do Rio, por ser berço, e acho que atualmente está desenvolvendo uma linguagem específica e que parte desse chorinho universal. Brasília tem essa onda de abraçar outros estilos.
Tacioli – Você não acha que o choro de Brasília e o de outros lugares têm que ser legitimado pelos chorões e pelo público do Rio de Janeiro para ser reconhecido nacionalmente?
Hamilton – Já está legitimado, se o problema for esse. Eu acho que todos os Estados têm que respeitar o Rio, porque foi lá onde o choro nasceu. E Brasília faz isso. E tem mais: Brasília herdou tudo do Rio. Isso é muito forte. Capital administrativa de um país. Aí, vem o lado obscuro da política, que é o que as pessoas mais vêem. Por quê? Porque ninguém está lá. É igual você falar que São Paulo é somente trânsito ruim. É você minimizar uma coisa que é muito maior. “Ah! Bicho, não vou pra São Paulo. Aquele trânsito chato pra caralho!” É burrice da minha parte falar isso. E acho que, com relação a Brasília, as pessoas caem nesse mesmo erro. Por quê? Não por sacanagem, ou por vacilo, mas talvez por não ter tido a oportunidade de conhecer as coisas boas da cidade. Uma delas é o ócio. Trânsito tranqüilo. O céu daquela cidade tem uma coisa de… Acho que Brasília tem esse lado legal. Tem umas coisas ruins também, como em qualquer outra cidade.
Tacioli – Se houvesse alguma Rádio Nacional para potencializar isso, seria melhor ainda, não?
Hamilton – E vai ter. Já tem a TV Senado.
Tacioli – Você é um otimista.
Hamilton – Não, não sou otimista, não, bicho. Sou realista. Já tem a TV Senado e a TV Câmara. Sou conhecido no Brasil inteiro por causa de uma televisão desse tamanhozinho, que tem um Ibope de merda. Então, começa por aí. Só acho que a gente tem que ser realista e trabalhar com o que tem, né?
Seabra – Beth Carvalho disse que te viu pela primeira vez na TV Senado, né?
Hamilton – E a gente realizou um sonho. Na semana passada gravamos um programa com o Dois de Ouro e a Beth Carvalho, lá em Brasília, na TV Senado.
Tacioli – Essas apresentações no Clube do Choro de Brasília são todas gravadas?
Hamilton – Todas, todas. Tem um acervo da pesada.
Tacioli – E desde quando começou a ser transmitido?
Hamilton – Ricardo, acho que há uns três, quatro anos. Quando a TV começou, uma ala ligada a essa parte artística sempre filmava shows de artistas de Brasília e de fora. E aí começou essa tradição. Às vezes, neguinho no domingão à tarde, de saco cheio de ver os programas, vai dar uma relaxada e bate na TV Senado ou TV Com.
Tacioli – Hamilton, que diálogo você tem com o choro de São Paulo?
Hamilton – O diálogo que tenho é com o Luizinho 7 Cordas e com o Miltinho, que são as pessoas com as quais sou mais ligado. Com o Arnaldinho também. São as figuras com as quais tenho mais contato. E, indiretamente, com o Izaías, por conhecer seu trabalho. Não tenho contato com ele diretamente – coisas da vida, mesmo. Já fiz show com o Luizinho e com o Miltinho. Eles já foram a Brasília também. Já fiz até um show da Beth em que o Luizinho estava no sete [cordas]. E não tenho mais contato por coisas da vida, mesmo. Assim, como não tenho com muita gente do Rio, como não tenho com muita gente do Nordeste. Uma porque viajo muito, entendeu? Sinto falta dessa aproximação. Por exemplo, estou aqui, agora, e não vai dar tempo de encontrar com ele hoje. Da outra vez que eu vim a São Paulo foi a mesma coisa. Fui para o Rio e não deu para encontrar com muita gente. Mas é opção, é a vida.

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