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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 4/21

Estou feliz porque esse CD pode me projetar nas paradas

Almeida – Você começou em programa de calouros no rádio, né? Como você vê esses programas, como o Fama, da TV Globo?
Germano – Olha, esse povo todo que tá aparecendo agora… Não vai ter canto para eles. Sabe por quê? Porque todo mundo quer ser cantor hoje em dia e satura a praça. E não é todo mundo que ganha dinheiro. É a lei da oferta e da procura. Quando tem muita quantidade, cai o valor. Só ficam os que tem carisma.
Tacioli – Hoje é mais difícil ser artista?
Germano – Ah, é. Pela quantidade que tem… E a qualidade não é muito boa. Muita quantidade e pouca qualidade. Acho que vou ser jornalista. [risos] Ainda faturo um dinheiro porque… Tenho 46 anos de carreira. Peraí! De 1955 até 2002 são 47! Quase meio século de carreira. Sou muito conhecido… A polícia toda me conhece! [risos]
Tacioli – Como foi o começo de sua carreira? Gravar o primeiro disco…
Germano – Foi… Aliás, aqui tem, aqui diz tudo. [Aponta para a matéria do Estadão] Não preciso nem repetir.
Almeida – É melhor que você fale, Germano.
Germano – É comprido para explicar.
Almeida – Mas é bom ouvir essas histórias.
Germano – Demora muito.
Almeida – O que você gosta de falar em entrevista, então,?
Germano – Gosto de falar do CD. Gosto de falar sobre o presente. Tem muita coisa que não me lembro. Está tudo aqui. Tenho que falar sempre as mesmas coisas nas reportagens.
Almeida – Por exemplo, nunca li nada sobre sua infância.
Germano – A minha infância… É uma coisa que não me lembro mais. Foi uma infância comum, normal.
Dafne – Onde você morava?
Germano – Nasci no bairro do Pari, 2 de junho de 1934.
Dafne – Como era o Pari na época?
Germano – Não sei, não sei, eu era pequeno. Era um bairro comum, normal. Não era como Vila Isabel! Era um bairro normal como qualquer outro.
Seabra – Nesse material tá escrito que você começou a batucar em rodas de engraxates da Praça da Sé. Notaram que você tinha talento…
Germano – Eu ia pra escola e, quando voltava, parava naquelas rodas de engraxates, sambistas, ali na Praça João Mendes e na Clóvis Bevilaqua. Era um samba muito bem feito. Era um folclore na época. Eles batucavam e passavam o chapéu para comprar cachaça, maconha… E o que precisasse. [risos] E eu ficava ali. Parecia que eu me identificava com aquele cenário. Comecei a batucar até que um amigo meu falou que eu podia me inscrever em um programa de calouros. O programa se chamava Aí vem o Pato!, apresentado por Jaime Moreira Filho, já falecido. Ganhei o primeiro lugar com o samba “Minha nêga na janela”… Não, o samba se chamava “Na Barra Funda”. Aí, abriu um concurso na Rádio Tupi. Eles estavam procurando um substituto pro Caco Velho, que era uma estrela na época. E tinha que ser aqui de São Paulo porque era mais barato.
Seabra – Havia esse ambiente nos engraxates, mas onde você morava não havia…
Germano – Não tinha. Era tudo na cidade. As gafieiras…
Max Eluard – Mas não havia um preconceito com a batucada nessa época?
Germano – Não. Quero dizer, o pessoal reclamava porque havia os escritórios e fazíamos batucada de dia, de tarde, toda hora! [risos] Aí, baixava a polícia descendo porrada nos vagabundos. [risos] Mas era uma batucada bem feita, era folclore.
Max Eluard – E você lembra quando deixou de ser um problema e as pessoas passaram a gostar, pedir mais, comprar discos?
Germano – Não lembro. Só lembro quando entrei no rádio. Tornei-me profissional em 6 de outubro de 1955. Tirei a carteira na Divisão de Diversões Públicas, que todo artista era obrigado a ter, e vinha escrito assim “Cantor e executor de instrumentos exóticos”. [risos]
Max Eluard – A latinha de engraxate.
Germano – Era um tempero que eu usava. Hoje em dia não serve mais.
Tacioli – É mesmo?
Germano – Por causa do eletrônico que existe hoje em dia. Não faz mais sentido. Por mais sonoridade que tenha, perde o fogo da música.
Dafne – Mas no disco não dá para usar?
Germano – Dá, mas também não estou usando muito. É apenas um detalhe… Fiz um breque em uma música nesse disco [“Pega leve”]. Não queria fazer, me encheram o saco pra fazer. [risos] E tem outra… Se eu perder essa latinha não encontro outra. Porque não existe mais esse tipo de lata. As latas de graxa de hoje não têm mais tampa.
Max Eluard – Sua família tinha alguma ligação com samba?
Germano – Não, minha família era uma negação em matéria de música. Sou português por parte de mãe, carioca por parte de pai e crioulo por parte do vizinho do meu pai. [risos] Cantor de samba? Parece um alemão, porra!
Max Eluard – E sua família apoiou, no começo, sua carreira?
Germano – Apoiou. Já havia morrido quase tudo [risos] Então, agora estou feliz porque esse CD pode me projetar novamente nas paradas. Mesmo que seja a Parada de Lucas [Zona Norte do Rio de Janeiro]. [ri]
Max Eluard – Parada de Taipas. [risos]
Almeida – Mas o que tem de melhor em se fazer sucesso?
Germano – Ah, meu filho, o trocadinho. Ganhar cascalho. Porque não tenho aposentadoria. E agora tá mais difícil de aposentar. Mas, olha, eu não sou caro, não! [risos] Leva o show com acompanhamento e tudo.
Tacioli – Quem te acompanha no show?
Germano – O Oswaldinho da Cuíca, o Odair Menezes, no cavaquinho, o Renatinho, no violão, ceguinho, bom demais…
Dafne – Violão 7 cordas, né?
Germano – É. São cinco músicos. Com isso dá pra estourar o saco de todo mundo. [risos]
Max Eluard – E quanto shows você faz por ano?
Germano – Depende. Agora tá parado. Cada vez inventam uma desculpa. Primeiro era o apagão, aí, depois, veio a Copa do Mundo e, agora… Temos um nome bonito… Turbulência financeira! [risos] Mas tô com um disco novo e as perspectivas são boas.

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Samba de breque
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