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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 15/20

Jacob é ídolo de todos os bandolinistas do mundo

Tacioli – O bandolim na França…
Hamilton – Não tem tradição nenhuma.
Euclides – Portugal, talvez.
Tacioli – Itália.
Hamilton – Itália, Alemanha.
Euclides – É?
Hamilton – Na Alemanha, eu tive uma surpresa muito boa e emocionante. Tenho um amigo bandolinista venezuelano que mora em Paris. Não sei, acho que nasceu em Paris e depois foi para a Venezuela. Ele é franco-venezuelano, um cara que conhece bandolinistas do mundo inteiro. E toca bem pra caramba. Ele me apresentou um antigo compositor italiano – que já morreu – tocado por uma alemã. Mermão, pirei! “Caralho!” Eu, crente que estava fazendo umas coisas novas… [risos] Eu me lembro… Botei a poltroninha em frente ao som, e fiquei lá, um dia inteiro ouvindo. Um desenvolvimento de técnica que nunca tinha visto, nunca tinha ouvido na minha vida. Depois comecei a ouvir mais profundamente e analisar que, musicalmente… “Não é assim também!” Fui vendo que o que a gente tem aqui é bom pra caralho. Esse compositor chama-se Raffaele Calace [n.e. 1863-1934], e a mulher que ouvi é a Gertrud Tröster. [n.e.Bandolinista alemã nascida em 1966 que integra desde 1988, ao lado do violonista Michael Tröster, o Duo Capriccioso] Acho que ela vai estar nesse festival em que vou tocar.
Euclides – E é o mesmo instrumento?
Hamilton – Igualzinho, bicho. Fiquei de cara! Falei, “Vou ter que tirar uma dessas daqui!” Aí, esse meu amigo me deu o CD e as partituras. [ri] Tirei logo uma e, meio que de desafio, deixei outra para tirar na última hora, só pra ver se eu ia agüentar o tranco. E como eu estava muito bem preparado, agüentei e foi o último concerto que fiz lá. Foi a última música que toquei, que é o “Prelude”, do Calace. Tecnicamente, uma música dificílima, mas não tem muita coisa musicalmente. Harmonia é simples, antiga e tal. Eu precisava tocar aquilo ali pra ver se eu estava mesmo preparado, se eu tinha estudado pra caralho, se estava valendo a pena. A música erudita está sempre uns cem anos à frente da música popular.
Euclides – E como eles tocam bandolim? Acompanhados por orquestra ou por um quarteto de cordas?
Hamilton – Há algumas formações, Euclides.
Tacioli – Existem orquestras de bandolim, não?
Hamilton – Há orquestras de bandolim, orquestra de cordas que acompanha. Há vários quartetos de bandolim com arranjos da pesada. Tem coisas bacanas. E bandolim-solo. Esse [“Prelude”, do Calace] é de bandolim-solo. Escroto! Escroto mesmo!
Euclides – O repertório é mais clássico?
Hamilton – O repertório é mais clássico. Tem o popular da Itália. A Itália é muito forte. E a Córsega, que é onde vai se realizar esse festival, é meio Itália, meio França. Então, lá tem uma tradição de bandolim fudida. E existem alguns países assim. Na Grécia também tem bandolim. Fui a uma feira de instrumentos e de tudo que tinha a ver com música em Frankfurt. Cinco estandes gigantescos, de tudo que você imaginar. Piano, sanfona, microfone, violão. Aí, tinha um pedaço com vários bandolins. Pô, tem bandolim em uma porrada de lugar do mundo que eu não sabia.
Tacioli – Você chegou a comprar algum?
Hamilton – Não, porque o nosso instrumento é que é o bom. O nosso já atingiu um equilíbrio de grave e de agudo que eu não vi em nenhum outro lugar. E o bandolim do Brasil realmente tem uma história e uma escola muito admiradas no mundo todo. O Jacob é ídolo de todos os bandolinistas do mundo.
Tacioli – Nessas feiras você chegou a encontrar discos e publicações voltadas para o bandolim?
Hamilton – Vi, mas mais para violão do que para bandolim. Até vi do Marco Pereira, e um monte de coisa. De bandolim não vi muito, não. O bandolim é um instrumento que está se popularizando mais agora. Ele nasceu popular, porque foi um instrumento criado para as mulheres. Aquele bojinho era justamente para encaixar na parte debaixo dos seios. A mulher ainda não cantava nos corais de igreja. Era proibido. A mulher começou a tocar bandolim no final da Renascença e começo do período barroco. Ele nasceu popular, mas hoje não é um instrumento tão popular. Agora, ele está se popularizando, inclusive, mais na Europa.
Euclides – Na Europa até com mais facilidade porque ele tem a mesma afinação do violino. E muito violinista deve dar uma palhinha.
Hamilton – É verdade.
Tacioli – Sobre essa popularização do bandolim, você acha que grupos como o Legião Urbana, a Zélia Duncan, que se arriscam…
Hamilton – Ela faz uns acordes.
Tacioli – Você acha que essa inserção na música pop pode contribuir para a popularização do bandolim?
Hamilton – Claro. A bandolim tem um histórico no rock and roll, né? O Led Zepellin, Jethro Tull, os conjuntos mais antigos, aqueles da década de 70, já mandavam o pau no bandolim. É importante, sim. É um dos meios, porque o rock é uma música muito popular. É isso aí mesmo, tem que ir pra tudo quanto é lado.
Tacioli – Você participou do disco da Zélia Duncan?
Hamilton – Não, gravamos uma faixa no disco do Braguinha. Eu, o Marco [Pereira] e ela. “Aqueles olhos verdes”. É uma versão. Um boleraço. [canta a melodia] A letra em português é do Braguinha.
Tacioli – Foi lançado pelo Chediak, né?
Hamilton – Foi. Se não me engano, foi até o último songbook que saiu. [n.e. Lançado em 2002 pela Lumiar Discos & Editora, Songbook Braguinha contém 60 partituras com fotos]

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