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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 20/21

Fui o primeiro branco a fazer tudo o que o negro faz

Germano – O lugar em que mais tive cartaz foi no Rio Grande do Sul. O gaúcho gosta muito de samba desse estilo. Paraná também. Estive também em Pernambuco. Inaugurei a TV Jornal do Comércio de Recife. Eu, Maísa Matarazzo, Agostinho dos Santos e Éder Jofre, que era campeão na época. Hoje não vou nem à esquina em TV a cabo. [risos] Eles me chamaram para fazer entrevista, mas eu quero cantar. Se não for para cantar, eu não vou. A MTV também me convidou. Mas era entrevista e entrevista não me dá retorno… pelo contrário, depõe contra mim. [risos]
Seabra – Mas se for uma entrevista com umas palhinhas, como você tá fazendo aqui?
Germano – Eles não querem. Porra, toda vez tem que falar as mesmas coisas. Com vocês é diferente. É um outro tipo de entrevista… É uma entrevista que realmente vai me beneficiar. Quero fazer é televisão que vai para o Brasil inteiro. Nessa entrevista vai ter imagem?
Tacioli – Somente as fotos. E como você viu é uma entrevista longa que a gente publica na íntegra. É grande.
Germano – Porra. Nunca tive uma coisa dessa. Teve essa aqui, mas tenho medo que você não ache essa. [n.e. Aponta para a matéria do jornal O Estado de S. Paulo]
Tacioli – Mas não se preocupe. Se eu não achar eu entro em contato.
Germano – Olha, tem uma, duas… Vou fazer o seguinte, vou dar uma lida pra vocês… “O catedrático do samba sincopado Germano Mathias saiu das rodas de batucada de engraxate do Centro de São Paulo para programas de rádio e TV. Lançou discos e compacto e é fonte de inspiração para gerações em 45 anos de carreira”… agora tô com um pouco mais, agora são 47… “ele prefere ficar fora da mídia a se deixar levar por modismos como o pagode e se mantém fiel às tradições do samba.”
Max Eluard – É verdade que você prefere ficar fora da mídia?
Germano Mathias – Eu não. Prefiro nada. Ele que escreveu aqui. [risos]
Max Eluard – Estava achando esquisito.
Germano – Já tirou tudo? [dirigindo-se ao Dafne que acabara de fotografar as capas dos discos]
Dafne – Sim.
Germano – Vê lá o que você vai fazer com a minha vida! Você é a salvação da minha lavoura. [risos]
Dafne – Confie em mim.
Germano – Agora aqui… “A trajetória do cantor e compositor Germano Mathias, com ‘th’, como faz questão de lembrar, paulistano da gema, ou melhor, do Pari, confunde-se com a própria história do samba de São Paulo. Germano confessa que sempre foi fascinado pelo samba e que essa paixão começou cedo ainda na adolescência. Aos 16 anos era comum encontrar o estudante filho de um carioca e de uma paulista, e neto de portugueses, nas rodas de batucada dos engraxates no centro da cidade. Na saída da escola encontrava com os engraxates e perdia a noção do tempo. Nem mesmo Germano sabe explicar a facilidade que teve para aprender a batucar nas latinhas de graxa que o destacavam nas praças João Mendes e Clóvis Beviláqua. ‘Acho que é um dom nato, nasci sabendo’, resume. Ainda nessa época começou a freqüentar as gafieiras onde sempre arrumava um jeito de burlar a censura a menores de idade. Não demorou muito para ser convidado a participar da bateria da Escola de Samba Rosas Negras tocando frigideira. Foi um amigo, Toniquinho Batuqueiro, que o incentivou a investir na carreira. Na Rádio Nacional concorreu e venceu seu primeiro programa de calouros, mas o sucesso começou mesmo na Rádio Tupi no programa À Procura de um astro, onde ganhou todas as eliminatórias. O segredo de Germano estava em suas presepadas, além de cantar fazia mímicas coreografadas que agradavam ao público, porque na época os cantores eram muito parados. Com a vitória ganhou um contrato com a Tupi. Germano é o maior representante do samba chamado sincopado, ritmo com batida e divisão marcante, que exige um entrosamento perfeito entre voz e acompanhamento”… Porra, definiu bem aqui, viu? Tem que colocar isso na reportagem… Isso aqui é a definição certa. “O seu primeiro sucesso foi ‘Minha nega na janela’. Além de impressionar pelo talento, a aparência do sambista, que mais parecia um embaixador austríaco, um diplomata romeno segundo as brincadeiras da época, também chamava atenção das pessoas”…, porque me ouviam no rádio e achavam que eu era crioulo. Eu fui o primeiro branco a fazer tudo o que o negro faz… “O estilo diferente no modo de se apresentar e cantar o colocou em posição de destaque no cenário musical. O acompanhamento percussivo feito com latinha de graxa se tornaria uma de suas marcas registradas”.
Seabra – Mas, Germano, você reclama que falam sempre a mesma coisa, e agora está lendo toda a matéria do Estadão!
Germano – Mas caso vocês não a encontrem.
Seabra – Não, fica tranqüilo.
Germano – Ele colocou aqui ‘canção’, mas eu canto samba, não canto canção.

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