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Entrevistas de música brasileira

Germano Mathias

Itens obrigatórios de Germano Mathias: chapéu de aba curta e sapatos brancos. Foto: Dafne Sampaio/Gafieiras

Germano Mathias

parte 1/21

Perdeu-se o elã, perdeu-se a elegância, perdeu-se tudo!

[Após a equipe se acomodar na sala do apartamento de Germano Mathias]

Germano Mathias – O fato é que… tem que ter roupa de sambista. Ele não tem. Tem roupa de sambista? Ele parece comum, como qualquer um que anda pela rua. Ele é o Zeca Pagodinho… anda como quiser. Mas aí ele aparece careca! Pô, tem que ter uma banqueta de sambista. Você vê o espanhol… quando ele dança, dança com uma roupa característica. A portuguesa é a mesma coisa, com aquela roupa de portuguesa. Até o alemão… o alemão não tem aquele traje que ele usa? Que é o tirolês, não é?
Daniel Almeida – Mas como fica a identidade de cada um?
Germano – É, fica sem identidade, né?
Almeida – Não. Se todos se vestissem iguais?
Germano – Não, iguais, não! Diferente, mas mesmo padrão. Se a camisa dele é verde, a minha é amarela, mas o cara tem que andar de camisa! Se a camisa dele é comum, você põe uma que se destaca. Eu, por exemplo, agora estou com uma camisa comum… Você tá tirando muita foto sem chapéu, né?
Max Eluard – Não, ele tá vendo um negócio.
Germano – Deixa eu pegar o chapéu. Não tira um monte sem chapéu porque não gosto. Fica ruim.
Max Eluard – Fica não.
Germano – Fica uma coisa comum…
Max – Mas Germano, você vê hoje em dia alguém que tenha essa…
Germano – Por isso você me desculpe… Não vou assistir a show por causa disso. Vou te contar, as coisas de hoje em dia estão completamente… estão no senso do… eu não entendo. Não é mais como era… Eu não entendo. A não ser em determinadas circunstâncias, eu acho que… a indumentária de hoje, viu?
Max Eluard – Mas o que você acha que se perdeu?
Germano – Perdeu a… como é que se diz? Não é a personalidade…
Ricardo Tacioli – Identidade.
Germano – Não é bem identidade, perdeu o elã. Hoje é tudo muito esculachado. Você sabe disso. Tudo muito largado, tudo… a aparência… Em vez do cara ficar com uma aparência boa, fica com cara de bicho. Fica com cara de quem saiu da cadeia. Você pode ver… aquele cara que aparece na TV… pra que aquilo? Aquela… como é que ela chama? Aquela do canal 9…. Luciana Gimenez. Pra quê que aquele cara aparece com aquilo? [n.e. Germano refere-se aos chapéus do DJ Zé Pedro] O que simboliza? O que quer dizer aquilo? É um troço ridículo, uma coisa extravagante. Porque cê sabe… tudo o que é demais, tudo que sai do padrão… Eu vou te contar… Aquilo que tem valor, hoje não tem mais valor! Só tem valor hoje o que não tem valor! Mudou o negócio (ri).
Almeida – Que essência é essa que se perdeu?
Germano – Hein?
Almeida – E o que é essa essência?
Germano – Quero me lembrar da palavra. Tô com a palavra na boca e esqueci. Daqui a pouco te digo… Perdeu… [grita] a classe! Perdeu-se a classe! A pessoa não tem mais o ridículo. Perdeu-se a classe. Perdeu o…
Tacioli – Senso do ridículo.
Germano – Perdeu-se o elã, perdeu-se a elegância, perdeu-se tudo!
Almeida – Mas…
Germano – Não é melhor o cara ter uma boa aparência? Ah, taí. Perdeu-se a boa aparência. Perdeu-se. Graças a Deus que, onde eu for, faço sucesso. Com todos os meus 68 anos. Vou e ainda faço sucesso. Ainda bem que eu não ando desse jeito. Não ando. Desculpe, vocês usam brinquinho? [risos]
Almeida – Já usamos.
Germano – Porque quem usa brinquinho foi ou é ou tá pra ser! [risos] É ou não é?
Almeida – Mas, Germano, você não acha que por trás dessa indumentária pode ter uma alma sensível?
Germano – É, mas o hábito faz o monge! E não é só no Brasil, isso é no mundo inteiro.
Sérgio Seabra – Germano, concordo com você que as pessoas têm esse hábito de se vestir…
Germano – Porque mudou tudo, né?
Seabra – … – e de se comportar. Só que essas pessoas que usam brinco, esse tipo de coisa… a sociedade de hoje, não a de 30 anos atrás, não só aceita como estimula.
Germano – Por causa da alma que ainda… Sou adepto da metafísica. O espírito evolui de uma maneira, mas não evolui de outra. Poxa, mas você tá me filmando sem o chapéu? Não faça isso! Cadê o chapéu? Minha Nossa Senhora! Eu já me preparei pra tudo isso…
Dafne – Você não gosta mesmo, então?
Germano – Não! O chapéu dá a característica de sambista. Não é uma entrevista de samba?
Dafne – É uma entrevista com você.
Germano – Não é uma entrevista de samba? Então, meu negócio é falar sobre a carreira, sobre o samba. Sem chapéu fica horrível! Fico parecendo um gringo! O chapéu dá a característica de sambista… A característica.
Tacioli – Você usa o chapéu desde o começo de sua carreira, Germano?
Germano – Sempre usei. Sempre usei. No comecinho, não. No comecinho era assim… Isso aqui foi feito em 2001 e foi feito pra Internet também. [n.e. Mostra uma extensa matéria produzida pelo jornal O Estado de S. Paulo]
Tacioli – Saiu no Estadão.
Almeida – Ô, Germano, e esse cabelo escuro?
Germano – Ah, eu pinto. Preciso pintar, se não fico parecendo velho demais.
Almeida –Desde o começo da carreira?
Germano – Não, aí eu era moço, pô!
Almeida – Ah, você não era loirão, então?
Germano – Eu era moço aí.

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