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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 12/20

É tentador cair na boêmia parisiense

Almeida – Você está morando em Paris. Como você se mudou para lá?
Hamilton – Ganhei um prêmio no fiml do ano passado, que paga uma bolsa mensal e me dá um ateliê para eu morar, para fazer o que eu quiser durante um ano.
Almeida – Deve ser bom.
Hamilton – Porra! [risos]
Tacioli – E que resultados você está colhendo?
Hamilton – Vários resultados musicais. Primeiro, desenvolvi um repertório-solo para o bandolim. Eu estava sozinho e tinha que tocar, tinha que produzir.
Almeida – Paga-se para produzir ou para você ir à aulas?
Hamilton – Faço o que eu quiser, porque eles não vinculam isso a nenhuma prestação de contas. Não preciso fazer curso, não preciso mandar nenhuma composição, não preciso fazer nada. Viver. É como se eles falassem, “Vá viver lá!”. A única obrigação que tenho é fazer um relatório, quando voltar, do que eu vivi lá.
Seabra – Um ano sabático.
Hamilton – É, um ano sabático, exatamente.
Almeida – Não tem que mostrar nenhuma produção? Se você quiser passar o ano enchendo a cara…
Hamilton – Está tudo certo. Só que eles sabem que neguinho não vai fazer isso. Chegar a Paris, naquela cultura louca, bicho… Até é tentador cair na boêmia, mas a boêmia também faz parte da música. Assim, junto logo tudo.
Tacioli – Há algum diálogo musical que você destaca?
Hamilton – Tem um brother venezuelano violinista.
Tacioli – Violinista?
Hamilton – É. Estamos fazendo um duo da pesada lá.
Tacioli – Quem é a figura?
Hamilton – Chama-se Alexis Cardenas. Ele tem a minha idade, quatro dias mais velho do que eu. Toca muito violino, pra caralho! Estamos começando a fazer uma onda que está ficando boa.
Seabra – Você havia falado do pianista cubano, depois do marroquino. São essas diferentes informações musicais que você está ouvindo?
Hamilton – São. E estou chegando à conclusão de que a música brasileira é a melhor do mundo.
Euclides – O Baden também morou no exterior. Ele falava que era legal pelo lado da saudade, de se repensar o Brasil. Isso ajudava em seu trabalho de composição artística. Já deu para você sentir esse tipo de coisa? A saudade interfere em sua criação musical?
Hamilton – Já deu, Euclides. Já deu, demais. Mais do que eu esperava. Porque o lance da saudade é uma constante de quem mora fora. Eu sei porque tive contato com vários brasileiros e tenho amigos brasileiros lá. Não sei se vocês já viveram fora do Brasil, mas a saudade daqui é uma constante.
Euclides – Isso interfere na escolha do som, do tipo de criação?
Hamilton – Interfere. Pra mim, interferiu totalmente, porque a partir desse momento passei a dar mais valor do que eu já dava às coisas daqui.
Euclides – Tem que ser mais brasileiro lá do que no Brasil.
Hamilton – É isso mesmo, sabia? Infelizmente, o ser humano é assim. A gente só dá valor quando começa a perder as coisas. Isso é natural do ser humano. Quando tomamos uma distância… Aí, temos a parcialidade para entender, para sentir as coisas. Estando lá fora, com esse sentimento em relação ao Brasil… Era produzindo diariamente, mas com uma saudade gostosa para não entrar em deprê, porque o caminho é fácil. [ri] Parece tudo bonito. Você chega a Paris, Torre Eiffel, Rio Sena. Mas no dia a dia, você vai ao supermercado, entendeu? É a mesma coisa, só que com dez graus, cinco graus, zero grau. E aqui é diferente.

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