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Entrevistas de música brasileira

Hamilton de Holanda

Hamilton de Holanda. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Hamilton de Holanda

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Um bandolim do tamanho do Maracanã

Estava tudo certo para a primeira entrevista do Gafieiras com um instrumentista. Bar Brahma, segunda-feira, às 20h30. Liguei para o Seabra e combinei o horário em que nos encontraríamos no metrô Paraíso. Estranhamente, parecia que tudo estava certo. Na mochila, fitas, pilhas, MDs e anotações. Na carteira, Santo Expedito, alguns trocados, cartões, RG e CIC e alguma esperança. Faltava algo. Não havia um ritual supersticioso a cumprir. O gás estava desligado. As luzes, apagadas. As janelas, fechadas. Decidido, como os grandes heróis da História, fechei a porta, chamei o elevador, deixei a mochila no chão, coloquei a chave na porta e entrei novamente.

Na sala, o prato do toca-discos girava. Não havia ninguém. Mesmo. Antes de desligar o aparelho, pesquei Primas & bordões – vinil de Jacob lançado em 1962 – e deixei a primeira faixa, “Teu beijo” (Mário Alvares), justificar aquela volta. Empolgado, fui ao quarto e namorei meu bandolim, mudo e trancado no armário. Com outro olhar, salvei Pixinguinha, Luiz Americano, Zequinha de Abreu, Waldir Azevedo, Luperce Miranda, Di Capua, Giuseppe Cioffi e D’Annibale. Minha pasta de partituras.

Como um hino, “Falta-me você”, de seu autor e intérprete Jacob do Bandolim, alertava-me do compromisso. Primeira entrevista com um instrumentista. A primeira, também, com um bandolinista. Um jovem, ex-menino prodígio que sonhava em ser neto de Silvio Santos, jogador de futebol e rock star. Carioca, criado em Brasília e morando atualmente em Paris. Hamilton de Holanda. Aquele grandalhão que há anos vi, pela TV Senado, apresentando-se no Clube do Choro de Brasília com o violonista Marco Pereira. Solava e solava e dançava abraçado ao instrumento de dez cordas. Ali, pela alegria infantil de interpretar, percebi o choro em novas estações.

O lançamento de seu primeiro CD (Hamilton de Holanda, Velas) assegurou nossa entrevista. Mas, em vez de seu inaugural álbum-solo, a pauta era narrar os homens da minha pasta de partituras e dissertar sobre eles, radiografar a especificidade da música brasiliense e compreender os passos do jovem que sonhava (e ainda sonha) tocar para um Maracanã lotado. Depois, entre alguns chopes, falaríamos do Dois de Ouro, do choro cantado, do jazz, do Legião Urbana e dos Entregadores de Pizza.

Jacob já havia encerrado o lado A. O toca-discos, quieto, me autorizou a fechar seu expediente. O gás estava fechado. As luzes, apagadas. As janelas, fechadas. Não faltava nada. Não havia um ritual supersticioso a cumprir. Dei duas voltas com a chave, peguei minha mochila e entrei no elevador. Como um herói, me despedi. Afinal, tudo estava certo.

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