gafieiras

gafieiras

Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 7/21

“Como vai? Tens envernizado muito esse lagartão?”, disse a Aracy

Almeida – Germano, você é meio ator também, né?
Germano – Sou ator e sou à toa também. [ri] Fiz uma novela, Brasileiros e Brasileiras…
Almeida – No SBT.
Germano – É, eu era um velho vagabundo chamado Nivaldo. Só esses papéis que me dão pra fazer. [ri] Não me dão papel de mais classe, não. Opa, deixa eu pegar o cafezinho…
Seabra – Você tem muitas passagens engraçadas no show, mas e de casos que realmente aconteceram?
Germano – Caso real eu contei no programa do… meu Deus, como era o nome daquele cara que fazia caipira… Rolando Boldrin. Eu fiz e ficou tão engraçado que repetiu no fim do ano nos melhores momentos do programa dele. É o seguinte: eu tinha um mês de profissional e estava acostumado em cantar em São Paulo. E, não sei, encasquetou na cabeça que, se eu fosse pro interior, o pessoal não ia me entender, o pessoal não ia entender o meu samba. O pessoal do interior só gosta de música caipira. E fiquei meio inibido. Se eu cantar samba de malandro aqui, ninguém vai entender nada. Mas o primeiro show foi na cidade de Tietê, ou antes da cidade, não lembro direito… Entrei meio assim, não entrei entusiasmado. Fiz o show, sambava meio assim com medo [risos], pensando que o povo não ia me aceitar. O pessoal bateu palma, mas também não foi aquilo, porque não rendi o que tinha de render. Quando eu saio, que Deus o tenha em bom lugar, o saudoso Miguel, da dupla Ouro e Prata, disse assim, “O que aconteceu com você?” – “Ah, não sei, é que estou acostumado lá em São Paulo e aqui estou perdido. Aqui o pessoal gosta muito de música caipira…” – “Você tá ficando louco, rapaz? O seu samba é aceito em qualquer parte do Brasil e do mundo. Você tem que fazer o que está acostumado a fazer, aquilo que você sabe quando você entra com aquele ânimo, aquela alegria.” Porque eu entrava pulando quando anunciavam, “Agora, com vocês, Germano Mathias, o sambista da nova geração.” Cantar que era bom, nada, só palhaçada! [risos] Aí, ele falou, “Vou te dar um estimulantezinho”. Era um bolinha verde que deixava doidão. Depois vim a saber que era Perventin. Aí, me deu uma bolinha daquelas, “Você vai ver como agora você vai funcionar bem.” [risos] Então, o Astrogildo Silva me anunciou, “Agora o mais novo contratado da Rádio Tupi de São Paulo para a Caravana da Alegria, o sambista da nova geração, Germano Mathias!” Aí, eu entrei. O Miguel só ria. “Não sou de briga / Mas estou com a razão / Ainda ontem bateram na janela…”, do primeiro disco… Não canto mais esse samba, esse samba é racista. “Ainda ontem bateram na janela do meu barracão / Saltei de banda, peguei a navalha e disse / Pula moleque abusado / Deixa de alegria pro meu lado / Minha nega na janela diz que tá tirando linha / Êta, nega tu é feia que parece macaquinha.” Aí, já era, já estragou tudo. As negras achavam que eu chamava elas de macacas. Não canto mais esse samba. Na época era engraçado, há 50 anos, 46. No final todo mundo bateu palma. Sambei e tal. Olhava pro Miguel lá na coxia e ele ria. “Então, mais um número do Germano Mathias”, mais um número… Foi aí que eu me caguei todo. [risos] Pedi o tom pro Regional, “Escuta, será que é Ré ou Sol Maior?”. E enfiei dois dedos no rabo e cocei. [risos] Distraí, fiquei distraído demais. [risos] Esqueci que eu estava no palco. Fiquei à vontade demais, acho que a bolinha fez efeito. O povo começou a dar risada e eu não sabia porquê. O Astrogildo dizia assim, “É um jovem sambista, um artista novo, vocês têm que perdoá-lo!” [risos] “Perdoar o quê? O que eu fiz?” Ah, rapaz. E o povo, “Coça de novo! Quá quá quá quá”. Cheguei nos camarins e perguntei se tinha ido bem. O Miguel, “Até demais, se o povo não tivesse gostado de você… você enfiou dois dedos no rabo e coçou na frente de todo mundo!” Aí, me lembrei que era verdade. Fiquei com uma vergonha. [risos] Fiquei por último. Esperei apagar todas as luzes para sair… Com vergonha do povo. Todo mundo foi embora… Mas sabe esses caras de bar, molecão, que fica enchendo o saco, gritaram, “Olha coça-coça aí!” – “Coça-coça é a puta que te pariu!” [ri] Os filhos da puta me chamavam de “Coça-Coça”. Foi uma passagem da minha vida negra, né.
Seabra – Tiveram mais passagens? Porque, quando estávamos vindo pra cá,… você não bebe?
Germano – Não, nada.
Seabra – E nunca bebeu?
Germano – Já bebi. Tomava cerveja, vermute, Ferroquina…
Almeida – O que é Ferroquina?
Germano – Ferroquina era um tipo de vermute que melhorava a…
Almeida – Circulação.
Germano – Como eu posso dizer? Melhorava o funcionamento do lagartão. [risos]
Tacioli – E melhorava mesmo?
Germano – Uma vez a Aracy de Almeida chegou pra mim… “Germano Mathias!”, com aquele jeito dela carioca, “Como vai? Tens envernizado muito esse lagartão?” [risos] Era um barato. Ela era debochadona, falava palavrão feito louca. Uma vez vi umas mocinhas pedindo autógrafo pra ela, “Dona Aracy! Dona Aracy! Me dá um autógrafo, dá bem bonitinho!” – “E não é pra ser bonitinho, sua putinha!” [risos] Chamou a fã de putinha! [ri] A Aracy era demais. Irreverente toda vida. É que na época ela não falava muito em cena. Ela era pior que a Dercy Gonçalves.

Tacioli – Você era bastante amigo da Aracy?
Germano – Eu me dava bem com ela.

Tags
Germano Mathias
Samba de breque
de 21