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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 13/20

Quem supervaloriza a música brasileira no exterior é a imprensa

Tacioli – Que respostas você teve ao tocar na França e em outros países da Europa?
Hamilton – As melhores possíveis, Ricardo. Toquei em alguns lugares, sempre sozinho. Quero dizer, houve uma vez em que toquei em um festival de violão com um grupo de lá – eram dois franceses e um outro amigo da Venezuela. Foi ótimo! Mas a maioria dos shows fiz sozinho. A música brasileira é rei [sic] lá! É igual ao futebol.
Tacioli – Mas é mesmo assim?
Hamilton – É, é.
Tacioli – Você não questiona se há uma supervalorização – gerada até pelo próprio artista – dessa adoração da música brasileira no exterior?
Hamilton – Não existe. Antes, eu achava que sim. Achava a mesma coisa. Já tinha tocado fora e, por ter ido, tinha sentido um pouco isso. Mas, vivendo lá no dia a dia, muito pelo contrário, neguinho adora a música brasileira. E, na verdade, a supervalorização que se faz é por parte da imprensa, de botar assim “Não-sei-quem tocou em Paris”. Tudo bem, tocou em Paris, mas e daí?! Tocar em Paris é tão bom ou tão ruim quanto tocar em qualquer lugar do Brasil. O lance do tocar não faz tanta diferença, mas a manchete “Tocar em Paris” é do caralho. Só que o show pode ter sido uma merda. [ri] Mas lá vi na pele que neguinho é piradaço pela música brasileira, como é com o futebol.
Cirino – Isso tem a ver com a certeza que você tem de que a música brasileira é a melhor do mundo?
Hamilton – Tudo a ver, tudo a ver.
Cirino – Você tem agora um parâmetro comparativo de outras línguas.
Hamilton – De outras músicas. E não tem lugar mais cosmopolita que Paris. Talvez somente Nova York. Tem gente do mundo inteiro, alto nível, baixo nível. Vi um monte de coisa ruim, também. Baixo nível que tem toda a propaganda, mas na hora que você vai ouvir a música, nada acontece. No Brasil, também. Mas tem muita coisa boa. E vi que o bicho pega aqui, mesmo.
Cirino – E a imprensa de lá apoia a música instrumental brasileira?
Hamilton – Apoia. Cada música tem o seu espaço.
Tacioli – Nesses shows, como os com o quarteto, você tocou o quê?
Hamilton – “Fátima”, do Hermeto. [n.e. Gravada em Ao vivo em Montreux Jazz Festival, Atlantic/WEA, 1979] Você conhece? [canta a melodia] Toquei “Um a zero”, do Pixinguinha, “La catedral”, do Agustín Barrios, que é uma música erudita pra violão que toco em bandolim. No repertório-solo toco “Ponteio”, do Edu Lobo, “Odeon” e uma porção de músicas brasileiras. Com esse show-solo toquei onde moro. Lá tem uma tradição mais erudita. O teatro é na tora, sem som, acusticozão! Foi excelente. E agora quando voltar, vou participar de dois shows na Córsega. Um é um festival de violão [n.e. 13ª Nuits de la Guitare de Patrimonio] e o outro é um festival internacional de bandolim [n.e. Festival D’Ajaccio] com os melhores bandolinistas franceses. [n.e. O evento também contou com a presença do venezuelano Cristóbal Soto]
Almeida – Outros brasileiros vão estar nesse festival?
Hamilton – Sou o único brasileiro. Vou tocar no dia 26. Tem mais uma porção de outras coisas. Devagarinho, entendeu? No meu ritmo. Tô curtindo mais a onda de estar numa vida completamente diferente. Tô curtindo tudo! Até porque tem sido uma experiência muito foda, muito boa. Eu não esperava. Moro com os meus pais desde pequeno. Sempre morei com a minha família. E aí, mudei totalmente, todas as referências. Morar e cuidar de tudo sozinho. Claro que a minha situação não é igual a de um brasileiro que vai para lá procurar trabalho. Cheguei com uma situação privilegiada. Um lugar muito bom para morar, com grana. Só que para o meu referencial, foi uma mudança total! E sem falar francês. É isso que mais estou curtindo, entendeu? São essas novidades.

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