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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 8/21

Ela não gosta quando eu falo essas coisas

Germano – Olha, aqui é uma cena do Catedrático do samba, um curta-metragem… Ganhou em Kiev na Ucrânica um prêmio de… como é mesmo o nome? Não é honra ao mérito.
Almeida – Prêmio do Júri?
Germano – Não. Como é mesmo o nome?
Max Eluard – Menção Honrosa?
Germano – Como é…
Tacioli – Não é Menção Honrosa?
Germano – Isso, Menção Honrosa. Você falou, né? Não escutei. É, velho só dá mancada. [risos]
Max Eluard – E como foi fazer esse filme?
Germano – Esse filme foi… Ele tá muito pobre… Eles fizeram autêntico demais. Tem somente eu fazendo batucada, não tem harmonia nenhuma…
Max Eluard – É só você cantando…
Germano – E falando sobre a minha vida. Aí, quando as pessoas entravam pra ver o filme, ganhavam um lencinho pra chorar. [risos]
Max Eluard – Por que era triste?
Germano – Não… de raiva! [risos] Tão ruim o documentário que eles choravam de raiva. “Porque fui perder meu tempo pra ver essa merda?” [ri]
Max Eluard – Mas você não gostou?
Germano – Gostei, mas podia ter sido feito com mais… cavaquinho, violão, com harmonia. Não tem harmonia. Só eu com batucada, pô! Peguei uns engraxates do tempo antigo, um tal de Jarrão.
Max Eluard – Você não gostou da parte musical?
Germano – Ficou pobre a parte musical. E o resto eu falando, caracterizado.
Max Eluard – Você não gosta muito de falar do passado?
Germano – Não gosto, não. Primeiro, porque não guardo as coisas. Não me lembro de data. E segundo… [grita] Benhê! Benhê! Benhê! Oh, meu Deus, será que ela saiu? Quero mostrar pra vocês… Ganhei um diploma de Bacharel do Samba da Ordem da Palheta Dourada…
Tacioli – Da X-9.
Max Eluard – Mas só termina de falar isso que você estava dizendo, de que não gosta de falar das memórias… Você não se lembra de datas e…
Germano – Benhê, me dá o negócio dos discos pra eu mostrar pra eles.
Dona Ivone – Qual, velho?
Germano – Aquele negócio da sacola que eu pedi pra você tirar de lá.
Dona Ivone – Ah, tá.
Germano – Pedi pra você tirar e você esqueceu. [cochichando] Tenho que tomar muito cuidado com ela senão ela joga o coador quente de café na minha cara. [risos]
Max Eluard – Germano, mas você tava dizendo…
Germano – Sabe que ela me amarrou com um café coado na calcinha? Fiquei apaixonado. Tô gamadão até hoje. [cochicha] Ela não gosta que eu fale essas coisas. [ri] Pornografia. [Dona Ivone volta] Quanto tempo estamos juntos, bem?
Dona Ivone – 28.
Germano – Vinte e oito anos que ela me atura.
Dona Ivone – 28 anos que eu aturo esse homem. [risos] Agora tem que ir até o fim. [ri]
Germano – Sabe o que ela fez comigo? O prêmio que ela quis por me aturar todo esse tempo? Tive que fazer uma apólice pra ela não ficar na rua da amargura. [risos] É verdade. Quando falei pro Donizete… ele morria de rir. O Donizete passou uma tarde aqui que nem vocês. Mas eu fiz ele dar risada… Não queria mais sair daqui. Tomou uns 80 cafés e falei assim…
Dona Ivone – Querem mais café?
Todos – Aceito.
Germano – Mas vocês ainda foram felizes porque teve um engasga-gato pra comerem. [risos] [referindo-se ao nuggets] O Donizete só tomou café. Saiu daqui preto de tanto tomar café. Não teve nem um biscoitinho, coitado. Falei, “Olha, deixa passar a turbulência financeira que eu te convido pra vir aqui novamente”. [ri] Não é que a gente esteja duro, a gente tá numa altura que urubu não alcança. [ri]
Tacioli – E como você conheceu a Dona Ivone?
Germano – Conheci numa gafieira do Clube Paulistano. Uh, ela esava linda. Quando passou rebolando aquele pudim de mamão! [risos] Fiquei louco. Disse, “Boa noite, gentilíssima, posso me entusiasmar?” [risos] Eu disse, “Deus faz e a natureza conserva”. Aí, eu peguei e já arrastei para o campo de aviação. Bem nas entrecofas. [risos] Ela se apaixonou e não quis nem saber se língua de tamanduá era escada rolante de formiga. [risos] Ela não gosta quando eu falo essas coisas.

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Samba de breque
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