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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 14/20

Eu nadava o dia todo em Paris

Almeida – Hamilton, como foi sua chegada a Paris?
Hamilton – A chegada foi engraçada! Eu tinha tocado lá no ano passado e conheci umas pessoas. E aí, quando saí daqui, liguei e falei que iria para lá. Só que, na correria, acabei não encontrando logo de cara o pessoal. Por um coincidência, estava indo um maluco daqui de São Paulo pra lá, sentado ao meu lado, no avião. Ia na loucura para trabalhar, mas não sabia para onde ia. Ele falava, “Tal dia vou para Portugal!” Então, falei, “Fica em casa!” Eu sabia que lá tinha lugar para dormir. Cheguei assim, com um maluco do Brasil. [risos]
Seabra – Um maluco de sorte. [risos]
Hamilton – Ele ficou uns dois, três dias em casa e foi para Portugal. Depois, voltou. Como estava com saudades do filho, acabou retornando ao Brasil. Eu me encontrei de novo com ele em Paris. Mas cheguei assim, sozinho. Liguei para uns dois caras de lá, encontrei com um desses que eu tinha conhecido da outra vez e fui para o dia a dia. Supermercado e essas coisas. Botava o meu lencinho na cabeça, minha bandana, e saía pela rua. Aprender a falar, aprender a ver as coisas, o mau humor dos caras… Viver o dia a dia mesmo, sabe, Daniel?
Almeida – Daí até se apresentar como artista e conhecer outros músicos foi natural?
Hamilton – Foi natural. Coincidência ou não, encontrei com o Márcio Faraco, um cantor e compositor brasileiro dono de um trabalho muito bonito. Ele faz um sucesso fudido na França. Morou em Brasília durante muito tempo. E aí, umas duas, três semanas depois que cheguei lá, me encontrei com ele. Foi muito caloroso, me apresentou àlgumas pessoas. E a partir daí… Devagarinho. Um dia sim, um dia não, três dias ficava sozinho em casa, ouvindo, tocando, ou então, ia para a rua. Aí, como descobri uma piscina perto de casa, ficava nadando o dia todo. Essas coisas do cotidiano. Entrei no dia a dia gostoso e, pô, tanto que quando voltei, deu aquela sensação de missão cumprida, a primeira parte. Vivi direito, vivi as coisas bem, profundamente. É uma avalanche de pensamentos quando estamos sozinhos. [ri] Isso é o mais gostoso. Pensamos em tudo. A minha vida inteirinha passou ali durante aqueles quatro meses. Passou tudo pela cabeça, até a vida do meu pai, bicho. Parece regressão. E aí, estudando, tocando e descobrindo novas possibilidades de harmonia, porque o meu bandolim tem um grave a mais. Mandei fazer um bandolim com dez cordas.

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