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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 6/21

O meu show é um espetáculo!

[Vai e volta com uma maleta onde estão um chapéu, a latinha, o repertório e o par de sapatos de couro de bode]

Tacioli – Olha só… Brilhando.
Almeida – Quantos anos tem essa latinha?
Germano – Ah, faz tempo, ganhei de um amigo meu.
Seabra – Você preza tanto a elegância… Fale-me dessa sua indumentária branca?
Germano – Não, branco, não. Fico parecendo pai-de-santo. Não se usa mais branco. Vou ficar parecendo pai-de-santo ou médico.
Tacioli – Ou barbeiro.
Germano – Tenho que estar no padrão, mas sem imitar. Olha aqui meu repertório… “Samba da periferia”, “Produto brasileiro”, “Amor perfeito”, “Pega leve”, “Costela predileta” – umas músicas do CD que têm que trabalhar -, “Malandro não vacila”… Essa aqui não tá no CD, mas é um samba que canto de malandragem no estilo do Bezerra da Silva… [canta] “Malandro que é malandro, cumpade, não vacila / E você anda vacilando, cumpade, lá na vila / Malandro que é malandro / Pisa no chão devagar / Chega bem de mansinho / Que é pros hômi não notar / Sabe entrar e sabe sair / E criança respeitar / Não mexe com mulher alheia / Que é pra na cadeia a mulher não virar / Viu / Olha que lá em Itaquera”… Não sei mais, até esqueci. Quando fico emocionado me perco.
Almeida – Porque você se emocionou com essa música?
Germano – Não é com essa música. Eu me emociono com as coisas. Quero falar tudo de uma vez só e não dá. Quero contar tudo… “Olha que lá em Itaquera / Apesar da fama tem nêgo bacana / Mas você chegou lá meu cumpade / Trocando a mão pelo pé / Entrou na casa do Loki e fez arrasta pé / Usou e abusou e na marra transou com a mulher do Mané / Se fosse em Guaianases, o bicho comia / Se fosse em Guarulhos, você sumia / Se você em São Miguel ou Capão Redondo, você morria / Se fosse em Osasco, você virava churrasco / De quê? / Churrasco de malandro / Que só respeita malandro quando tá de quatro”. A turma dá risada. E eu abro com um samba explícito. Não tem o sexo explícito? [risos] Então, eu fiz o samba explícito! Esse faz um puta sucesso! O samba é meu, é de minha lavra. Lavra dá impressão de trabalhador… [risos]
Almeida – Trabalhar na terra…
Germano – Trabalhar na terra. Lavra. Diz assim… “Ela amanhece pendurada na janela do lado de lá / Do lado de lá / Eu amanheço pendurado na janela do lado de cá / Se você me perguntar / O andar onde ela mora / Não vai dar pra entender / Entender / Se perguntar a ela o meu nome / eu garanto ela não saberá dizer / Mas o diabo do pai dela fica todo invocado / Quando me vê na janela / Tá todo mundo perturbado / Tanto do meu lado / Como do lado dela” [risos]… “Eu sei que ela fica o dia todo pendurada virada pra cá / Ela sabe que eu fico o dia todo pendurado virado pra lá / Virado pra lá / Se ela está se divertindo / Está curtindo a dela do lado de lá / Eu também tenho direito de estar curtindo a minha do lado de cá” [risos]. Aí, no final eu exagero… [aumenta o tom] “Se ela está se divertindo / Está curtindo a dela do lado de lá / Eu também tenho direito de estar curtindo a minha do lado de cá” [ri]. E todo mundo “quáquáquá”. [cantarola e batuca] Eu faço o breque do canguru. Esse breque foi em homenagem quando o Brasil ganhou na Austrália, na Copa…
Tacioli – Não foi nas Olimpíadas?
Germano – Então, depois tem “Mulher ciumenta”, que é demais. [cantarola] “O homem casado não agüenta / Menino chorão e mulher ciumenta”. Essa é a parte pesada! No final do show eu arraso, aí, apelo… “O homem casado não agüenta / Menino chorão e mulher ciumenta / Quando chego em casa encontro sentada / Televisão ligada assistindo novelas…” [faz voz de choro] “Reynaldo Gianecchini!” [risos] “Fábio Assunção! Eu fico toda molhada!” [ri] “Menino chorão e o fogo apagado / Pia toda suja de pratos e panelas / Se falo em jantar / Ela quer brigar / Vai miserável / Vai / Pensa que eu não revistei você seus bolsos / E você estava com um cartão / Magali massagista / Vai na massagista! / Não me toque, hein! / O Chico bateu na porta…” [ri] Você sabe o que é? O Chico bateu na porta…
Tacioli – Imagino. [risos]
Germano – O Chico bateu na porta? Quer dizer que ela está de paquete. “Tô de bandeira vermelha, por favor, não me procure. Se você quiser, mate uma cotia a soco” [risos]. Ah, quando eu tô fazendo o negócio da língua, eu digo assim… [faz os barulhos com a língua] “Caboclo mamador, língua de ouro 2002”, aí, digo “Vocês vêem o que um velho tem que fazer pra ganhar dinheiro? ‘Ce vê o que tem que fazer?” [risos] Aí eles morrem de rir. Então, o outro é “Maria pé-de-boi”… “Ô Maria Pé-de-Boi / Ô Maria Pé-de-Boi / Deixa de tomar pileque / Foi assim que a outra foi / De dia essa nega dorme” [faz barulho de ronco]. A Maria Pé-de-Boi tava encachaçada, com a língua aberta, e de repente apareceu aquelas baratas americanas que têm aquelas antenas… [risos] aquelas baratas viciadas em naftalina. Naftalina pra ela é moleza. [ri] E entrou dentro da boca da Maria Pé-de-Boi. A Maria deu uma cuspida e a barata caiu dura só com aquela bafo de cachaça. Morreu. [risos] Aí, sigo… “De dia essa nega dorme / De noite faz arruaça / Chega de manhã cedinho / É puro bafo de cachaça / Meto o facão na madeira / Meu facão sabe cortar / Se você não andar direito / Meu facão vai trabalhar / Ô Maria Pé-de-Boi / Ô Maria Pé-de-Boi”… aí já é o final do show, “Aí, o terreiro tá que é poeira só / Muita gente vai chorar quando eu fechar meu paletó / Aí, o terreiro tá que é poeira só / Muita gente vai chorar quando eu fechar meu paletó / Olha que vida danada / Meu pai morreu assim / Cuidando da vida dos outros / E esquecendo de cuidar de mim / Que enterro vagaroso / Foi um caso muito sério / O defunto se invocou / E foi a pé pro cemitério”. [risos] Aí, o amigo que tava no velório disse assim, “pro mé tinha, mas pra enterrar o vagabundo não tinha?”, e ainda chegou um compadre dele com uma bagana… [assopra] “Cumpadi, eu sei que você gostava!”. [risos] O povo morria de rir. “Cumpadi, essa aqui é curtida no mé, curtida no cacau, cumpadi”. Na cara do defunto. [ri] Aí, eu digo, “Quando Deus criou o mundo / Fez um pouquinho de tudo / Fez nega pra dançar samba”… e eu faço que nem a nega [sai rebolando], skindô, skindô, que nem a nega… tô só imitando a nega, viu? [risos] Porque toda vez que imito a nega tem alguém aí fora com a mão no bolso. “Gostei do rebolado!” [risos] Olha, o meu show é um espetáculo.

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Samba de breque
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