gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

parte 9/20

Radamés, Jacob e Santoro foram as referências do meu concerto

Tacioli – Hamilton, como foi a trajetória para você chegar ao seu primeiro disco que o Dois de Ouro gravou? Como surgiu a idéia? Foi em 1995, não?
Hamilton – Foi em 95.
Tacioli – Por que não se gravou antes?
Hamilton – Aquela coisa, desde pequeno sempre vinha alguém perguntar, “Vocês não gravaram disco ainda?” E sempre aquela cobrança… Eu não sei se foi uma espera pra dar uma amadurecida mais e já gravar o disco com alguma cara, ou se foi falta de grana, porque até então a gente não sabia como produzir um disco. Sabia, apenas que tinha que gastar grana. Eu, novinho, não pensava em gravar disco, queria tocar. Aí, foi começando a surgir essa necessidade. Foi mais ou menos nessa época do vestibular, 16, 17, 18 anos. Aí pintou um projeto da Secretária de Cultura de Brasília, junto com um esquema de estúdio e com um amigo nosso, o Evandro Barcellos, que é músico em Brasília, também. Ele botou um gás, “Vamos fazer, não-sei-o-quê”, aí a gente gravou. Mas pintou um problema no estúdio, e só conseguimos lançar em 97, dois anos depois. Então, as primeiras dificuldades de gravação foram passando. Hoje ouço o disco e adoro. Aquele momento está registrado. Fiz alguns arranjos, o Alencar Sete Cordas também. Ensaiando, fizemos um ou dois coletivos. Mas sempre a minha personalidade musical falava mais, porque sempre tomei a frente nas coisas. Sempre gostei de escrever os arranjos. Quando não escrevia meus arranjos, ficava tirando as coisas de ouvido e escrevendo. E eu sempre tive interesse e agi gostando de fazer arranjos e tal. Assim, esse primeiro disco foi produzido por mim e pelo meu irmão. Do segundo a gente quis fazer um disco mais popular, tanto que já deve ter vendido uns 20, 30 mil discos, e só lá em Brasília. Ele só tem os clássicos, “Noites cariocas”, “Lamentos”, e tudo com arranjos que fiz. O terceiro, com o Dois de Ouro, foi um disco mais autoral, só com músicas minhas. Esse disco é especial porque registrou um momento de compositor. Eu gosto muito.
Tacioli – Ele é de 2000.
Hamilton – É de 2000, lançado pela Pau Brasil. Nesse mesmo período, mais ou menos, eu estava com um trabalho com o Marco [Pereira]. Lançamos o Luz das cordas, em 2000, que fizemos junto. Foi um disco bancado por nós. Rachamos tudo do começo ao fim, e o depois o Núcleo Contemporâneo pegou para distribuir. Depois veio o Brasília Brasil e esse agora.
Seabra – Você fez algum arranjo para o disco da Beth [Carvalho]?
Hamilton – Não, só toquei. Os arranjos são do Ivan Paulo.
Seabra – Qual o seu critério para compor?
Hamilton – Cada música tem um jeito, Sérgio. Tem música que sai a primeira, segunda e terceira partes prontas. Há outras músicas que demoram, em que fico trabalhando. Tem música que faço e, depois, meio que jogo fora, não gosto e ignoro.
Seabra – Mas você deixa guardada?
Hamilton – Deixo guardadinha.
Almeida – Você acredita nessa coisa, “Não está saindo, mas vou continuar”, ou se a música vem fácil, é aquilo ali?
Hamilton – As duas coisas, Daniel. Tem dia que eu vejo que não vai sair, então eu deixo. Aí, vem a insistência do mês seguinte. No mês seguinte eu pego aquela mesma e tento desenvolver. Quando não dá, deixo de lado, ou passo para algum amigo, “Tente terminar isso para mim”, ou então, depois de um ano, ouço novamente aquela música e tento mais uma vez. Mas tenho um pouco de sorte, porque a maioria sai pronta.
Almeida – É um negócio da cabeça?
Hamilton – É, é. Às vezes, no meio da madrugada, às vezes, de manhã, na hora que pinta. Ou, às vezes, momentos. A composição é um exercício diário. É uma coisa de você estar todo dia buscando novas harmonias, novas melodias, novos ritmos, ou coisas antigas, ou até mesmo repetir fórmulas que deram certo, mas com uma coisinha diferente. Cada música é de um jeito. É libertar o que está passando na cabeça naquele momento. Se der vontade de ficar pentelhando até sair, eu fico. Sem grilo, entendeu?
Tacioli – Que músicas que foram gravadas que você compôs uma parte, mas não rolou, tentou no mês seguinte…?
Hamilton – Deixe-me lembrar. Acho que gravei somente os gols certos. [ri] É, mas tem um monte lá. O próprio concerto que escrevi deu um trabalho fudido. Eu tinha que compor porque fazia parte do trabalho final, era um compromisso comigo mesmo. Entrei na Universidade já com esse objetivo. Havia vários dias que não pintava nada. Nada, nada, nada. Tanto que foi meio na pressão. Como estava perto do dia do concerto na Universidade, fiquei uns sete dias direto, pá, virando, fazendo e escrevendo música, só que parti de uma coisa boa, também. Até eu escolher os temas demorei. O tema do primeiro, do segundo e do terceiro movimentos estavam do jeito, da emoção, do sentimento, do natural, muito espontâneo. Aí, para arrumar, tem que pensar e tudo. Porque não tenho tanta prática para escrever para orquestra.
Tacioli – Houve alguma referência anterior para essa composição? Radamés?
Hamilton – Teve. Radamés e Jacob. E o Cláudio Santoro, também.
Tacioli – Nessa ocasião, o concerto chegou a ser gravado?
Hamilton – Ainda não. Gravei em MD, mas só como registro caseiro. E ficou com um chiado que não dá nem para ouvir direito. Era o meu primeiro dia com o gravadorzinho, e como eu não sabia mexer, apertei um botão errado. Mas vou gravá-lo no ano que vem, com certeza.

Tags
Hamilton de Holanda
Música instrumental
de 20