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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 3/21

Entrevista não dá retorno. A não ser a Gabi

Max Eluard – Tô vendo que você tem muito prazer em ouvir seus discos. Como é que você fez com todos esses anos sem gravar?
Germano – Veja bem, não é que fiquei sem gravar. Participei de alguns discos mas não era eu somente. Não estava sozinho. O primeiro que gravei sozinho foi lançado há 43 anos pela gravadora RGE. E a Som Livre comprou a RGE. Mas são sambas de 43 anos atrás. Foi relançado como As 20 preferidas. Depois gravei a História do samba paulista, que saiu pela CPC-UMES, com o Oswaldinho da Cuíca. Gravei duas músicas, “Bandeira do Timão” e “Último sambista”.
Max Eluard – Mas você não tinha esse prazer em ouvir um disco seu, de carreira. Como foi ficar sem esse prazer?
Germano – É, não tinha. Mas, depois, o SESC lançou um coisa minha… Essa é minha filha. [dirige-se à filha] Todos esses jornalistas da Internet falaram que vão fazer eu ficar feito na vida [risos]… Feito bobo! [risos] O SESC lançou…
Tacioli – O MPB Especial do Fernando Faro.
Germano – Só que uma pessoa precisa comprar todos os CDs da caixa para ter o meu! Tem que gastar R$ 80,00 pra ouvir o Germano Mathias. O Germano Mathias não vale tanto assim! [ri] Vamos com calma.
Max Eluard – Mas quero saber do seu sentimento.
Germano – Muito grande. Graças a Deus estou tendo apoio. Só preciso agora da televisão pra mostrar o meu trabalho. Mas não entrevista. Entrevista não dá retorno. A não ser a Gabi. [n.e. Refere-se ao programa televisivo de entrevista da jornalista Marília Gabriela, atualmente no SBT] A Gabi faz diferença. Você fica lá uma hora, falando da carreira, pode mostrar o disco… Ela é vista no Brasil inteiro. E ainda falo que, quem comprar esse disco, vai estar ajudando o sambista pobre e desamparado. [risos] Mas olha… Vamos ver aquele negócio da ocarina. Esperem um pouquinho que tá saindo um cafezinho especial.
Tacioli – Esse disco novo, o Talento de bamba, está dando um grande impulso…
Germano – Mas o que vai dar impulso mesmo é cantar na televisão. Por exemplo, cantei “São Paulo, mãe-madrinha” no Jô Soares e já teve repercussão.
Max Eluard – E em que outros programas da TV você acha que poderia se encaixar?
Germano – No programa da [Luciana] Gimenez, na Adriane Galisteu, no Clodovil…
Seabra – No Raul Gil?
Germano – O Raul Gil é um problema, porque quem decide é a produção do programa, e na produção só tem gente jovem que não me conhece. Mas, olha, achei o negócio da ocarina… [lê] “Instrumento de sopro, oval, com embocadura curta e que lembra o perfil de uma cabeça de ganso. Geralmente de barro. Com oito orifícios, quatro para a mão direita e quatro para a esquerda, correspondentes às notas da escala diatônica”. Que instrumento esquisito! Ninguém conhece!
Max Eluard – Fala de onde vem?
Germano – Não. Não fala. Tem “it” aqui… talvez seja italiano [n.e. Na verdade, a ocarina é de origem africana]. Como eu já tenho sotaque italiano mesmo. [ri] No Rio de Janeiro falaram “O disco está muito bom, acompanhamento excelente. O sambista passeia dentro do ritmo, mas aquele sotaque italiano…” [risos] Filha da puta!
Max Eluard – Engraçado que ainda haja isso, do samba de São Paulo ser segregado no Rio. Como era na sua época?
Germano – Eu ia pro Rio, sim. Eles me engoliam, tinham que me engolir. [risos] Que nem o Zagallo.
Max Eluard – Mas havia isso?
Germano – Sempre existiu. Os cariocas acham que somente eles podem cantar samba. Quer dizer, até aceitam mineiro ou baiano cantando samba, mas paulista não pode. Por causa do sotaque italiano. Mas onde é que eles vem ganhar dinheiro? [risos] Se fossem depender do Rio de Janeiro, já tinham ido pro beleléu. [ri]
Max Eluard – E como São Paulo está de samba hoje em dia?
Germano – São Paulo é a cidade principal do samba. Sambista ganha dinheiro em São Paulo. Vocês sabem disso. Toda hora vocês vêem no jornal… Leci Brandão, Jorge Aragão, Zega Pagodinho…
Max Eluard – Tá… Aqui é o lugar onde se ganha dinheiro com samba, mas é onde se faz samba? Quem é, hoje em dia, o sambista bom em São Paulo?
Germano – Tem o Oswaldinho da Cuíca. Ele me acompanha.

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