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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 10/20

Sou um conservador em relação ao choro cantado

Tacioli – Hamilton, esse disco que você está lançando pela Velas é o primeiro solo. Musicalmente, que diferenças ele tem dos anteriores?
Hamilton – Eu acho que esse é o disco em que mais ouvi a opinião de outras pessoas, por incrível que pareça. Vi isso agora. Conversei com o Marco Pereira, com o meu irmão e com o Vitor [Martins], da Velas. Foram três pessoas com quem conversei muito. Com o Daniel Santiago, também. Então, foi um disco em que eu queria confirmar aquele momento musical. O que era o “momento musical”? Eu já havia gravado três discos com o Dois de Ouro, havia gravado um com o Brasília Brasil, e um com o Marco Pereira. E queria gravar o meu. Assim, durante um ano escolhi o repertório. Eu queria músicas brasileiras, choro ou não, mas que representassem a minha carreira como músico e como instrumentista. Daí, a homenagem aos bandolinistas. [n.e. O álbum é dedicado a Jacob do Bandolim, Luperce Miranda, Armandinho Macedo e Joel Nascimento]
Tacioli – E tem apenas uma música sua, né?
Hamilton – É um disco-solo mais de interpretação do que de composição. De composição quero fazer daqui uns dois, três anos, talvez. Mas nesse eu queria tocar músicas dos compositores brasileiros. Egberto, Jacob, Pixinguinha, Chico Buarque, Luiz Gonzaga.
Seabra – Após a construção de uma linha melódica, já aconteceu de você falar “Nessa caberia uma letra. Vou passá-la para o Aldir!”?
Hamilton – Já aconteceu. Tenho várias músicas que cabem letras. Sei lá, acho que nisso sou um pouco conservador. Do choro, mesmo.
Tacioli – Do choro com letra?
Hamilton – É. Um amigo poeta de Brasília, o Fabrizio Morello, já fez algumas letras para umas músicas minhas. E ficaram muito bonitas. Mas, sei lá, esse deve ser o meu lado do chorão conservador.
Seabra – Então, deixe uma carta proibindo. [risos]
Hamilton – Mas eu não proíbo, não!
Seabra – Por que já aconteceram algumas que…
Hamilton – O quê? As letras do Herminio que neguinho sacaneia? Que Radamés deixou uma carta? Vocês sabem o que o Radamés falou antes de morrer, né? Para não deixar o Herminio botar letra nas músicas dele. Sei lá, se quiser botar nas minhas, não vou contra, não. Mas também não vou atrás.
Cirino – Então, você vê algum tipo de especificidade na linguagem instrumental do choro.
Hamilton – Mas é a essência dela. Se não for assim, não é choro.
Cirino – Ser instrumental?
Hamilton – Eu penso e toco assim. Não sou contra e acho que deve haver pessoas que pensem mais abertamente, mas acho que têm que haver pessoas que pensem igual a mim, e aquelas que são mais radicais, que tocam o choro tradicional, porque é uma forma de manter a vida eterna do gênero, como gênero.
Tacioli – Você ouvia Ademilde Fonseca?
Hamilton – Ademilde é um caso à parte, porque o amor que ela tem pelo choro… Já tive a oportunidade de tocar com ela. Porra, além de ser uma cantora ótima de choro, é uma pessoa ótima, também. Mas há outros fatores. Vou muito pelo bom senso. Então, eu gosto. Não é que eu não goste do choro cantado, mas o meu trabalho é o instrumental. Futuramente penso em colocar um cantor em meu grupo, fazendo não-sei-o-quê ainda, mas para se aproximar dessa linguagem. Tenho visto algumas coisas. O próprio Hermeto já fez algumas experiências com voz no grupo. Vi agora um pianista cubano em Paris, e o seu trabalho é a coisa mais louca do mundo. Achei do caralho! O grupo dele é o seguinte: um baterista e um baixista da pesada – acho que são americanos –, uma cantora cubana, um rapper americano cantando em inglês, um marroquino cantando na língua louca dele e tocando aquele instrumento louco, e o cara tocando piano pra caralho!! Universalizando. Gosto disso. Chorinho universal! Chama-se Omar Sosa. Um cara escroto. Ele toca muito! E toca o tradicional também, aquele ré menorzão, lá com sétima, simplão. E é por aí. Abraçando o universo. Do caralho! Nesse sentido, acho legal ter um cantor. Inclusive, porque valoriza a voz e o instrumento, no caso, o piano. Se fosse no meu, o bandolim.
Cirino – Coloca a voz como um outro instrumento.
Hamilton – Exatamente, como um outro instrumento. E, aí, vem a letra, quando já faz tudo. Assim eu gosto.
Tacioli – Você acha que o bandolim e outros instrumentos de solo já vivenciaram esse casamento com a voz na música brasileira?
Hamilton – Já. Deixe me lembrar. Na verdade, eles sempre foram agregados ao arranjo, a voz como um instrumento, destacado, mas mais dentro daquela orquestra, vamos dizer assim. Você conhece aquele disco do Hermeto, Só não toca quem não quer? [n.e. Som da Gente, 1987] E tem um outro, em que até o Raphael Rabello toca… Esqueci o nome do disco.
Cirino – Zabumbê? [n.e. O vinil Zabumbê-Bum-Á, lançado em 1979 pela WEA]
Hamilton – Não é Zabumbê, não! Zabumbê é mais antigo. É um outro. Enfim, a voz entrando como instrumento e dando uma cor. Aí, humaniza tudo, entendeu? Bota de igual para igual. Realmente, o instrumento tem essa coisa de distanciar um pouco, mas… Por exemplo, eu estava aqui no ano passado, quando fui a um cabeleireiro. “Sou músico, toco bandolim e tal.” “Pô, que legal!” Aí, ele falou um negócio que eu não acreditei. “Bicho, a música cantada é demais e vai ser sempre assim. Só que mais impressiona o público ver um cara tocando um instrumento bem pra caramba do que um cantor cantando bem!” Então, tem essas loucuras, essas coisas. E cabe a cada um encarar isso com a sua realidade. A minha é essa que vocês estão vendo aqui, de Maracanã, de tudo. [risos]
Seabra – E entra muito a performance, essa coisa de vê-lo, e não somente de ouvi-lo, não?
Hamilton – O lado visual, exatamente, Sérgio.
Seabra – Mas faça logo esse videoclipe! [risos]

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