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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 16/20

Busco a rítmica e a temática brasileiras com a fluência jazzística

Euclides – Hamilton, no Brasil temos grandes instrumentistas e virtuosos de todos os instrumentos. Já com improvisadores, a história é um pouco diferente. Dois improvisadores me vêm à cabeça: Hélio Delmiro e Romero Lubambo. São caras que improvisam bem, mas estão muito ligados a uma linguagem jazzística da improvisação. Vejo em você a mesma pegada que curto no Armandinho. Você acha que existe essa linha de improvisação com o fraseado brasileiro?
Hamilton – Essa semana estava lá em Brasília o Heraldo do Monte.
Euclides – Heraldo do Monte! Então, você tem isso na sua cabeça?
Hamilton – Tenho.
Euclides – Uma coisa é você improvisar bem jazzisticamente, com o método e o fraseado do jazz. Agora, improvisar com a rítmica brasileira é diferente.
Hamilton – Eu, particularmente, Euclides, busco a linguagem, a rítmica e a temática brasileiras, com a fluência do fraseado jazzístico. Bicho, os caras são fodas. Eles desenvolveram uma fluência de fraseado em que podem ficar dias e dias improvisando em qualquer harmonia. Para isso temos que tirar o chapéu. Então, procuro aprender essa fluência com eles.
Euclides – Mas é mais difícil, né?
Hamilton – É mais difícil, só que aplicando os ritmos, as frases e as coisas brasileiras.
Euclides – A música brasileira, como o choro, não foi feita para ser improvisada.
Hamilton – Não foi.
Euclides – No máximo, o sete cordas improvisa a baixaria.
Hamilton – Na verdade, o choro não foi feito para improvisar como o jazz, mas sim um improviso de mudar um ornamento. Improviso mais simples e menos de frase.
Euclides – Mas mudando a melodia…
Hamilton – Exatamente. Eu, particularmente, busco isso.
Euclides – Quais são os caras que você curte na improvisação brasileira? Você já falou do Heraldo do Monte.
Hamilton – Bicho, tem vários. Um que me vem à cabeça rápido é o Hélio [Delmiro]. E mais ainda, agora, é o Lula Galvão. Ele é um dos maiores do mundo. Sem falar no Hermeto [Pascoal]. O Hermeto atingiu uma linguagem transcendental. Adoro Hermeto. Uma linguagem brasileira. Adoro Keith Jarret, por exemplo.
Euclides – Você estudou improvisação jazzística?
Hamilton – Nunca fui de pegar. Já li algumas coisas, mas nunca tive aula formal. Gosto muito de ouvir. As coisas que eu mais aprendi foram ouvindo, mais do que lendo ou estudando. Ouvidão mesmo!
Euclides – Toquei com um cara que toca com você, o Daniel, de Campinas.
Hamilton – Daniel Santiago?
Euclides – Isso.
Hamilton – O Daniel tem uma linguagem de improviso fudida.
Euclides – Tem toda essa informação do jazz. É essa fluência de que você fala?
Hamilton – É, a fluência. É isso que acho que é do caralho no jazz. Por exemplo: a música cubana também assimilou isso. Gonzalo Rubalcaba. Um pianista que está fora dos padrões normais.
Euclides – Chucho Valdés também.
Hamilton – Chucho Valdés. Ele tem a fluência do jazz, só que na linguagem cubana. E se botar um jazz, ele come com farinha. Acho que o ideal é isso, é você dominar as linguagens, porque aí você pode fazer o que quiser. É difícil de se chegar a esse ponto. Imagina, a fluência do jazz com o ritmo e a malemolência da música brasileira. Aí, não tem jeito, fica foda.

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