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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 2/21

Sou meu fã!

Tacioli – O Moreira da Silva tinha essa elegância de que você fala?
Germano – Tinha, claro. Tudo tem uma característica. As pessoas não usam logotipo? É para identificação. Se não, fica comum. É como eu disse… Se eu entro na linha dos sambistas que estão gravando agora, fica um caminhão cheio de japonês. Fica tudo igual. Você compra o disco do Dudu Nobre, do Zeca Pagodinho, do Jorge Aragão, é a mesma coisa, o mesmo estilo. Vou entrar nas águas deles? Tenho que fazer uma coisa diferente, com qualidade. Se prestarem atenção, vão ver que tem muita qualidade. É uma coisa que tem arte. Essa foi a razão pela qual cheguei à conclusão de que esse disco tem condições de mostrar para os sambistas jovens como é que se faz um sincopado. Um samba malandreado (sic), elaborado. É difícil, não é qualquer um que canta dessa maneira.
Tacioli – Fora você, Germano, há alguém hoje em dia que faz o sincopado?
Germano – Não tem ninguém. Por isso que gravei 14 músicas de um compositor só, porque não tem quem faça. A juventude não sabe fazer esse estilo. Você já viu como são os sambas de agora? Eles não sabem fazer… [cantarola e batuca] “Sou bamba / Venho da periferia / Não alugo moradia”… Eles fazem isso? Com soquinho e tudo mais. Sincopado. No Rio tem quem faça esse tipo de samba, mas aqui, não. Mas como não tenho ligação lá no Rio, falei com o Elzo Augusto. Ele é o único que sabe fazer esse estilo aqui e que está vivo. O resto morreu tudo… Jorge Costa, o Ary Cordovil fazia bem. Quem mais? O Zé Keti… ele fazia bem o sincopado. Gravei uma porção de coisas dele. “Nega Dina”. Mas não tem mais quem faça sambas como o Zé Keti. Os sambas do Jorge Aragão são muito bonitos, os do Zeca Pagodinho também… E eles têm uma sorte de serem muito bem aceitos pela mídia. Eu também… se tivesse o mesmo trabalho que eles têm na mídia, eu também me destacaria.
Max Eluard– E por que você acha que a mídia escolhe o Jorge Aragão e o Zeca Pagodinho e não o Germano Mathias?
Germano – Aí é que eu não sei. Precisa perguntar pra eles. Só se for discriminação porque sou velho. Só se for isso. Ou eles não dão valor, ou discriminam.
Seabra – Você ficou 20 anos sem gravar. Como surgiu a idéia de fazer esse disco?
Germano – É o seguinte. O Wilson Souto Jr. é meu fã. Ele era diretor da Warner, mas tinha uma gravadora também. Eu nem sabia. Chamava-se Atração. E ele é muito amigo do Elzo Augusto, que disse que tinha uns sambas sincopados e que queria produzir alguma coisa. O Wilson se interessou – porque é um samba que não tem mais por aí – e me chamou. Escolhemos 14 de 40 sambas que o Elzo tinha. Era para ser gravado na Warner, mas, quando chegou a fita nas mãos dele, ele saiu da Warner. Não sei por qual motivo. E ele resolveu lançar pela gravadora dele, a Atração. Mas teve outra coisa. O Wilson chegou a mostrar a fita lá na Warner e… não sei se você sabem, mas a Warner comprou a Chantecler. E agora eles vão lançar um disco que eu fiz na Chantecler. Tô até com o contrato aqui. Eles ficaram mordidos porque o Wilson levou o CD para a Atração. Esse disco da Chantecler é só com sambas de carnaval em estilo lento, cadenciados, como “A fonte secou”. [n.e. Samba de Monsueto, gravado por Raul Moreno (Tufic Lauar), sucesso do carnaval carioca de 1954] Mas tem uma outra novidade nesse disco. Existiu um músico chamado Boneca. Não sei se ele ainda está vivo. Ele era um virtuoso, tocava de tudo. Ele tocou nesse disco da Chantecler um negócio que ninguém tocou em lugar nenhum. Uma ocarina! Sabe o que é uma ocarina? Ficou bacana pra chuchu. Ocarina é um instrumento com oito furos, parece um bumerangue, e é feito de barro. No dicionário tem. Vou pegar pra você verem. Então, é isso, tem esses sambas de carnaval cadenciados, bem cadenciados, e com uma ocarina. Olha o que diz aqui?
Almeida – Você gosta de ouvir seus discos?
Germano – Gosto. Gosto muito. Sou meu fã. [risos] Vou botar pra vocês ouvirem o samba “São Paulo, mãe-madrinha”. Vocês conhecem? É uma homenagem a São Paulo. [coloca a música] Olha que homenagem linda!
Tacioli – Além do samba, que outros gêneros de música você ouve em casa?
Germano – Gosto de forró, mas dos forrós antigos. [coloca “Costela predileta”]

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